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Homilias

Senhor, a quem nós vamos seguir?


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Senhor, a quem nós vamos seguir?

130 Domingo de Pentecostes – Ciclo B – 2015

Textos

1ra leitura: Josué 24,1-2a, 14-18

Salmo 34,15-22

2da leitura: Efésios 6,10-20

Evangelho: João 6,56-69

Com o evangelho de hoje termina o longo discurso de Jesus sobre o “Pão de Vida” que percorre todo o capítulo 6 do evangelho de João. Capítulo que começa com o conhecido texto sobre “a multiplicação dos pães e os peixes”, ou “a alimentação das multidões” (Jo 6,1-15); capítulo que aponta fundamentalmente para a imagem da Eucaristia, memorial da páscoa de Jesus.

Contudo, é um capítulo que não é apenas uma imagem da Eucaristia, mas que revela e anuncia o Reino prometido quando todos serão saciados e a morte será definitivamente vencida, verdadeiro sentido da missão de Jesus, que sente as necessidades do povo e o alimenta tanto com a Palavra como com o pão partilhado.

Igualmente é um capítulo muito simbólico e que quer transmitir uma grande mensagem. Começa com Jesus seguido por muitos e alimentando multidões (Jo 6,2) e termina com Jesus completamente sozinho e abandonado, apenas rodeado de seus discípulos (Jo 6,66). As multidões que seguiram Jesus tinham ouvido suas palavras e seus ensinamentos, tinham visto sinais, milagres e prodígios, mas nem todos tiveram coragem para segui-lo. Alguns pensaram que eram muitas as exigências, e que não valeria enfrentar tantos desafios e por isso desistiram. Sem dúvida, Jesus frustrou as expectativas e esperanças de muitos.

Sempre estamos tentados a procurar uma religião fácil e sem compromisso. Mas, no projeto de Jesus essa religião não existe. A verdadeira religião é assumir a prática e a entrega de Jesus em favor dos menos favorecidos; é memória e mergulho no mistério do pão partilhado, a Páscoa de Jesus. Por isso Jesus frustrou e decepcionou muita gente. Porque não procurou a glória das pessoas nem prometeu glória aos seus seguidores.

De tal modo, é um capítulo que mostra como a encarnação e a eucaristia caminham juntas, mexem com as pessoas e as levam a uma toma de posição: as pessoas aceitam Jesus e se abraçam com Ele, ou se chocam e escandalizam com Ele e se afastam de seu projeto de vida e liberdade. O seguimento de Jesus significa fazer a opção e uma escolha consciente de a quem servir. E esse é o tema da primeira leitura tomada do livro de Josué.

O texto da primeira leitura tomado do livro de Josué nos situa nos anos que seguiram à entrada do povo na Terra Prometida. Moisés já tinha morrido e Josué assume a liderança. Eram tempos difíceis e com muitas incertezas, por causa do contato do povo com muitos deuses no tempo da escravidão de faraó.

Diante a nova situação Josué reúne o povo na chamada assembleia de Siquém, que é de fato a reunião constitutiva, por assim falar, do povo de Israel. E Josué exige sem rodeis do povo uma escolha: “… decidam hoje a quem servir… porém, eu e minha família serviremos a Deus, o Senhor” (Js 24,15). E o povo respondeu sem hesitar: “Nunca poderíamos pensar em abandonar o Senhor para servir outros deuses!” E essa escolha significava optar pelo Deus do êxodo: aquele que vê a opressão do povo, que ouve o grito de dor e conhece seus sofrimentos; que está decido a descer para libertá-lo do poder dos opressores (Êx 3,7-8). É o Deus de seus Pais, o Deus age na história.

E essa decisão, demonstrando a certeza de que Deus nunca abandona os que lhe são fieis, é proclamada no Salmo 34 que recitamos hoje: “Deus cuida das pessoas honestas e ouve os seus pedidos…Ele fica perto dos que estão desanimados e salva os que perderam a esperança” (Sl 34,15.18).

E o evangelho de hoje, como Josué fez com o povo diante da Terra Prometida, também nos situa diante de uma escolha e uma opção. Poderíamos dividir o texto do evangelho em três momentos: Em um primeiro momento o texto nos diz que todos acharam que o que Jesus ensinava era muito difícil de aceitar: “Quem pode aceitar esses ensinamentos!” (Jo 6,60). Em um segundo momento o texto diz que muitos o abandonaram. E faço a ressalva que o termo grego usado é “periepatoun”, que significa “deixaram de caminhar”.  Já no terceiro momento Jesus interpela a seus discípulos: “Vocês querem me abandonar [também] por causa disso?” E ai aparece a figura do Pedro, personagem central e fundamental no texto, que como representante do grupo de discípulos, responde e pronuncia uma das frases mais profundas e maravilhosas da Bíblia, uma verdadeira confissão de fé: “Senhor, a quem nós vamos seguir? Tu tens as palavras que dão vida eterna!”

Dessa maneira e em sintonia com a frase de Pedro, na pessoa de Jesus, Deus oferece à humanidade um pão que sustenta para sempre. Esse pão é a pessoa de Jesus, o maior presente que o Pai fez ao mundo. Quem recebe o pão e o assimila (Eucaristia), descobre que Deus lhe confia uma tarefa, que é a adesão a Jesus, tornando-se, também, pão partilhado para a vida de todos (encarnação). Não há meio-termo: quem recebe Jesus como pão não pode eximir-se da responsabilidade de ser, como Ele, pão para a vida dos outros[1].  Por isso, como falamos, a Eucaristia e a encarnação põem as pessoas diante de uma decisão.

Então, qual é nossa decisão após ouvir a proposta de Jesus? Nossas decisões, escolhas, opiniões e atitudes anunciam a proposta de Jesus ou demonstram nosso medo de segui-lo e caminhar junto com Ele?

A sociedade e o mundo de hoje tem sempre sugestões atraentes para nos fazer desistir de caminhar junto com Jesus e acompanhar e aceitar sua proposta, na defensa da vida, no seguimento dos valores éticos e na promoção de uma cultura de paz. Nossas relações no dia-a-dia estão cheias de desafios para que sejamos como Jesus ou não, tanto na vida social, no trabalho, na Igreja quanto em nossa própria família.

Se quisermos ser discípulos missionários de Jesus, precisamos nos fortalecer na própria comunidade, seguindo o exemplo de Pedro, que respondeu a pergunta de Jesus representando a comunidade dos que ficaram unidos e caminhando junto a Jesus.

Sem dúvida, não queremos ir embora e abandonar Jesus, queremos segui-lo e viver sua proposta. E essa é com certeza a resposta de todos nós.

Porém, não podemos fazer isto sozinhos, precisamos estar unidos em comunidade, como os discípulos de Jesus, precisamos ser Igreja com Cristo e em Cristo, como dizemos ao final da Oração Eucarística, no mundo de hoje.

Deus revelou em Jesus a sua opção pela humanidade. Jesus venceu, pela cruz, todos os limites que impedem a vida humana de ser feliz. Vamos dar graças por essa opção de Deus por nós e pela presença da páscoa libertadora. Vamos abrir o coração à interpelação que Jesus nos faz, como fez a Pedro, e seguindo o exemplo dos discípulos, vamos caminhar junto com Ele no caminho e a luta por uma sociedade diferente, nova e fraterna.

Confessar, como fez Pedro, que Jesus é o “santo de Deus”, é reconhecer que não há outro caminho nem temos outra escolha: significa aderir Jesus, continuando e realizando o que Ele fez como o peregrino e missionário de Deus.

[1] José Bortolini, Roteiros Homiléticos (Anos A,B,C – Festas e Solenidades), São Paulo, Paulus, 2008, p.429.

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