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Homilias

“A Palavra se fez humanidade e habitou entre nós…”


Natal - 2

“A Palavra se fez humanidade e habitou entre nós…”

 2do Domingo de Natal _- Ciclo C – 2015

Textos:

1ra leitura: Jeremias 31,7-14

Salmo 147,12-20

2da leitura: Efésios 1,3-14

Evangelho: João 1,1 [1-9] 10-18

É tempo de Natal! E estamos reunidos em torno do mistério da Palavra que se fez humanidade e veio habitar entre nós. Deus entra definitivamente em nossa história através de Maria, uma mulher pobre e marginalizada, no seio de um povo sofrido e dominado, em um lugar e uma época bem concretos: na época de César Augusto, imperador romano desde o ano 27 a.C.

O império romano exerce um poder de dominação sobre as pessoas, explorando-as. Assim, Jesus nasce entre os pobres, migrantes e pastores; encarna-se no dia-a-dia dos que sofrem. E isto é uma boa notícia! Deus é solidário com a humanidade e a humanidade pode agora tomar um novo rumo. E o desejo de Deus é que a humanidade toda viva. É ação completa trazendo paz e justiça fraternidade e solidariedade para toda humanidade.

O evangelho de João foi escrito por volta do ano 90, em Ásia Menor, hoje Turquia, utilizando lembranças tracionais sobre Jesus, segundo a tradição da comunidade de João, conhecido como “o discípulo amado”. O último texto acrescentado ao conjunto do livro foi certamente o Prólogo (Jo 1,1-18). Ele demonstra e resume o que ao final do século primeiro, torna-se o pensamento cristão a respeito do Cristo.

O Prólogo do quarto evangelho é um hino litúrgico, uma bela poesia, cujo sujeito é a Palavra: em hebraico, dabar, em grego, logos e em latim, verbum. É a mais brilhante síntese desse evangelho, contendo um resumo de todos seus grandes temas. O Prólogo fala da Palavra existindo desde sempre junto de Deus, fala da Palavra no mundo e fala da Palavra no mundo voltada para Deus.

E o que é a Palavra? É a força criadora que da vida a todo, mas que existiu desde o principio junto com Deus. É a eterna Sabedoria criadora de Deus (cf. Provérbios 8,22-36; Sabedoria 9,9-12; Eclesiástico 24,3-22.

Enquanto o evangelho de Marcos começa com o batismo de Jesus, e os evangelhos de Mateus e Lucas apresentam a genealogia de Jesus, logo no inicio, João remonta o inicio de seu evangelho a um princípio anterior à criação: a Palavra está antes de tudo. A Palavra é o sujeito que cria e atua. Desta maneira as primeiras páginas da Bíblia são resumidas por João: tudo veio pela Palavra de Deus.

Porém, no prólogo de João a Palavra é uma pessoa concreta: Jesus de Nazareth. E João começa seu evangelho exatamente com as mesmas palavras do Génesis: “No princípio…”. É como querendo significar que em Jesus acontece um novo começo, um novo ato criativo de Deus, uma nova criação. Assim, falasse que enquanto os outros evangelhos fazem uma bela fotografia de Jesus, o evangelho de João faz uma radiografia, porque nos convida a penetrar no mistério de Deus. João identifica Jesus com a Sabedoria criadora de Deus, e a Sabedoria é o sentido da vida presente em todas as coisas: “Nele estava a vida”, diz o evangelho.

E essa Palavra geradora de vida assumiu um corpo humano, se fez humanidade, se fez história, porém, foi rejeitada na sua própria casa. Mas, como diz o Prólogo, felizes os que a receberam, pois foram capacitados para serem filhos e filhas, nascidos de Deus (Jo 1,12).

Quando o evangelho diz que a Palavra “habitou entre nós”, ou seja, “armou, colocou sua tenda entre nós, acampou em nosso meio”, significa que Jesus, essa Palavra encarnada de Deus, é de agora e para sempre o ponto de encontro de Deus com a humanidade, o novo e definitivo Templo de Deus onde se encontra e adora a Deus. Deste modo, o evangelho afirma litúrgica e poeticamente que Jesus é e será a presença visível do Deus invisível; a gloria de Deus sempre presente na humanidade; a manifestação da gloria divina; a comunicação de Deus conosco. O que Jesus fala e faz, é Deus quem fala e faz. Por isso, quando esse filho de um carpinteiro e de uma humilde mulher, convida os pecadores, é Deus quem chama; quando censura os hipócritas da sua época, é Deus quem julga; quando funda uma fraterna comunidade de discípulos e discípulas, é Deus mesmo quem está presente nela; e, finalmente, quando morre por amor fiel até o fim, é Deus mesmo quem manifesta seu amor por toda a humanidade.

E esse Jesus, plenitude do amor e da revelação de Deus é portador de uma novidade absoluta, diz o evangelho: “… todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça” (Jo 1,16). E corresponder ao seu amor é fazer o que ele fez, ou seja, amar sem limites.

Trata-se de um amor que supera e transcende toda a Lei antiga. Porque a vida não está mais na Lei, e sim no amor fiel que se entrega até o fim. Dessa maneira, quem deseja conhecer e encontrar o Deus invisível tem agora a possibilidade de vê-lo em Jesus.

E nosso mundo, muitas vezes desesperançado, desanimado e abandonado, tem hoje a oportunidade de renovar a caminhada, escutando a boa notícia da chegada, em Jesus, do Reino de Deus. Jesus é o projeto de Deus que se fez um de nós. Não existe mais distância entre Deus e nós. Jesus é em pessoa aquilo que Deus sonhou para toda a humanidade: salvação, paz, boa notícia, alegria, compaixão, justiça e liberação. Em Jesus conhecemos o rosto de Deus; ele é a fonte para nos aproximarmos do mistério de Deus. E sendo Jesus o rosto humano de Deus, tudo se torna mais simples, mais claro e mais transparente. Agora sabemos como Deus nos olha quando sofremos, como nos busca quando nos perdemos, como nos entende e perdoa quando o negamos. Resumindo, em Jesus nos é revelada a graça e a verdade de Deus[1].

Não é possível separar Natal e nossa realidade de hoje; fé cristã e história humana; a encarnação de Deus em Jesus e a gente pequena. Por isso, não é possível separar Natal das pessoas sofridas, empobrecidas, discriminadas, marginalizadas e excluídas de hoje. Nossa fé leva-nos à luta cotidiana para que o cheiro do presépio e o canto dos anjos de “paz na terra e boa vontade para com todas as pessoas” (Lc 2,14), se espalhei por toda a terra e chegue ao palácio dos imperadores de hoje. E à medida que nós formos novos Cristos, também nossa vida e nossa história será uma Palavra de Deus para todas as pessoas, e mostrará ao mundo o verdadeiro rosto de Deus: um rosto de amor [2].

O mistério do Natal nos convida a uma verdadeira e total reconciliação com nossa realidade humana, pessoal e social, para sermos pessoas profundamente humanas, abertas a relações fraternas e solidárias com a causa dos empobrecidos, dos marginalizados e dos excluídos, “os pastores” de hoje, a quem a boa notícia de libertação deve ser anunciada e concretizada.

[1] José Antônio Pagola, O Caminho aberto por Jesus: João, Petrópolis, Vozes, 2013, p.18-19.

[2] J. Konings. Liturgia Dominical: mistério de Cristo e formação dos fieis (Anos A-B-C) Petrópolis, Vozes, 2003, p.53.

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