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“… o Espírito anunciará a vocês as coisas que estão para acontecer”.


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“… o Espírito anunciará as coisas que estão para acontecer”.

1ro Domingo de Pentecostes – Ciclo C –  2016

Domingo da Santíssima Trindade

Textos:

1ra leitura: Provérbios 8,1-4; 22-31

Salmo 8

2da leitura: Romanos 5,1-5

Evangelho: João 16,12-15

O domingo passado, celebrando a festividade do Pentecostes, encerramos os cinquenta dias do tempo pascal. Celebramos o dom do Espírito Santo. E hoje, buscando vivenciar ainda mais intensamente a beleza de Deus, celebramos sua própria intimidade de amor e vida a se expandir para dentro da história da humanidade. Hoje celebramos a festividade da Santíssima Trindade, que da o nome a nossa paróquia.

No mundo antigo, o número 3 era considerado o número perfeito por ter princípio, meio e fim; era considerado um símbolo da totalidade; e por essa razão era considerado o símbolo do divino.

Na civilização celta, um conjunto de povos e tribos que povoaram a maior parte do oeste da Europa entre 2,000 a. C e 400 d. C., se lhe representava geometricamente mediante o triângulo, mas, particularmente, na chamada triquetra, que é um triângulo com espirais de três pontas entrelaçadas e um circulo ao redor ou no meio.

E na civilização celta encontramos a triqueta inscrita em pedras, capacetes e armaduras de guerra, representando o infinito, a eternidade, a perfeição e a precisão nas três dimensões; sendo considerado como um amuleto ou símbolo de proteção, interpretado como a interconexão dos níveis físico, mental e espiritual. Já para os cristãos esse símbolo passou a simbolizar a Trindade.[1]

No entanto, a doutrina da Trinidad é exclusiva dos cristãos. Algumas outras religiões têm algo parecido a nossa Trinidad, mas nem o judaísmo nem o islamismo aceitam a Trinidad. Mas, a vida do cristão vai marcada com o signo trinitário desde sua entrada na Igreja, como filho de Deus por meio do batismo administrado no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, até sua última bênção com a invocação trinitária ao morrer, ao encontro definitivo com Deus. Por conseguinte, tudo se nos dá no nome da Santíssima Trinidad.

Por isso, iniciamos cada celebração em nome da Trindade que nos convoca e reúne como o corpo de Cristo. Depois nos credos dizemos que cremos em Deus Pai, criador do céu e da terra, em Jesus Cristo seu Filho e no Espírito Santo, professamos nossa fé trinitária. No prefácio antes do Santus, nesta celebração da Santíssima Trindade, vamos reafirmar o nosso Deus como um Deus Triuno, digno de adoração e de honra pelos séculos dos séculos. Na Oração Eucarística, junto com Cristo, entoamos nossa ação de graças a Deus, nosso Pai, e pedimos ser santificados pelo Espírito Santo e pedimos também para sermos perfeitos no amor e assumirmos ser fieis discípulos e comunicadores da partilha, da comunhão e da salvação para todas as pessoas. Finalmente, ao final de celebração, retornamos à missão pedindo que Deus, Pai, Filho e Espirito Santo nos defendam e nos conduza pelos caminhos da verdade e da paz.

Ao longo dos séculos os teólogos tentaram investigar e colocar em conceitos teológicos e filosóficos o mistério de Deus. Porém, esses conceitos terminaram por esconder e encobrir seu mistério. Por isso, esse assunto da Trinidad, ou seja, “três são um e um é três”, tal e como se anunciou, ressoa aos ouvidos da maioria das pessoas simples como um enigma ou uma charada difícil de decifrar e explicar. E ai a maioria dos pregadores resolvem o problema simplesmente dizendo que é um mistério, que não há quem o entenda, e que é uma doutrina que devemos aceitar apenas por fé.

Entretanto, realmente quando falamos de Deus como Uno e Trino, não estamos afirmando uma fórmula científica ou matemática compreensível apenas para os teólogos. Não se trata disso; porque se a afirmação de que “três são um e um é três” for apenas uma questão numérica, isso seria de fato, a pior distorção do mistério da Trindade[2]. A doutrina da Trindade vem a ser uma das formas simbólicas, metafóricas e poéticas que a Igreja utiliza para descrever como é Deus, ou em que pensamos ou imaginamos quando ouvimos dizer a palavra Deus. E se as palavras Pai, Filho e Espírito Santo são símbolos, precisam ser compreendidos sempre de novo para que sua extraordinária riqueza apareça[3].

Biblicamente falando Jesus não fala muito de Deus, nem nos explica a Deus. Oferece-nos apenas e simplesmente a sua experiência de Deus. O chama de “Pai”, e o experimenta como uma presença muito próxima; e sente-se “Filho” desse Deus, e chamado a impulsionar e levar à sua plenitude o seu projeto; e sua paixão por Deus se traduz em compaixão por todos os que sofrem (cf. Mt 9,36; 11,27; 14,14; 18,35; Mc 6,34; 14,36; Lc 22,42; 23,34; Jo 2,16; 5,43; 8,54; 20,21). Por isso atua sempre impulsionado pelo “Espírito” de Deus, o hálito de Deus, que o envia a anunciar aos injustiçados e oprimidos a Boa Notícia do projeto de Deus, que a Bíblia chama: o Reino de Deus (cf. Mt 12,28; Lc 4,16-21; 10,9; 11,20; 17,21).

O evangelho de hoje acontece em um momento solene e, ao mesmo tempo dramático da despedida de Jesus a seus discípulos. Acontece durante a última ceia. A cabeça dos apóstolos já estava aturdida com tudo o que Jesus tinha dito ali em torno à mesa. Por isso Jesus fala: “Tenho ainda muitas coisas a dizer. Mas vejo que vocês não estão em condições de entender agora. Depois que eu for glorificado, ou seja, depois que eu morrer e ressuscitar, o Espírito Santo vai clarear para vocês a verdade das coisas que estão para acontecer. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso eu disse que o Espírito vai ficar sabendo oque eu lhe disse e vai anunciar a vocês” (Jo 16,12-16)..

Os sábios do Antigo Testamento já tinham intuído algo dessa intimidade do Deus eterno e criador de tudo o que existe, e falaram da eterna Sabedoria de Deus, como ouvimos na primeira leitura: “Antes que a terra fosse feita, a Sabedoria já tinha sido concebida”. E o salmista, encantado com a divina Sabedoria que se expande por todo o universo, exclama: “Ó Senhor nosso Deus, quão admirável é teu Nome em toda a terra! Que é um simples ser humano para que te preocupes com ele? No entanto fizeste o ser humano inferior somente a ti mesmo e lhe deste a gloria e a honra de um rei” (Sl 8,5-7). E como testemunha o apóstolo Paulo, na segunda leitura de hoje, sentimos todo o amor de Deus “derramado em nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado”.

Mas, que significa e tem a ver tudo isso com a Trindade? Significa muito se nos afastamos do artifício numérico contido nesse conceito filosófico e teológico e repensamos a Trindade como a explicação metafórica, simbólica e poética, da intimidade do próprio Deus; porque só podemos pensar de Deus mediante a linguagem metafórica e simbólica da poesia; se repensamos a Trindade como a afirmação de um Deus que é diverso e com muitos rostos; se repensamos a Trindade com a imagem de uma árvore com raiz, tronco, galhos e frutos; se repensamos a Trindade afirmando que Deus não é solidão infinita, mas a mais perfeita comunidade.

E se o número três é símbolo da multiplicidade, mas ao mesmo tempo símbolo da totalidade e da unidade, quando somos batizados em o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, estamos dizendo que somos insertados na perfeita comunidade de Deus; significa que Pai, Filho e Espírito Santo são expressões simbólicas, metafóricas e poéticas dentro da experiência cristã para falarmos dessa intuição profunda de que finalmente somos todos e todas com tudo o que existe, participantes do mesmo sopro de vida[4]; significa, finalmente, que entramos em uma nova relação com a vida, onde somos chamados a aprender a construir comunidade, a comunidade de Jesus Cristo, Reino de Deus sobre esta nossa terra.

Dessa maneira, será a partir dessa relação com a perfeita comunidade que é Deus, onde há espaço para todos e todas na riqueza de nossa diversidade; e onde há espaço também para todos os marginados, cansados e oprimidos; que seremos bons colaboradores na construção de uma sociedade e um mundo mais justo e melhor, sendo missionários de unidade de comunhão e de fraternidade entre os seres humanos, para que todos tenham vida, e vida em abundância; com a certeza de que Jesus Cristo está com todos nós, todos os dias, até o fim dos tempos.

Por isso estamos aqui hoje. É por isso que, como cristãos e cristãs, discípulos e discípulas de Cristo, nos reunimos todos os domingos. Para aprendermos a nos conectar com nossa essência e, a partir dessa conexão, aprendermos a construir comunidade, Reino de Deus, sobre esta nossa terra. A Santíssima Trindade é a melhor comunidade, feita união, comunhão e partilha. A partir dela, em conexão permanente com ela, é que seremos bons colaboradores dela para construir uma sociedade humana mais sadia, fraterna e solidaria.

[1] Na época em que o  Império Romano invadiu e conquistou a ilha da Grã-Bretanha, o povo celta era o povo que habitava esta região. Chegaram na região vindos de diversas regiões da Europa, entre os séculos II e III A.C. Era um povo formado por indivíduos fortes e altos. Dedicavam-se muito à arte da guerra, embora também tenham desenvolvido muito o aspecto artístico, principalmente o artesanato. Conheciam técnicas agrícolas desenvolvidas para a época como, por exemplo, o arado com rodas. Fabricavam joias, armaduras, espadas e outros tipos de armas, utilizando metais. Fabricavam carros de guerra desenvolvidos, que chegavam a provocar medo nos inimigos. Eram politeístas e faziam seus rituais religiosos ao ar livre. No calendário celta havia diversas festas místicas como, por exemplo, o Imbolc (em homenagem a deusa Brigida). Esta festa marcava o início da época do plantio das sementes. As cerimônias e os rituais eram responsabilidade dos druidas, os sacerdotes dos celtas. Veja John Haywood, Os Celtas, Edições 70, Brasil.

[2] Carlos Eduardo Calvani, “Domingo da Santíssima Trindade”, em: Pão de Vida – Comentários ao lecionário anglicano, Ano A, Centro de Estudos Anglicanos, Porto Alegre, 2007, p.230-232.

[3] Ivone Gebara, Trindade, palavra sobre coisas velhas e novas. Uma perspectiva ecofeminista, Paulinas, São Paulo, 1994, p.19.

[4] Ivone Gebara, op. cit., p.36.

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