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“Nós vimos sua estrela…”


Natal -1

 “Nós vimos sua estrela…”

 Festividade da Epifania do Senhor – Ciclo B – 2015

Textos

1ra leitura: Isaías 60,1-6.9

Salmo 72,1-2.10-17

2da leitura: Efésios 3,1-12

Evangelho: Mateus 2,1-12

O dia 6 de janeiro é popularmente conhecido como “Dia de Reis”, ou a festividade dos Reis Magos. Porém, tais denominações estão erradas, pois desviam para os chamados “reis magos” a centralidade de um acontecimento que deve ser dirigido ao menino Jesus. Portanto, a centralidade da festa não está nos reis, ainda que eles sejam personagens significativos, pois são instrumentos de Deus para mostrar que em Jesus Deus veio trazer salvação a todos os povos sem exceção.

A palavra «Epifania» vem da palavra grega «epifáneia». Como substantivo significa “vinda” ou “manifestação”, e como verbo, pode significar “aparecer”, “iluminar” ou “manifestar-se”. O termo fazia referência à entrada de um rei a uma cidade, na qual tinha chegado a ser famoso por méritos próprios. Servia também para indicar o aparecimento de algum deus ou uma intervenção maravilhosa deste. Por isto, o termo foi aplicado pela comunidade cristã a Jesus, já que para eles Jesus era o Messias esperado ou uma manifestação maravilhosa e especial de Deus na história humana.

Três elementos ressaltam na narrativa: a cidade de Belém, os magos e a estrela.

Belém, diferente de Jerusalém, era na época uma cidade bem simples e pobre. Porém, foi ela a escolhida, segundo a tradição evangélica, como o local do nascimento de Jesus, para significar, assim, que são as pessoas simples aquelas que têm condição de acolher a Palavra e vivenciá-la. Os magos repetiram a Herodes o que tinha sido dito pelo profeta: “Belém, da terra de Judá, de modo algum é a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá o líder que vai ser o pastor de meu povo Israel” (Mq 5,2).

Os chamados magos não são mágicos, como muitos poderiam pensar, mas sábios, estudiosos, ou astrólogos, pertencentes a outros povos e nações estrangeiras. Os magos na antiguidade eram pessoas conhecedoras das ciências astrológicas e astronômicas; eram muito respeitados pelo povo e pelos reis por causa de seu conhecimento científico; eles eram o que hoje poderíamos chamar «científicos». Neles estão simbolizadas todas as nações, todas as “gentes”. Eles representam a sínteses do mundo da época, evidenciando que Jesus veio para que “todos os povos e todas as pessoas tenham vida”.

E esses magos/sábios, dos quais nem sequer sabemos sua origem, apenas que vêm de longe, e que, portanto, não pertencem ao povo de Israel; que não conhecem o Deus de Israel, mas apenas que procuram a verdade; em algum momento acreditam ver uma pequena luz que aponta para um Salvador. E eles precisam saber quem é e onde está. E rapidamente se põem a caminho; não conhecem a rota a seguir, mas guiados por uma estrela no seu interior arde a esperança de encontrar uma Luz para o mundo.

No entanto, o texto do evangelho afunda suas raízes em um ambiente marcado por uma grande efervescência revolucionária na região de Palestina. O período caracterizou-se pelos levantamentos contra a opressão romana e seus títeres locais, representada pela família de Herodes, eufemisticamente chamado de “o Grande”. Isto justifica a agressividade de Herodes em frente a todo possível pretendente ao trono.

Por isso, as notícias de que uns magos do Oriente chegaram a Jerusalém perguntando pelo rei dos judeus recém-nascido, causou grande alarme em Herodes; assim como também nos representantes da religião ligada ao Templo e ao poder. Herodes viu nesse menino uma grande ameaça, pois conhecia das esperanças por justiça e libertação do povo; e fará todo o possível para elimina-lo. Daí a tradição que encontramos no evangelho de Mateus do assassinato de meninos em Belém (cf. Mt 2,16-18).

Desde esse marco é necessário entender e/ou interpretar o texto que tem claras conotações políticas pela repetida presença do termo «rei». Este título se atribui primeiramente a Herodes nos v. 1.3.9, mas em boca dos magos se aplica a um menino indefeso (v.2) a quem se atribuem características de senhorio; é chamado de “Messias” (v.4), e também de “chefe” e “pastor”, conforme à cita da profecia de Miqueias (v.6), e recebe a honra e as oferendas como legítimo governante.

Segundo a narrativa, os magos, guiados pela estrela, chegando a Jerusalém não entram no suntuoso Templo de Jerusalém, mas guiados pela estrela continuam viagem e chegam à pequena Belém, longe dos centros de poder; e chegando lá apenas encontram um menino e seus pais; um menino indefenso sem esplendor nem poder. Mas isso é suficiente para despertar neles a adoração de um Deus que se esconde na fragilidade humana. E, segundo o relato, eles têm um encontro com Jesus: “viram o menino, ajoelharam-se e o adoraram”. Porém, eles vieram por um caminho, mas voltaram por outro para não encontrarem Herodes, que queria a morte de Jesus. Assim, eles optaram pela vida e retornaram a suas terras por outro caminho.

Desta maneira, o relato dos magos, realmente sábios ou astrólogos, que vêm de Oriente tem uma forte carga simbólica; é necessário lê-lo como um relato que intenta transmitir uma mensagem para os leitores que o leem; mensagem que vai além de uma leitura simplesmente literal, ou da cena folclórica e bonita que encontramos nos cartões de Natal.

E certamente nos defrontamos com um relato desconcertante; porque a esse Deus, escondido na fragilidade humana, não o encontram os que vivem instalados no poder ou encerrados na segurança religiosa; mas revela-se a quem, guiado por pequenas luzes, procura incansavelmente uma esperança para o ser humano na ternura e na pobreza da vida[1].

Assim, simbolicamente o evangelho de hoje afirma que o «trono» não vai estar em Jerusalém, mas em uma manjedoura na pequena Belém, terra de pastores, a menor das cidades de Judá (cf. Mq 5,2-5). E esse menino indefenso que nasce na pobreza de uma manjedoura, é o novo Davi, a quem as tradições bíblicas identificam como o líder do povo empobrecido; porém, desta vez é um Davi sem exército e cujo poder descansa apenas em representar e manifestar a Deus escondido na fragilidade humana.

De tal modo, enquanto os de perto, neste caso os judeus, não se dão conta de que tem nascido um menino muito especial, vêm os de longe para visita-lo e adora-lo, oferecendo-lhe presentes, e perfumes. E os primeiros escritores cristãos verão simbolizados nesses presentes a realeza (ouro), a divindade (incenso) e a paixão (mirra) de Cristo.

Por isso, junto a esse motivo central do relato manifestando a Deus escondido na fragilidade humana, há também uma rejeição explícita à consciência de superioridade racial presente nos grupos judeus da comunidade que esteve por trás da formação do evangelho de Mateus. Porque os judeus estavam convencidos de que eles eram o povo escolhido, herdeiro exclusivo da salvação de Deus. Isto lhes levava para um tipo de orgulho que excluía da salvação de Deus às pessoas de todas as demais nações.

Por isso Pablo na carta aos Efésios adverte: “que também os não judeus, por meio do evangelho participam com os não judeus das bênçãos divinas. Eles são membros do mesmo corpo e participam da promessa que Deus fez por meio de Cristo Jesus” (Ef 3,6).

Então, a partir desse relato dos magos/sábios/estrangeiros, que vêm adorar ao indefenso menino de Belém, a primeira comunidade cristã é chamada a compreender que, paradoxalmente, são às vezes os “afastados”, em lugar dos chamados “escolhidos”, os que podem descobrir melhor a presença sempre inovadora de Deus na história.

A simbologia da Epifania, ou seja, magos/sábios/estrangeiros do Oriente indo adorar Jesus, hoje como ontem, afirma que a salvação de Deus oferecida em Jesus é universal. Por isso os magos adoram Jesus sem ser cristãos; e o texto nunca diz que se tivessem convertido em cristãos.

A Epifania de Jesus, sua manifestação a toda a humanidade, significa, portanto, que afastando-nos de qualquer exclusivismo religioso, devemos reconhecer que há mais Povos de Deus que o Povo de Deus do cristianismo. Sem dúvida nenhuma, na casa do Pai e da Mãe comum de toda a humanidade “há muitas moradas” (cf. Jo 14,2).

Hoje, como comunidade cristã, podemos também, como o povo judeu da época, fechar-nos em nosso pequeno mundo e acreditar farisaicamente que somos apenas os salvados, e que todas as outras pessoas e todas as outras religiões estão fora da salvação de Deus. No entanto, o relato dos magos/sábios do Oriente adorando Jesus nos mostra e lembra que com essas atitudes podemos estar recusando ou ignorando a presença sempre nova de Deus na historia, e, dessa forma, estaremos reproduzindo a atitude de Herodes e da liderança israelita daquela época em frente ao recém-nascido.

Também o símbolo da Epifania nos diz que o critério para reconhecer ao Deus vivente, assim como a sua presença e a sua atuação no mundo e na historia, não passa pelo fato de pertencer a uma estrutura chamada Igreja; senão pela prática da justiça, do serviço, do amor, da paz e da fraternidade inter-humana, para fazer de nosso mundo um mundo melhor para todas as pessoas.

O Salmo 72 descreve as qualidades do Messias-rei que os judeus estavam esperando. Entre suas qualidades estavam: governar ao povo com justiça; ajudar aos necessitados, abandonados e aflitos; derrotar aos que exploram ao povo; ajudar aos pobres que pedem socorro e não têm quem os defenda.

Naturalmente esta descrição da missão do Messias-rei esperado será precisamente a que Jesus retomará, na sinagoga de Nazaré, ao começo de  seu ministério, quando retomando palavras do Terceiro Isaías (cf. Is 61,1-2) expressou: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para trazer boas noticias aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4,18-19).

Hoje também temos o dever, o desafio e a missão de manifestar Jesus Cristo perante o mundo escondido entre os pequenos e indefensos. Mas o faremos de forma adequada só na medida em que assumamos a missão comprometida que ele realizou e pela qual viveu e morreu. Se nossa fé está divorciada da vida; se não assumimos a defesa do humilde e do pobre, dos excluídos e dos marginalizados ou dos discriminados; senão não nos comprometemos com toda causa a favor da afirmação da vida, não estaremos fazendo o trabalho como nos o exige hoje Jesus.

Se uma estrela brilhou forte lá no céu do Oriente, faz mais de dois mil anos, era porque tinha acontecido aqui na terra um fato maravilhoso e muito importante. Mas o nascimento de Jesus não é apenas um fato que fica lá escondido no passado. Jesus nasce todos os dias, para todos os povos e para todas as culturas, especialmente para aqueles que não fazem parte do povo eleito de Israel. E essa é a grande mensagem da festa da Epifania; a presença dos magos/sábios chegados de fora de Israel anuncia que o messianismo de Jesus é para todos os povos e para todas as culturas.

Por tudo isso, e sem dúvida, a festa da Epifania, ainda hoje, nos convida a reproduzir e reinterpretar para nosso presente o significado dessa importante visita. Jesus precisa ser anunciado para todos os povos e todas as culturas, assim como para todos os grupos e setores excluídos, marginados e discriminados de nossa sociedade. Dessa maneira, o tempo de Epifania aponta, portanto, para dois princípios fundamentais da nossa identidade cristã: a inculturação e a inclusividade.

Finalmente, e com isto termino esta reflexão, a festa da Epifania nos desafia a procurar os sinais de Deus e deixar-nos guiar pela estrela que conduz às “periferias”, lá onde as pessoas vivem na insegurança da saúde pública, da escola, da moradia e do desemprego, para lá “abrir os grandes tesouros” da solidariedade, da justiça, do amor, da paz e da fraternidade.

[1] Veja, http://eclesalia.wordpress.com/2013/01/02/relato-desconcertante/

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