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Homilias

“Derramarei meu espírito sobre todas as pessoas…”


comunidade - fonte, João 14,23-29  www.marysouthardart.org

“Derramarei meu espírito sobre todas as pessoas…”

Domingo de Pentecostes – Ciclo B

1ra leitura: Atos 2,1-21
Salmo 104,24-34.35b
2da leitura: Romanos 8,22-27
Evangelho: João 15,26-27-16,4b-15

Durante sete semanas celebramos a Páscoa da ressurreição de Jesus. E hoje celebramos de uma maneira especial o dom do Espírito Santo e a abertura da Igreja a todos os povos, nações e culturas. Portanto, com esta festa fechamos o tempo pascal e somos convidados a receber o dom total do Espírito na nossa comunidade. É o Espírito que dá vida, transforma e une a comunidade, nos faz pessoas novas para o serviço da Igreja e da sociedade, e que nos ajuda a superar nossos medos e incertezas.

A celebração do Pentecostes nos coloca em sintonia com os acontecimentos de nossa vida, do nosso bairro, do nosso país, de todo o mundo. Fechando a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, vamos pedir uma vez mais a “unidade” para o nosso mundo. Celebramos a Páscoa de Jesus nosso irmão maior, na vida de todas as pessoas que pela força do Espírito se comprometem na construção de um mundo mais humano, mais justo, mais solidário e fraterno.

Pentecostes tem a ver com a palavra grega «penta» que significa “cinco” ou “cinco vezes”. Quando no Brasil dizemos que o Brasil é “penta”, todos entendemos: cinco vezes campeão de futebol. Porém, “Pentecostes” “significa “cinquenta dias” ou quinquagésimo dia”.

Na religião judaica, no tempo de Jesus, havia uma festa muito importante entre os judeus. Cinquenta dias depois da Pascoa eles celebravam a grande festa da nação, festa que lembrava a aliança com Deus e a promulgação da lei mosaica no Sinai (cf. Ex 5,1-22).  Chamavam-na de “Festa do Quinquagésimo dia” ou simplesmente, Pentecostes.

Precisamente nesse dia, os discípulos de Jesus, depois de sua morte, ressurreição e ascensão estavam reunidos como bons judeus celebrando a festa judaica. O capítulo 20 do evangelho de João fala que os discípulos, após a ressurreição, estavam reunidos, porém, estavam reunidos com medo das lideranças judaicas que tinham levado Jesus à morte (Jo 20,19-31). Podemos imaginar do que tratavam nessa reunião: além de celebrarem a festa, fazendo orações como bons judeus, refletiam, com certeza, sobre o que significavam aquele sumiço de Jesus e o tal Espírito Santo que lhes fora prometido e que eles aguardavam.

O evangelho de hoje não narra esse fato, porque é parte do grande discurso de despedida de Jesus reunido com seus discípulos onde promete o dom de seu Espírito (cf. Jo 13-17). Mas a narrativa de Atos narra que nessa reunião dos discípulos no dia de Pentecostes, veio uma espetacular “explosão do Espírito Santo” prometido por Jesus. E a partir desse dia eles começaram a anunciar a Salvação para todos os povos, línguas e nações.

Esse dia de Pentecostes passou a ser para eles, como também é para nós hoje, um dia muito especial de festa. E a partir do dom do Espírito os discípulos compreenderam o que Deus tinha expressamente prometido pelo profeta Joel: “Derramarei o meu Espírito sobre todas as pessoas (…) também sobre meus servos e servas, naquele dia, derramarei o meu espírito (…). Então, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo (…) haverá salvação (…) e naquele dia eles anunciarão a minha mensagem” (Jl 2,28-32).

Nesse dia, como costumamos dizer, dizer, “a ficha caiu”. E a mentes dos discípulos abriram-se, começaram a entender, finalmente, o que significava a morte e ressurreição de Jesus, bem como seu aparente sumiço e o Espírito Santo prometido. Compreenderam que, na verdade, Jesus, agora glorificado, não se havia afastado nem se distanciado deles. Muito pelo contrário, Jesus se fazia inteiramente presente, porém, agora de outro jeito, pelo seu Espírito Santo. Viram que agora a gloria de Jesus era tão ampla e profunda que agora se fazia o membro mais intimo da própria comunidade cristã.

E como escutamos na primeira leitura, o autor de Atos dos Apóstolos, para descrever e realçar aquele momento de esplêndida iluminação dos apóstolos, verdadeira “explosão” do Espírito Santo que, na verdade, já estava neles, chega a usar uma linguagem fantástica e impressionante. Fala de um barulho vindo do céu, “como se fosse um forte vento”; de “línguas de como de fogo, que se repartiam e pousavam sobre cada um deles”. E diz o texto de Atos que começaram “a falar em outras línguas”, e todos os peregrinos que estavam escutando lhes entendiam em sua própria língua.

Assim, no Pentecostes, com a efusão do Espírito Santo, o Deus eterno chegou fazendo-se presente e permanente para todas as pessoas em todos os lugares e em todas as épocas. E chegou para santificar-nos para consolar-nos, para fortalecer-nos. Mas chegou também para que cheios desse dom do Espírito Santo, atuemos como mensageiros de Cristo, porque como fala o evangelho de João no envio de Jesus a seus discípulos: “como o Pai me enviou, assim também eu os envio” (Jo 20,21).

Na verdade, hoje celebramos o inicio da nossa peregrinação como Igreja: universal, ecumênica, aberta a todas as línguas e culturas. Porque será depois do Pentecostes que os discípulos e discípulas se espalharam pelo mundo conhecido para anunciar as boas novas de salvação e libertação que Jesus prometeu e que a efusão do Espírito Santo ratificou. Por isso, é no marco da festividade de Pentecostes que se celebra a Semana pela Unidade dos Cristãos, para que, segundo o reclamo de Jesus, a comunidade cristã encontre a desejada unidade para que o mundo creia e a humanidade encontre também a unidade.

A festa de Pentecostes nos impele a caminhar pelo mundo dando testemunho de quem somos, a quem seguimos, e o que buscamos e procuramos para nossas vidas. Se isto não fica claro em nossas vidas, estamos falhando a nossa vocação, e o derramamento do Espírito não vai se manifestar em nós. Não há dúvida que muitas vezes conduzimo-nos como admiradores de Cristo, mas não como seus autênticos seguidores. Não estamos dispostos a arriscar nossa vida pela sua causa. E como Deus nos vê tão indeciso, tão indiferente, a ação do Espírito não se manifesta em nós com todo seu poder.

Essa é a essência da grande festividade que hoje celebramos. Isto é, conseguir que o Espírito Santo, que se nos dá, se manifeste de fato em todas e cada uma de nossas ações. Pentecostes, portanto, não é algo passageiro e estéril. É a constante renovação de nossa fé pelo Espírito em favor do bem comum. A todos, já sejamos da condição que sejamos, ou da raça ou cultura a que pertençamos, a todos se nos deu o mesmo Espírito para o bem comum. Cada um de nós pode cooperar com diferentes dons espirituais, com diferentes serviços, com diferentes talentos, mas o objetivo final há de ser o mesmo, a salvação de todas as pessoas. Atuando desta maneira manifestamos que somos um corpo compacto, um corpo cujos membros funcionam ao uníssono para o bem de todo o organismo. Nosso corpo eclesial, nossa família eclesial, ou seja, a Igreja, e particularmente cada uma das comunidades cristãs, têm de funcionar da mesma maneira, buscando o bem comum de todos.

Cinquenta dias depois da Páscoa, neste dia do Pentecostes, onde celebramos a “constituição” do “novo povo de Deus”, a Igreja, chamada a levar para frente a obra de Cristo, devemos renovar e reafirmar nossa fé em todas as maravilhas que Deus revelou. E isso é o que fazemos quando recitamos juntos, juntos, o credo apostólico.

E neste novo aniversário da Igreja suplicamos que Deus faça de todos nós pessoas iluminadas, que enxerguem com profunda clareza o sentido da presença de Cristo em nossas vidas e em nossas comunidades, para que, como os apóstolos, tenhamos ousadia e coragem para testemunhá-lo a todas as pessoas nos dias de hoje.

Deus fez tudo por nós, deu tudo por nós. Assim é Deus! Não só um verdadeiro Pai, mas também uma verdadeira Mãe. Por isso devemos sempre louvá-lo e agradecê-lo por sua impressionante história de amor por nós, como deu para reafirmar em todo este Tempo Pascal. Sim, a Deus seja o nosso louvor, a nossa ação de graças neste dia de Pentecostes, neste dia do Senhor.

Deste modo, hoje fechamos o ciclo pascal, mas não para guardá-lo nas gavetas obscuras do esquecimento, e desempoleirá-lo o próximo ano, mas significa antes de tudo, a inauguração de uma nova vida. Uma vida cheia das palavras e ações de Jesus, colocadas ao serviço dos demais mediante a ação santificante do Espírito Santo. E tomara que nossa vida produza um fruto tão fértil como aquele dos primeiros cristãos, que com o exemplo de suas vidas foram capazes de transformar toda uma cultura. Uma cultura tão rica e tão potente como a greco-romana.

Hoje é Pentecostes irmãos e irmãs, hoje o Espírito Santo esta aqui de uma maneira muito especial, e quer acompanhar-nos a cada dia da vida que hoje novamente recomeçamos. Vamos, pois, servir a Deus e ao próximo, e que o Espírito Santo seja a luz, a sabedoria e a paz no caminhar de nossa história.

E neste Pentecostes, e no marco da Semana de Oração pela Unidade Cristã, que deve ser também uma semana para orar e pedir pela unidade e pela fraternidade de toda a humanidade,

  • vamos confessar que cremos em Deus, nosso Pai e nossa Mãe, adorado com nomes diferentes pelos diversos povos e religiões;
  • que cremos em Jesus Cristo, que assumiu nossa condição humana, tornando-se irmão e companheiro de todas as raças e culturas;
  • que cremos no Espírito Santo, Mãe de ternura, Energia de Unidade e Paz, presente e atuante na criação toda e em todo o Universo;
  • que cremos na superação da miséria, através da organização da fraternidade universal de todas as pessoas, povos, culturas e religiões;
  • que nos comprometemos e prometemos trabalhar pela unidade no serviço da justiça, no campo, e na cidade, em solidariedade com todas as pessoas desempregadas, aflitas, oprimidas, excluídas e discriminadas deste mundo,
  • que nos comprometemos na busca do consenso e do maior cuidado no trato com a natureza e a criação,
  • que nos comprometemos na procura do autêntico ecumenismo que vise compreender e viver a unidade na riqueza da diversidade.

Que Deus, fonte de amor, confirme em nós o que ele mesmo inspirou e nos dê a graça e a vontade de realizar este compromisso em nome de Jesus Cristo, nosso Senhor e nosso Irmão maior. Amém.

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