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Homilias

E Deus colocou sua tenda entre nós…


Joao 1,1-18

E Deus colocou sua tenda entre nós…

1ro Domingo de Natal – Ciclo B 

Textos:

1ra leitura: Isaías 52,7-10

Salmo 98,1-6

2da leitura: Hebreus 1,1-6

Evangelho: João 1,1-18

É tempo de Natal! E estamos reunidos em torno do mistério da Palavra que se fez humanidade e veio habitar entre nós. Deus entra definitivamente em nossa história através de Maria, uma mulher pobre e marginalizada, no seio de um povo sofrido e dominado, em um lugar e época bem concretos. Jesus nasce entre os pobres, migrantes, pastores; encarna-se no dia-a-dia dos que sofrem. E isto é uma boa notícia! Deus é solidário com a humanidade e a humanidade pode agora tomar um novo rumo. E o desejo de Deus é que a humanidade toda viva. É ação completa trazendo paz e justiça para toda humanidade.

A primeira leitura que ouvimos hoje está tomada dos capítulos 40 a 55 do livro de Isaías. Esses capítulos estão formados de oráculos, muitas vezes alegres, que anunciam, de diversas maneiras, a Boa Nova da salvação. Deus serviu-se de um rei estrangeiro para libertar o povo de Israel da servidão da Babilônia. Ciro, o persa, não sabia que realizava um plano divino. Ele liberta o povo de Israel que agora volta para casa, apoiado por um decreto real que lhe abriu todas as portas (cf. Ed 1,1-4; 2Cr 36,22-23).

E na leitura de Isaías, o profeta vê chegar uma procissão, e do alto das muralhas de Jerusalém, ele avista a vanguarda dos primeiros exilados que retornam da Babilônia. Deus esteve com eles no sofrimento do exilio e, agora, volta no meio de seu povo. Inicia-se assim uma nova era para o povo de Israel; e os que chegam são portadores e mensageiros de uma Boa Notícia: Deus reina! E o ambiente é de muita alegria, pois Deus resgatou o povo de Israel e a cidade de Jerusalém da ruinas e trouxe um grande consolo para o povo, e agora “… todos os confins da terra verão a salvação que vem de Deus” (Is 52,10).

O evangelho que ouvimos hoje constitui o prólogo do quarto evangelho. É um hino litúrgico, uma bela poesia, cujo sujeito é a Palavra: em hebraico, dabar, em grego, logos e em latim, verbum. E o que é a Palavra? É a força criadora que a tudo da vida, mas que existiu desde o principio junto com Deus. É a eterna Sabedoria criadora de Deus (cf. Provérbios 8,22-36; Sabedoria 9,9-12; Eclesiástico 24,3-22).

Enquanto o evangelho de Marcos começa com o batismo de Jesus, e os evangelhos de Mateus e Lucas apresentam a genealogia de Jesus, logo no inicio, João remonta o inicio de seu evangelho a um princípio anterior à criação: a Palavra está antes de tudo. A Palavra é o sujeito que cria e atua.

Porém, no prólogo de João a Palavra é uma pessoa: Jesus. E João começa seu evangelho com as mesmas palavras do Génesis: “No princípio…”. É como querendo significar que em Jesus acontece um novo começo, um novo ato criativo de Deus, uma nova criação. Assim, falasse que enquanto os outros evangelhos fazem uma bela fotografia de Jesus, o evangelho de João faz uma radiografia, porque nos convida a penetrar no mistério de Deus. João identifica Jesus com a Sabedoria criadora de Deus; é o sentido da vida presente em todas as coisas: “Nele estava a vida”, diz o evangelho.

E essa Palavra geradora de vida assumiu um corpo humano, se fez humanidade, se fez história, porém, foi rejeitada na sua própria casa. Mas felizes os que a receberam, pois foram capacitados para serem filhos e filhas, nascidos de Deus (Jo 1,12).

Quando o evangelho diz que a Palavra “habitou entre nós”, ou seja, “armou, colocou sua tenda entre nós, acampou em nosso meio”, significa que Jesus, essa Palavra encarnada de Deus, é de agora e para sempre o ponto de encontro de Deus com a humanidade, o novo e definitivo Templo de Deus onde se encontra e adora a Deus. Deste modo, o evangelho afirma litúrgica e poeticamente que Jesus é e será a presença visível do Deus invisível; a gloria de Deus sempre presente na humanidade; a manifestação da gloria divina; a comunicação de Deus conosco; o que Jesus fala e faz, é Deus quem fala e faz. Por isso, quando esse filho de um carpinteiro e de uma humilde mulher, convida os pecadores, é Deus quem chama; quando censura os hipócritas da sua época, é Deus quem julga; quando funda uma fraterna comunidade de discípulos e discípulas, é Deus mesmo quem está presente nela; e, finalmente, quando morre por amor fiel até o fim, é Deus mesmo quem manifesta seu amor por toda a humanidade.

E esse Jesus, plenitude do amor e da revelação de Deus é portador de uma novidade absoluta, diz o evangelho: “… todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça” (Jo 1,16). E corresponder ao seu amor é fazer o que ele fez, ou seja, amar sem limites.

Trata-se de um amor que supera e transcende toda a Lei antiga. Porque a vida não está mais na Lei, e sim no amor fiel que se entrega até o fim. Dessa maneira, quem deseja conhecer e encontrar o Deus invisível tem agora a possibilidade de vê-lo em Jesus.

Eis, portanto, presente em nosso meio, a expressão máxima da salvação e da paz sonhada deste os tempos antigos pelo povo de Israel que sofria a dureza do exilio, quando ouviu a promessa: “… todos os confins da terra verão a salvação de nosso Deus” (Is 52,10). Eis a Palavra que se encarnou e armou sua tenda entre nós. Eis o Deus libertador e salvador falando-nos, agora, por meio de Jesus.

E nosso mundo, muitas vezes desesperançado, desanimado e abandonado, como as ruinas de Jerusalém, tem hoje a oportunidade de renovar a caminhada, escutando a boa notícia da chegada, em Jesus, do Reino de Deus. Jesus é o projeto de Deus que se fez um de nós. Não existe mais distância entre Deus e nós. Jesus é em pessoa aquilo que Deus sonhou para toda a humanidade: salvação, paz, boa notícia, alegria, compaixão, justiça e liberação. Em Jesus conhecemos o rosto de Deus; ele é a fonte para nos aproximarmos do mistério de Deus. E sendo Jesus o rosto humano de Deus, tudo se torna mais simples e mais claro. Agora sabemos como Deus nos olha quando sofremos, como nos busca quando nos perdemos, como nos entende e perdoa quando o negamos. Resumindo, em Jesus nos é revelada a graça e a verdade de Deus.

Não é possível separar Natal e nossa realidade de hoje; fé cristã e história humana; a encarnação de Deus em Jesus e a gente pequena. Por isso, não é possível separar Natal das pessoas sofridas, empobrecidas, discriminadas, marginalizadas e excluídas de hoje. Nossa fé leva-nos à luta cotidiana para que o cheiro do presépio e o canto dos anjos de “paz na terra e boa vontade para com todas as pessoas” (Lc 2,14), se espalhei por toda a terra e chegue ao palácio dos imperadores de hoje. E à medida que nós formos novos Cristos, também nossa vida e nossa história será uma Palavra de Deus para todas as pessoas, e mostrará ao mundo o verdadeiro rosto de Deus: um rosto de amor.

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