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Homilias

Uma manhã de sábado…


 

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Uma manhã de sábado…

3ro Domingo depois da Epifania –  Ciclo C – 2016

 Textos:

1ra Leitura: Neemias 8,1-3.5-6
Salmo 19
2da leitura: 1 Coríntios 12,12-31a
Evangelho: Lucas 4,14-21

Todos os evangelistas contaram aspectos da vida de Jesus destacando o que achavam que era importante para a comunidade à qual o evangelho estava encaminhado. No domingo passado o evangelho de João presentou a primeira manifestação pública de Jesus em Caná da Galileia, no contexto de um casamento, onde, segundo a narrativa de João, Jesus realiza seu primeiro sinal. Aí Jesus se manifesta como o vinho bom e abundante que traz alegria e transforma a vida na grande festa do Reino.

Neste terceiro domingo da Epifania tem inicio a proclamação do evangelho de Lucas, considerado por muitos o evangelho dos pobres, do Espírito e da prática cristã, e que vai conduzir e terá destaque na caminhada da liturgia dominical neste chamado Ano ou Ciclo C.

Lucas inicia seu evangelho com um prólogo (Lc 1,1-4), onde destaca o valor das tradições transmitidas pelas “testemunhas oculares” que conviveram com Jesus. Esse prólogo destaca que é a fé nos “fatos ocorridos” nos eventos e ações realizados por Jesus, que torna alguém “ministro da palavra”. Dessa maneira o propósito do evangelho é suscitar e dar firmeza à fé, levando as pessoas a viver a experiência do amor de Deus.

Entretanto, se vem no evangelho de João a primeira manifestação pública de Jesus se dá em Caná da Galileia, no contexto de um casamento, no evangelho de Lucas a primeira manifestação pública de Jesus se dá em uma celebração semanal da sinagoga da própria cidade onde ele crescera: Nazaré.

Nessa manhã de sábado os habitantes do pequeno povoado de Nazaré se reúnem para ler alguns Salmos, e comentar algum trecho de algum livro da Lei (Pentateuco), e algum outro livro profético. Certamente, como bom judeu, Jesus acostumava de participar com toda a sua família nas celebrações da sinagoga e também acostumava realizar o ministério de leitor das Escrituras.

Mas segundo a narrativa de Lucas esse dia foi um dia muito especial. A cena apresentada pelo evangelista é de grande importância para entender a missão de Jesus. O evangelista é muito detalhista nos verbos que expressam suas ações. Fala o evangelho que nesse dia Jesus “entrou” na sinagoga da cidade onde fora criado, “levantou-se para ler as Escrituras”, lhe foi entregue o livro do profeta Isaias, “abriu o livro”, “e encontrou o texto”, onde estava escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu/me escolheu, para pregar/levar boas notícias/boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar/anunciar liberdade aos cativos/presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os que estão sendo oprimidos e proclamar/anunciar que chegou o ano da graça/o tempo em que o Senhor salvará o seu povo”.

Ao terminar a leitura, e continuando destacando as ações de Jesus, o evangelho fala que Jesus “fechou o livro”, “entrego-o” para o ajudante e “sentou-se”. Aparentemente era uma participação comum como leitor das Escrituras na sinagoga de cidade onde cresceu. Porém, esse dia a leitura teria uma característica muito especial.

Continua falando o texto que quando terminou a leitura todas as pessoas presentes olharam para Jesus sem desviar os olhos dele. Porém, Jesus, já sentado, posição comum dos rabinos e mestres judeus quando iam dar um ensino ou falar algo muito importante, comenta o texto pronunciando apenas uma frase que mudou todo o sentido da leitura: “Hoje se cumpriu o que vocês acabam de escutar”.

Em muitas outras ocasiões Jesus diria que sua missão era inaugurar o Reino de Deus; de proclamar a “Boa Nova” ou as “Boas Notícias” de Deus. Porque isto é o que a palavra evangelho quer dizer: “Boas Novas” ou “Boas Notícias”. Mas esse dia na sinagoga da pequena, desconhecida e insignificante Nazaré, quando Jesus comentando o texto diz “Hoje se cumpriu o que vocês acabam de escutar”, pela primeira vez o mensageiro e a mensagem se identificam. Jesus, assumindo e atualizando as palavras do profeta Isaias, apresenta seu programa: o projeto do reinado de Deus; a razão da sua vida, e também a causa da sua morte; e se apresenta como o Messias prometido e esperado, anunciando uma nova vida para o povo oprimido e marginalizado.

E dessa maneira o evangelista sinaliza que as promessas de salvação de Deus se cumpriam e se cumprirão no ministério de Jesus. Nele se atualiza a “Boa Notícia” para os pobres, os prisioneiros, para os cegos e para os oprimidos. A “Boa Notícia” já não é mais uma coisa do passado ou apenas uma esperança futura; é uma realidade já presente. Jesus atualizou as Escrituras, em sua própria vida, em sua atitude iniciada no batismo e terminada na cruz. E ele proclama a Palavra com tal expressão, que os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. E será a partir desse dia, segundo a narrativa de Lucas, que Jesus começa sua caminhada na Galileia, ensinando nas sinagogas provocando a aceitação de uns e a rejeição de outros.

Nos versos a seguir (Lc 4,21-30) que será a temática do evangelho do próximo domingo, o evangelista descreve a reação das pessoas reunidas na sinagoga de Nazaré diante do anuncio e as palavras de Jesus; uns aprovam e aceitam, outros duvidam, mas outros rejeitam (cf. Lc 4,22-30). Mas, reparamos, se continuamos a leitura do evangelho até o verso 30, que a visita de Jesus esse dia na sinagoga de Nazaré terminou em um tumulto e em uma confusão; suas palavras e seus comentários não agradaram a muitos, porque, fazendo uma retrospectiva histórica, criticou a falta de amor e solidariedade para com as viúvas, os doentes e os estrangeiros, em fim, para com os mais fracos, humilhados e esquecidos da sociedade. E diz a continuação do texto que “os que estavam na sinagoga ficaram com muita raiva, levantaram-se, arrastraram e expulsaram Jesus para fora da cidade e o levaram até o alto do monte onde a cidade estava construída para, de lá, precipita-lo abaixo. Mas ele passou pelo meio da multidão e foi embora” (Lc 4,28).

No entanto, sem dúvida, não foi o texto lido do profeta Isaias o que provoca o conflito, senão a recriação e atualização que Jesus realiza do texto. É o “Hoje se cumpriu…”, o novo e o radical, e o que incomodou e irritou a muitos dos presentes; talvez muitos deles comerciantes, campesinos ricos e pessoas acomodadas, que se importavam pouco pela sorte dos mais fracos e menos favorecidos, e desejavam continuar vivendo à custa dos pobres; porque esse “Hoje se cumpriu…” era a afirmação da chegada em Jesus do Reino messiânico; Reino que se vincula à denúncia e à rejeição dos esquemas sociais, econômicos e religiosos opressivos geradores de morte.

Porém, irmãos e irmãs, o “Hoje se cumpriu…” proclamado por Jesus nesse sábado na sinagoga de Nazaré é também para nós hoje; porque a palavra de Deus é sempre atual, pois fala da vida, da história e das esperanças do ser humano, interpelando-nos a gestos de amor fraterno e de partilha. Em Jesus somos parte de uma nova criação, somos o novo povo de Deus. E as palavras de Jesus a favor dos pobres, dos desabrigados e dos doentes na sinagoga de Nazaré, em fim, dos mais fracos da sociedade, constituem também um apelo e um desafio para nós hoje.

Entretanto, esse empenho e desafio que temos de “anunciar uma Boa Notícia aos pobres”, e de “dar vista aos cegos” de hoje, tem para nós também um significado que vai além de curar apenas a cegueira física dos outros; é também curar a nossa própria ‘cegueira’ quando não enxergamos a realidade por estarmos com a visão embaciada ou com ‘viseiras’ que impedem vermos a realidade em toda a sua amplitude. É curar a nossa ‘cegueira’ quando não vemos com nossos próprios olhos, não pensamos com nossa própria mente, não escutamos com nossos próprios ouvidos e, por isso mesmo, não dizemos nossa própria palavra, mas reproduzimos as ideias do pensamento dominante na sociedade[1].

A leitura de Primeira Carta de Paulo aos Coríntios ressalta que todos juntos formamos um só corpo em Cristo; que partilhamos de uma existência comum; e que é necessário ter um cuidado especial com as partes do corpo mais sofridas e fragilizadas. Também ressalta que como o corpo humano necessita de membros diferentes, também a comunidade precisa de uma diversidade de dons, ministérios e atividades que se que complementam mutuamente.

E sendo a palavra de Deus sempre atual; ela deve repercutir em nossa vida e missão, conduzindo-nos a uma prática liberadora integral, conforme a Boa Notícia trazida por Jesus de Nazaré; e tendo recebido diferentes dons do Espírito para realizarmos nosso compromisso a serviço do Reino, como membros do corpo de Cristo, somos impelidos hoje a colaborar para a realização e afirmação do amor e da justiça.

Como repercute a palavra e a prática de Jesus em nossas comunidades? Como estamos hoje vivenciando o projeto de Jesus que escutamos no evangelho de hoje? Será que nossa fé alcançou a maturidade de unir em um ato de louvor o momento de ouvir o anúncio da Palabra e o momento da partilha com os que nada têm?

Apresentando a missão de Jesus dinamizada pela força do Espírito, o evangelho de hoje nos desafia a que também abramos nosso coração ao Espírito Santo e nos coloquemos a seu serviço. E assim sendo, e como comunidade fraterna chamada a continuar a missão de Jesus, resta-nos pedir que a graça de Deus nos ajude e nos dê as forças e a vontade para que possamos ser instrumentos de libertação de todas as formas de opressão, seja social, econômica, política ou religiosa; para que possamos participar das alegrias e dos sofrimentos uns dos outros; e para que possamos promover a vida, tendo um cuidado muito especial com os membros do corpo mais necessitados.

[1] Ildo Bohn Gass, “O Espírito do Senhor me ungiu para anunciar a boa-nova aos pobres (Lc 4,16-21”, em: Centro de Estudos Bíblicos, Terça-feira 22 de janeiro de 2013, http://www.cebi.org.br

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