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Homilias

“DEVO ESTAR NA CASA DE MEU PAI”


 

Jesus no templo

“DEVO ESTAR NA CASA DE MEU PAI”

1ro Domingo de Natal –  Ciclo C 

Textos:

1ra leitura: 1 Samuel 2,18-20.26

Salmo 148

2da leitura: Colossenses 3,12-17

Evangelho: Lucas 2,41-52

O tempo de Natal é festa da luz, das confraternizações e troca de presentes. É a festa da encarnação do Verbo, Palavra eterna de Deus, que em seu ato solidário, assumiu nossa condição humana. E o tempo de Natal se prolonga na liturgia em textos que ajudam a aprofundar o mistério da encarnação. Todos eles em sintonia com um único acontecimento: Deus se fez um de nós. Deus em Jesus Cristo colocou sua casa em meio de nós. Ou seja, Deus vem ao encontro da vida humana por inteiro, para possibilitar aos seres humanos entrar em comunhão com a vida divina.

O texto do evangelho de hoje é a única informação que os evangelhos dão da adolescência de Jesus. Realmente os escritores bíblicos não se preocuparam muito em narrar fatos ou episódios do período infantil da vida de Jesus. Para eles o que importava era saber quem é ele e qual sua missão. Algumas comunhões cristãs chamam este domingo de Domingo da Sagrada Família.

Ao colocar sua morada entre nós, Jesus o fez no seio de uma família, precisamente para valorizar e dignificar esta pequena comunidade humana e para nos mostrar o quanto ela é significativa e essencial no contexto da sociedade e da Igreja. Deus escolheu se encontrar com a humanidade no seio de uma família humana comum, independente de seus limites, imperfeições e dificuldades; é esse o lugar do encontro, profundamente humano e existencial com a humanidade. Porém, o texto do evangelho de hoje acentua a relação de Jesus com Deus, sinalizando que a missão ultrapassa os limites da família a que pertence por laços de sangue.

Na segunda leitura tomada da carta aos Colossenses, Paulo dirige-se à comunidade de Colossos. Não temos certeza, mas talvez essa carta tenha sido escrita quando ele estava na prisão. Na segunda parte da carta Paulo reflete sobre as relações humanas em todas as dimensões, sobretudo, no âmbito familiar e nos leva a nos revestirmos das virtudes e atitudes essenciais para seguir o caminho da nova vida em Cristo. Mostra que a compaixão, a bondade, a humildade, a paciência, o perdão mútuo culminam no amor que é o fundamento da vida familiar. A família é uma pequena comunidade e, como tal, a par de alegrias e realizações, enfrenta também dificuldades. Por isso Paulo em sua carta recomenda “perdoai-vos mutuamente”.

Comentando o texto do evangelho de hoje vemos que Jesus participa com os pais da peregrinação a Jerusalém, para celebrar a festa da Páscoa. Segundo o texto Jesus começa a sentir a alegria de viver na comunidade dos fiéis israelitas, pois já tinha completado doze anos, idade da maturidade na tradição judaica.

Terminada a festa da Páscoa que costumava durar sete dias, José e Maria tomam o caminho de volta a Nazaré da Galileia. Mas o texto afirma claramente que Jesus permaneceu deliberadamente em Jerusalém sem o consentimento de seus pais. Quando José e Maria notam a ausência de Jesus entre os companheiros de viagem, voltam a Jerusalém e, após três dias de procura, o encontram sentado entre os mestres da Lei, participando do ensinamento ministrado nos átrios do templo.

Diz o texto que as pessoas que acompanhavam o ensinamento dos mestres da Lei, ficaram maravilhados com a sabedoria de Jesus. E quando os pais aflitos cobram dele sua ausência Jesus lhes revela o sentido de sua missão: “Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai” (Lc 2,49). Mas seus pais não compreendem o que ele lhes dissera. Porém, o texto, faz a ressalva de destacar mais uma vez a figura de Maria, mencionada como exemplo de pessoa que, mesmo sem entender plenamente o mistério que cercava a vida de Jesus, “guardava todas essas coisas no coração”.

No texto do evangelho de hoje Jesus revela que sua família, mais que do que nos laços de sangue, está centrada na obediência a Deus, Pai e Mai comum de todas as pessoas que creem e realizam sua vontade seguindo seu projeto de amor. Mas Maria com sua atitude torna-se, mais uma vez, símbolo e modelo que pode iluminar nossa caminhada a serviço do reino de Deus.

Jesus, vindo à terra no seio de uma família humana, oferece a ocasião para refletir sobre a família como ambiente vital e social, onde cada pessoa se insere ao nascer. Ele ensina a viver o amor, a comunhão, a solidariedade e a partilha. Sendo o amor o elemento essencial que faz reinar a paz e harmonia nas famílias; é o critério para viver a felicidade em Deus e a fonte da unidade familiar.

Como José e Maria, hoje muitas vezes nós também não compreendemos o agir de Deus e o mistério de Jesus.  Sem dúvida, ele continua nos surpreendendo. No texto de hoje Maria nos dá um exemplo que merece ser seguido, ainda sem compreender tudo, como Maria, precisamos “guardar certas coisas no coração”. Porque a fé cristã não se fundamenta na lógica ou na compreensão, mas acima de tudo na disposição e na vontade de permanecer em Jesus e em seus ensinamentos.

A celebração eucarística dominical é o encontro da família de Deus Nela o próprio Senhor renova a comunhão pela graça do seu amor. Nossa reunião dominical é expressão e sinal de nossa caminhada com Jesus e do desejo de vivermos como irmãos e irmãs numa grande família, unidos pelos laços da fé e da solidariedade. A cada encontro dominical, à mesa da grande família, vamos crescendo pela sabedoria e força que nos vêm pela Palavra de Deus, pelo pão eucarístico partilhado, até que, unidos na justiça e dias melhores para todos, chegarmos a fazer a vontade de Deus, nosso Pai e nossa Mae.

Também os textos da liturgia de hoje devem nos levar a pensar em tantas crianças indefensas, sem famílias e violentadas pelos sinais de morte que as marcarão para sempre: falta de amor e de aconchego, carência de bens materiais para resolver suas necessidades básicas e outras marcas indeléveis. E aí a Igreja é chamada a atuar, a mostrar a coerência de sua opção preferencial pelos mais pequenos e empobrecidos, procurando que todos tenham condições de uma vida familiar digna.

No entanto, como cristãos, convencidos do grande valor da família humana, em nosso mundo atual, plural e diverso, somos também constantemente desafiados e confrontados com outras formas de pensar e outros modelos não convencionais de família.

Fala-se que mais do que em uma época de mudanças, vivemos neste século XXI, uma mudança de época. E a comunidade familiar não está imune dessas mudanças e transformações. O padrão convencional de família –pai, mãe, filhos- está sendo questionado, confrontado e revisado, porque responde a uma cultura e uma época muito diferente da nossa. E em nossa realidade plural e diversa cabe-nos o respeito e aceitação dos novos modelos e arranjos familiares. Todos esses novos modelos de famílias devem se sentir acolhidos, embora existam diferenças. A negação de suas identidades e relações familiares de maneira direta ou a sua invisibilização de maneira sutil colocam em questionamento a ideia de uma Igreja inclusiva e acolhedora para todas as pessoas e, em alguns casos, até mesmo a própria fé da Igreja. Nesses casos, o acolhimento, o respeito e a aceitação serão sempre melhor, em sintonia com o amor abrangente de Deus, que o julgamento e a exclusão.

Então, vamos orar para que nossas famílias, sejam elas como forem, sejam uma pequena igreja, e para que nossa Igreja seja uma grande família acolhedora e inclusiva.

Finalmente gostaria fazer a ressalva que a liturgia deste último domingo de 2015 pode-nos inspirar a fazermos uma “decisão de ano novo”: que sejamos mais abertos a nos maravilhamos com as surpresas e desafios inesperados que Deus nos reserva em 2016, que não nos afastemos de Jesus, que voltemos em sua procura, que, como Maria, guardemos no coração tudo aquilo que ainda não nos é dado compreender, e que procuremos para nós e para os outros, um crescimento integral em todas as dimensões da vida.

 

 

 

 

 

 

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