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Homilias

A partilha solidária


A partilha solidária

A partilha solidária

9o Domingo de Pentecostes – Ciclo B

Textos

1ra leitura: 2 Samuel 11,1-15 ou 1 Reis 4,42-44

Salmo 14 ou 145,10-18

2da leitura: Efésios 3,14-21

Evangelho: João 6,1-15

Interrompendo a sequência do evangelho de Marcos, a liturgia propõe, nos próximos cinco domingos, refletir sobre o capítulo 6 do evangelho de João: a multiplicação dos pães e os peixes, também chamado a alimentação das multidões, e o longo discurso sobre o Pão de Vida. É um capítulo que aponta fundamentalmente para a imagem da Eucaristia, memorial da páscoa de Jesus.

E o ato de alimentar-se não é apenas uma necessidade vital, biológica, sem a qual não podemos sobreviver. Ela é sinal e expressão de nosso modo de viver como seres humanos, como comunidade ou sociedade que, na procura e na distribuição do alimento, revela sua solidariedade e seus valores.

O texto do evangelho de hoje conhecido como “a multiplicação dos pães e os peixes”, ou “a alimentação das multidões”, é um texto que, com suas variantes, tem paralelo em todos os evangelhos (Mt 14,13-21; Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-15). É um texto que concentra um simbolismo muito forte, revolucionário, e caracteriza a identidade dos cristãos. Por isso, é um texto que não é apenas uma imagem da Eucaristia, mas que revela e anuncia o Reino anunciado quando todos serão saciados e a morte será definitivamente vencida, verdadeiro sentido da missão de Jesus, que sente as necessidades do povo e o alimenta tanto com a Palavra como com o pão partilhado.

Deste modo, celebrar a Eucaristia, tendo como pano de fundo a multiplicação dos pães e dos peixes é contestar a sistema de acumulação que domina nosso mundo e coloca milhões de pessoas na miséria.

O texto descreve várias cenas. A primeira cena mostra a Jesus entrando na Galiléia, região marcada pela escravidão, região de trabalhadores pobres, região de latifundiários. A Páscoa está próxima, entretanto o povo decide não ir a Jerusalém, mas seguir Jesus. Um gesto novo e revolucionário que rejeita assim o poder explorador concentrado no Templo de Jerusalém. O povo vinha de longe atraído pela fama e dos sinais de Jesus e sem dúvida estava faminto. E Jesus aproveita esses momentos para ensinar a partilha, caraterística fundamental de seu projeto.

A segunda cena mostra Jesus olhando para essa multidão faminta que precisava ser alimentada. E sem dúvida, ainda sabendo o que iria fazer, remete aos discípulos a necessidades do povo. Mas eles não conseguem ver como poderiam alimentar a tantas pessoas; pensam com a lógica humana, que não teriam suficiente dinheiro para isso: “Onde vamos comprar comida para toda esta gente!”

Na terceira cena aparece um menino que tem cinco pães e dois peixinhos. Mas ainda os discípulos continuam pensando com a lógica humana: “Mas o que é isso para tanta gente!” Porém, o menino que oferece cinco pães e dois peixinhos simboliza o milagre que pode acontecer quando o egoísmo dá lugar à solidariedade, ao pensar no ‘nós’ e não no ‘eu’. Não é a quantidade de pães e peixes que importa e sim o gesto da oferta.

Na quarta cena vemos que a oferta do próprio povo, representada pela oferta do menino, é elevada a Deus por Jesus que, dando graças, repartiu com todos. Assim, estimulado pelo gesto da partilha aconteceu o “milagre”, o que parecia impossível, todas as pessoas comeram a ainda sobraram doze cestos. E os doze cestos com as sobras são recolhidos, a pedido de Jesus, para que nada se perca. Porque os dons não podem ser perdidos. Tudo o que recebemos e, em comunidade partilhamos, é valioso e deve ser preservado.

Entretanto, podemos correr o risco de diminuir o sentido real do texto enfatizando o “milagre” apenas como uma ação sobrenatural de Jesus. A chamada “multiplicação dos pães e dos peixes”, ou como outras vezes se fala, “a alimentação das multidões”, concentra um simbolismo muito forte que vai além de uma interpretação sobrenatural.

O homem moderno tende a considerar os milagres como ocorrências extraordinárias, fatos que constituem exceções às leis da natureza. Mas muitas vezes perdemos de vista que os elementos que constituem um milagre nos são muito familiares porque pertencem à vida cotidiana. Dessa maneira, o milagre consiste, muitas vezes, em uma mudança de mentalidade e/ou uma mudança de atitude.

Além disso, faço a ressalva que em nenhum dos evangelhos se fala de “multiplicar”. Todos os chamados evangelhos sinópticos (Mt/Mc/Lc) utilizam os termos gregos «katakláo/kláo» que significam «partir/dividir» e «dídomi» que  significa «distribuir/dividir» (cf. Mt 14,18; Mc 6,41; 8,1-10; Lc 9,16); já o evangelho de João utiliza apenas o termo grego «dídomi» que significa, como já comentamos, «distribuir/dividir» (cf. Jo 6,11); ou seja, que, segundo a tradição evangélica, o que Jesus realmente fez foi tomar os cinco pães e os dois peixes oferecidos pelos menino, e os partiu, os dividiu e os distribuiu. .

E certamente o milagre se deu. Deu-se em uma mudança de mentalidade, em uma mudança de atitude: deu-se na partilha! Porque o milagre começa a acontecer quando os que tinham algo guardado para si, inclusive os próprios discípulos, envergonhados pelo gesto e atitude do menino, mudaram de atitude, mudaram de mentalidade, também se comoveram, e colocaram o que tinham a disposição de todos.

Então, o evangelho de hoje traz dois grandes ensinos. Um deles é que a dinâmica do Reino é a arte de repartir/partir/dividir/distribuir o que se tem, mesmo que apenas sejam “cinco pães e dois peixes”. É repartindo, sendo solidários, que realizamos o projeto de Jesus. Assim, Jesus não dá esmola, porém ensina às pessoas a repartir o que têm, mesmo que seja uma coisa insignificante como “cinco pães e dois peixes”. Porque há uma grande diferença entre dar esmola e o ato de repartir. A solidariedade e o partilhar geram irmandade, fraternidade, unidade e trazem alegria. A esmola e o paternalismo podem produzir desigualdade, divisão e humilhação.

E porque existem tantos pobres e famintos abandonados e sem carinho, tantas pessoas rejeitadas, marginadas e discriminadas, o segundo grande ensino que o texto traz, é que como comunidade cristã, chamada a seguir o exemplo de Jesus, não podemos cruzar os braços nem fechar os olhos diante a situação de tantos sofredores, humilhados, e discriminados.

Dessa maneira, somos convidados hoje a termos compaixão das multidões famintas, dos abandonados, dos presos, das crianças que vivem na rua, dos aidéticos, e de todas as pessoas rejeitadas pelos preconceitos de raça, sexo, religião, orientação sexual etc. Precisamos abrir as mãos e o coração para a partilha e a solidariedade. E dar às pessoas menos favorecidas o direito de receber o pão da vida, significa comprometer-se de corpo e alma nas exigências do amor, significa fazer acontecer uma «nova repartição/divisão/distribuição dos pães e dos peixes». Porque se tem pessoas passando fome, não é tanto pela pobreza em si, mas pelo fechamento de quem não se importa com os demais.

Certamente a partilha e a solidariedade marcaram profundamente as primeiras comunidades cristãs; e hoje ao partir o pão com todas as pessoas, descobre-se a presença, sempre nova e atual, do Jesus Ressuscitado entre nós!

E na abertura solidária para os outros, não podemos esquecer que a melhor oferta de pão, que ninguém recusa porque não marginaliza ou exclui, é o amor, a acolhida, a aceitação dos diferentes, o respeito à dignidade de cada pessoa. E talvez esse seja o pão de que mais se tenha fome em nossos dias.

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