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O patrão diferente e os trabalhadores da vinha


Os trabalhadores da vinha - 3

“O patrão diferente e os trabalhadores da vinha”

15to Domingo depois de Pentecostes – Ciclo A

 Textos:
1ra leitura: Isaías 55,1-9
Salmo 145,1-8
2da leitura: Filipenses 1,21-26
Evangelho: Mateus 20,1-16

Os trabalhadores da vinha - 7Hoje o evangelista Mateus nos conta a parábola da videira que é o símbolo tradicional do povo de Israel( Cf. Isaías 5; Salmo 80). A parábola deixa transparecer a situação de desemprego na Palestina no tempo de Jesus. E na época a jornada laboral costumava ser de sol a sol e era paga diariamente.

Para nós que vivemos num país no qual ainda é normal o trabalho diário dos assalariados volantes (boias-frias), parece familiar o fato de Jesus descrever a realidade social da Judéia como sendo de desemprego e de trabalhos por contrato diário. Conhecemos ainda hoje essa realidade de pessoas sem emprego, aceitando qualquer oferta que lhe façam. Diferente é esse patrão que age completamente fora das leis sociais vigentes em qualquer sociedade. A maioria dos comentadores chamam essa história de “parábola dos trabalhadores da vinha”. O nome mais indicado seria “Parábola do patrão diferente”.[1]

Repetidas vezes, ao longo de sua trajetória profética, Jesus insistiu muitas vezes em falar de sua experiência de Deus como um mistério que ultrapassa todos nossos cálculos. Sua mensagem é tão revolucionária e contraditória que depois de 20 séculos ainda têm cristãos e cristãs que não se atrevem a tomá-la em serio.

E para mostrar a todos sua experiência desse Deus bom, Jesus compara sua atuação com a conduta surpreendente do dono de uma vinha. Cinco vezes o patrão sai ele mesmo para contratar operários. Porém, não se importa de se preocupar muito do rendimento do trabalho de cada um. O que ele deseja é que ninguém fique um dia sem trabalhar e ganhar o sustento de cada dia. O importante para ele é que todos tenham o necessário para viver bem e serem felizes.

Os trabalhadores da vinha - 4Por isso, e surpreendentemente, ao final da jornada não paga a cada um ajustando-se ao trabalho realizado. E ainda que o trabalho e o rendimento tenha sido desigual paga a todos com uma moeda de prata, “um denário”, que era o “salario mínimo” que precisava uma família campesina de Galileia para poder viver.

Porém, vem ai o protesto do primeiro grupo porque o patrão tinha tratado aos últimos da mesma maneira que a eles que tinham trabalhado mais que ninguém desde as primeiras horas da jornada laboral. Porém, o patrão surpreende com sua resposta: “Escute, amigo! Eu não fui injusto com você! Você não concordou em trabalhar o dia todo por uma moeda de prata? Pegue o que é seu e vá embora. Pois eu quero dar a este homem, que foi contratado por último, o mesmo que dei a você! Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com meu próprio dinheiro! Ou você está com inveja porque fui bom para ele?”Os trabalhadores da vinha - 6

E sem dúvida, hoje, como fez o primeiro grupo de trabalhadores contratados, nossa primeira reação seria rejeitar a parábola. Porque a narrativa parece um grande absurdo e uma total injustiça. Já que, segundo a lógica comum, quem trabalhou pouco deve receber menos!

Entretanto, Deus não é injusto ao ser generoso. E a bondade de Deus ultrapassa todos os critérios humanos. E a frase que fecha a parábola nos alerta para que não sejamos parte dos primeiros que se refugiam em suas próprias ações, ou em seus serviços prestados à Igreja desde cedo: “Assim, aqueles que são os primeiros serão os últimos, e os últimos serão os primeiros”.

Facilmente julgamos que as pessoas não se esforçam, não se engajam, não fazem o suficiente para participar da justiça do Reino. Mas é preciso valorizar a boa vontade e o desejo de participação dos que sempre estiveram à margem excluídos, tanto na Igreja quanto na sociedade: as mulheres, os empobrecidos, as crianças, os diferentes. A preferencia de Jesus pelos pobres, pelos humildes, pelos últimos, deve nos encher de confiança para colocarmos em uma atitude de permanente oração e de amor solidário para com as pessoas que, em nossa vivência diária, são considerados, pela lógica da sociedade e do mercado, os sem chance, os sem voz, os descartáveis, uma “massa sobrante” que pode ser ignorada o jogada fora.

Hoje, numa sociedade marcada pela desigualdade social, essa parábola não deixa de nos lembrar que Deus propõe igualdade. O fato é que, mesmo no plano social, se não se aceita partir dos últimos e dar a eles tanto quanto aos que são considerados “primeiros”, nunca haverá justiça.[2]

A parábola de hoje nos ensina que devemos aprender a não confundir a Deus com nossos esquemas estreitos e mesquinhos. Não podemos nem devemos desvirtuar a bondade de Deus. E ante o Deus bondoso revelado em Jesus a única coisa que cabe e a confiança.

A Palavra de Deus que escutamos do profeta Isaías desvenda diante de nossos olhos o porquê da aparentemente absurda e desconcertante ação de Jesus: “Escutem, os que têm sede; venham beber água! Venham, os que não têm dinheiro; comprem comida e comam! Venham e comprem leite e vinho, que tudo é de graça… Os meus pensamentos não são como os seus pensamentos, e eu não ajo como vocês… Assim como a chuva está muito acima da terra, assim os meus pensamentos e as minhas ações estão muito acima dos seus” (Is 55,1.8-9).

O profeta mostra que Deus ultrapassa todas nossas limitações e nossa maneira de ver e entender a vida. E da mesma maneira que as nuvens estão longe do chão, assim são os planos de Deus com relação à nossa estreiteza de visão e de projetos. Assim, Deus se deixa encontrar, e entra em nossos caminhos para transformá-los em caminhos de Deus.

Dessa maneira, tanto o profeta Isaías quanto a parábola do “patrão diferente” nos convidam a abandonar nossas maquinações e assumir para com todas as pessoas a generosidade de Deus. E apenas uma coisa só importa para quem segue Jesus: viver à altura do evangelho. Em Jesus os caminhos de Deus aproximaram-se de nossos caminhos. E assumindo o projeto de Jesus, nossos caminhos se aproximarão do único “Patrão” que devemos ter. “Patrão que é o Deus,  Pai e Mãe de Jesus, o Pai nosso e a Mãe nossa!

[1] Marcelo Barros, “A parábola do patrão diferente”, CEBI, Quarta-feira, 17 de setembro de 2014.

[2] Marcelo Barros, idem.

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