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Homilias

A figueira estéril


 

Figueira e esteril

A figueira estéril

3ro  Domingo da Quaresma – Ciclo C –  2016

Textos:

1ra Leitura: Isaías 55,1-9

Salmo 63,1-8

2da Leitura: 1 Cor 10,1-13

Evangelho: Lucas 13,1-9

Nós encontramos no tempo de Quaresma. E Quaresma é um tempo especial para refletir sobre nossas vidas, para olhar em nosso interior e também para olhar a realidade que nós rodeia para poder responder com responsabilidade aos desafios que a vida coloca enfrente de nós todos os dias

E a palavra Quaresma vem do latim e significa Quarenta. E o Quarenta é um número muito simbólico na tradição bíblica. 40 anos o povo de Israel caminhou pelo deserto caminho da Terra Prometida depois da saída do Egito, o lugar da escravidão. Nessa caminhada o povo aprendeu a viver em concordância com os mandamentos de Deus, e a sentir-se comprometido com o projeto de Deus. 40 dias demorou o profeta Elias na caminhada para a montanha sagrada (Horeb/Sinai) para lá se encontrar com Deus. 40 anos ficou o povo de Israel exilado na Babilônia, tempo esse que serviu para refletir sobre o passado e pensar como reconstruir a nação no futuro. 40 dias passou Jesus no deserto, refletindo e rezando, antes de caminhar rumo a Jerusalém onde encontraria finalmente a morte.             

Então, Quaresma é tempo de deserto, mas deserto no meio do barulho do mundo, no meio do egoísmo, da injustiça, da violência, da miséria e da infidelidade. Mas também no meio da luta para conseguir melhores condições de vida para todas as pessoas, para conseguir um mundo mais bonito e melhor. Esse é nosso deserto de hoje, a onde somos convidados a nos encontrarmos com Deus e com nossos irmãos e irmãs.

Por tanto, Quaresma é tempo de conversão, de mudanças, para poder celebrar a Páscoa, ou seja, o passo da morte à vida, do individualismo à comunidade, da indiferença ante a dor de nosso mundo à solidariedade. Desta maneira, Quaresma é tempo para fortalecer nossa fé, para ter novas esperanças, para renovar nossa solidariedade para com nossas famílias, e para com o próximo.

Depois de celebrados os domingos das “tentações” e da “transfiguração” de Jesus no deserto, a liturgia deste domingo ressalta a urgência da conversão, conversão que se traduz na adesão ao projeto liberador de Jesus.

Nesta semana Jesus continua sua viagem para Jerusalém (cf. Lc 9,51-19,28). Jesus percorre o caminho rodeado por seus discípulos. E nesta semana o evangelho tem palavras duras de Jesus. Muitas vezes pensamos que Jesus fosse um pregador que falava palavras suaves, mas vemos aqui que também falava palavras de fogo. Mas o fogo não sempre é um elemento destrutivo. Também é usado para tirar o impuro e ficar com o valioso. Para formar o aço temos que ter uma mistura de vários elementos junto com o ferro. E finalmente, ao final do processo, temos um material muito forte. O ouro fino é refinado com fogo. Assim é Jesus, o objetivo de sua pregação ardente era convidar para ter uma vida purificada, renovada e diferente.

Na primeira parte do evangelho de hoje (Lc 13,1-5), Jesus refere-se a dois fatos, em primeiro lugar, da repressão a um grupo de galileus enquanto eles ofereciam sacrifícios a Deus, e, em segundo lugar, daqueles 18 do bairro de Siloé que foram mortos quando a torre caiu em cima deles. Os que narram a Jesus as duas tragédias, a chacina realizada por Pilatos, e a tragédia da morte dos 18 no bairro de Siloé, desejam, por um lado, ouvir a opinião de Jesus e cobrar dele uma posição, talvez para colocar Jesus contra as autoridades romanas, e, por outro lado, preguntar porque Deus não impediu a desgraça de Siloé. Porém, Jesus sai pela tangente. Desconstrói a crença popular de que as desgraças sejam uma forma de castigo divino e que Deus poderia impedir tais tragédias, mas prefere permanecer surdo e mudo ao clamor dos sofredores. Dessa maneira rejeita a doutrina da retribuição que vincula a desgraça ao pecado cometido. Para Jesus diante de Deus todos necessitam mudar de vida. Deus não é vingador e oferece sempre uma nova oportunidade: “se vocês não se arrependem dos seus pecados, todos vocês vão morrer como eles morreram” (v.5). Portanto, a única maneira de escapar da ruína, é a conversão.

Na segunda parte do evangelho temos a parábola da figueira que não dá frutos. E a figueira era uma imagem familiar para os ouvintes porque simboliza o povo de Israel. Na parábola Deus e o proprietário da figueira.

Durante os três anos do ministério de Jesus ele procurou frutos de arrependimento e conversão, mas nada adiantou. E na palavra de Jesus caminho de Jerusalém é oferecido uma nova chance de mudar de vida. É a paciência e Deus. E apesar das duras e ameaçadoras palavras quando se diz, “… corte esta figueira! Porque deixá-la continuar tirando a força da terra sem produzir nada”, há esperança e Jesus confia que a resposta à Boa-Nova seja positiva.

Nós também existimos para dar frutos agradáveis a Deus. E senão produzimos esses frutos somos desnecessários, do mesmo jeito que a figueira estéril. Mas Jesus chega para adubar-nos, para estimular-nos a produzir fruto. E qual é o fruto que temos que dar para não ser cortados e queimados? A leitura fala de arrependimento e conversão. E conversão é convite à vida. Mas do que anuncio de ameaças, é proclamação de uma boa nova. E Jesus apela à conversão, anunciando a proximidade de Deus, amoroso e misericordioso, nosso Pai e nossa Mãe.

E arrependimento e conversão significam dar-nos conta de nossas imperfeições, de nossas faltas contra Deus e nosso próximo.  E quando iniciamos o processo de arrependimento e conversão entramos em um verdadeiro compromisso com Deus, porque sem Ele nunca poderemos dar verdadeiros frutos de amor e solidariedade.

Quaresma é um tempo muito bonito. É tempo de voltar-se para Deus. É tempo de caminhar o caminho de Jesus. É tempo de nos voltarmos para tantos irmãos e irmãs, esquecidos e oprimidos. É tempo de justiça, de liberação.

Para isso existe a Quaresma, para que saibamos olhar a vida, e olharmos nós mesmos no meio da vida e dos afazeres da cotidianidade. Existe para que saibamos prestar atenção aos caminhos e projetos de Deus. Existe para não nos deixarmos seduzir pelos cantos de sereia que falam da felicidade de comprar, de possuir, ficando de ouvidos fechados a tantas e tantas vozes que gritam no silencio e no deserto. Para isso existe a Quaresma, para deixarmos nos seduzir por Deus no deserto e voltar o caminho.

Mas não adiante dar um “sim” para Deus. Quaresma é tempo de confissão, de arrependimento e conversão! Porque de que serve falar “sim” se no temos uma mudança de vida, uma mudança de caminho? Quaresma é tempo de deserto, pero deserto no meio do barulho do mundo, no meio do pecado, da infidelidade, da injustiça. Quaresma significa nos encontrarmos com Deus no meio da gente. Quaresma é o tempo da paciência de Deus, é o tempo que Ele nos dá para que possamos produzir os frutos da justiça e da fraternidade. Dessa maneira somos, portanto, convidados a amar não apenas com os lábios, senão com nossas vidas, com vidas de amor, solidariedade e serviço.

Deixo com vocês estas reflexões. E sim, irmãos e irmãs, vamos revisar nosso serviço, nosso amor, nosso compromisso com o próximo. E fazendo isso estaremos revisando nossa fé, e assim daremos muitos frutos e estaremos vivendo todos os dias nossa Quaresma.

 

 

 

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