//
você está lendo...
Homilias

“Que a paz esteja com vocês!”


Jesus e seus discípulos - Que a paz esteja com vocês

“Que a paz esteja com vocês!” [1]

2do Domingo da Páscoa

Textos:
1ra leitura: Atos 2,14a 36-42
Salmo 111
2da leitura: 1 Pedro 1,3-9
Evangelho: João 20,19-31

O primeiro dia da semana após a ressurreição de Jesus tornou-se para os cristãos o mais importante de todos. E passaram a chamá-lo «domingo», que significa «dia do Senhor». E esse dia, primeiro da semana, narra o evangelho, os discípulos estão reunidos, ainda com medo das autoridades judaicas e romanas.

Porém, é importante ressaltar alguns aspectos nesse relato: Em primeiro lugar, o cenário do acontecimento é Jerusalém. Aterrorizados pela execução de Jesus, os discípulos se refugiam em uma casa conhecida, estavam muito impactados com a brutalidade de seu assassinato. Está anoitecendo em Jerusalém, mas também em seus corações. De novo estão reunidos, mas já não está Jesus com eles. Na comunidade há um vazio que ninguém pode preencher. Falta-lhes Jesus. E a todos chega a pergunta: A quem seguirão agora?

Em segundo lugar, o evangelho faz a ressalva que os discípulos estavam reunidos com as portas fechadas. Porque o único que lhes dá certa segurança é «fechar as portas». Portanto, tratava-se de uma reunião meio clandestina, pois sentiam medo de ser presos também e de talvez passar pelo «vexame» que seu Mestre tinha passado. Já ninguém pensa em sair pelos caminhos a anunciar o Reino de Deus. Porque sem Jesus como vão falar das Boas notícias do Reino?

Em terceiro lugar, o texto fala da paz. O evangelista João descreve de maneira insuperável a transformação que se produz nos discípulos quando Jesus, cheio de vida, se faz presente no meio deles, e sem censurá-los por tê-lo abandonado, os saúda com a Paz: “A paz esteja com vocês” (em hebraico «Shalom»). Que na linguagem de hoje seria dizer: “Pessoal, chega de tristeza! Coragem! Não estou morto, não!

Jesus ressuscitado comunica a paz verdadeira, que liberta do medo e infunde confiança na missão. E agora volta a alegria; porque com Ele tudo é possível: libertar-se dos medos, recuperar a confiança e a esperança, abrir de novo as portas e as janelas. E nesse momento de alegria e intimidade com Jesus, os discípulos sentem seu sopro criador: seu Espírito. E com o sopro do Espírito Jesus está de novo no centro de sua comunidade. E assim será para sempre em todos os tempos e em todos os lugares. E deste modo, impulsionados por seu Espírito, tudo começa de novo. A partir desse momento eles, e os discípulos e discípulas, em todos os tempos e lugares, recebem a vocação e o envio para continuar colaborando no mesmo projeto salvador e libertador que o Pai encomendou a Jesus: o Reino de Deus..

Em quarto lugar, o evangelista aponta o perdão dos pecados como prática subversiva. Na religiosidade judaica do tempo de Jesus apenas os sacerdotes tinham a tarefa de purificar os impuros e absolver suas faltas. E quando Jesus sopra o Espírito Santo sobre os discípulos e lhes confere o poder que até então era exclusividade dos sacerdotes do templo de Jerusalém, ou seja, perdoar pecados,  habilita a seus discípulos para uma prática religiosa que vai afetar muitíssimo os interesses econômicos do templo de Jerusalém.

Finalmente, no evangelho de hoje destaca-se a figura de Tomé. Tomé não estava com os discípulos quando Jesus aparece pela primeira vez. E quando lhe contaram que tinham visto a Jesus não acreditou. “Só vendo mesmo, é que eu acredito. Só acredito se puser o meu dedo nas marcas dos pregos, nas suas mãos, e se eu tocar com minha mão o seu lado aberto pela lança”, ele respondeu.

Mas oito dias depois, também o primeiro dia da semana, os discípulos estavam de novo reunidos, de novo a portas fechadas, porém, segundo a narrativa de João, Tomé dessa vez estava lá. Do mesmo modo que antes, Jesus entrou de surpresa fazendo a mesma saudação: “A paz esteja com vocês!” E esta dupla repetição acentua a importância da paz. Construir a paz faz parte da missão. Paz significa muito mais do que só ausência de guerra. Significa construir uma convivência humana harmoniosa, em que as pessoas possam ser elas mesmas, tendo todas o necessário para viver, convivendo felizes e em paz. Esta foi a missão de Jesus, e é também a nossa missão. Numa palavra, é criar comunidade a exemplo da comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.[2]

E depois de desejar de novo a Paz, disse Jesus a Tomé: “Tomé! Ponha o dedo aqui nas minhas mãos. Veja… Veja aqui o meu lado pode palpar. Deixe de ser incrédulo, acredite!” E Tomé? … Não lhe restou senão exclamar comovido: “Meu Senhor e meu Deus!” Mas Jesus arrematou: “Você acreditou, porque me viu. Feliz será quem acreditar ser ter visto!”

E a partir dessa fé proclamada por Tomé, os primeiros cristãos e cristãs, como ouvimos na primeira leitura, continuaram firmes, “seguindo os ensinamentos dos apóstolos, vivendo em amor cristão, partindo o pão e fazendo orações”

Portanto, irmãos e irmãs, nós não vemos Jesus. Mas isso não significa ausência dele. Quando vamos buscando Jesus, o que podemos encontrar? Pois podemos encontrar nada e tudo, ao mesmo tempo. Um Jesus que não podemos ver com nossos olhos, mas um Cristo tão verdadeiro que podemos sentir e experimentar, como sentimos a brisa e o vento. E assim, como a brisa e o vento, Ele vive e se faz presente em nosso meio, agora de outra maneira, até mais intensa, na comunidade reunida e na partilha do pão e do vinho.

Entretanto, na realidade em que vivemos às vezes nos parecemos com os apóstolos e primeiros discípulos e discípulas de Jesus. Passamos também por situações de medo. Trancamo-nos em nossas casas. Colocamos chaves e cadeados em todas as portas e portões, até mesmo na porta de nosso coração. Na rua e nas estradas da vida, nos armamos de extremo cuidado, com medo de assalto, sequestro, agressões, desemprego, acidentes, doenças, incompreensões, etc.

Mas precisamos experimentar em nossas comunidades um «novo começo» a partir da presença viva de Jesus no meio de nós. Só Ele tem de ocupar o centro da comunidade. Só Ele pode impulsionar a comunhão. Só Ele pode renovar nossos corações.

E não bastam nossos esforços e trabalhos. É Jesus quem pode desencadear a mudança de horizonte, a libertação do medo e dos receios, o clima novo de paz e serenidade que tanto precisamos para abrir as portas e ser capazes de compartilhar o evangelho com os homens e as mulheres de nosso tempo.

Hoje, além de nos saudar também desejando-nos a paz, Jesus sopra também sobre nós transmitindo-nos o seu Espírito. E isso significa que agora, pela presença em nós do seu Espírito, somos agora «um espaço» e «um instrumento» da salvação de Deus, do qual pode brotar vida plena e abundante para todas as pessoas, quando nos tornamos missionários da reconciliação da fraternidade e da paz, pelo exercício do amor, da misericórdia, da solidariedade da justiça e do perdão.

Este é um momento importante para proclamarmos, de novo, e com todo o nosso coração, que cremos que Jesus está vivo pela presença invisível, mas atuante de seu Espírito; que, pela Páscoa, tudo se renovou e a maldade e a morte não têm mais a última palavra; que esta vitória da Páscoa de Jesus é também nossa vitória, e que essa vitória está dentro de nós.

Por isso, temos de aprender, cada dia, a acolher com fé sua presença no meio de nós. Quando Jesus volta a se apresentar aos oito dias, o narrador nos diz que ainda as portas continuavam fechadas. E não é só Tomé quem tem de aprender a recuperar a fé e a confiança em Jesus. Também nós hoje temos que superar pouco a pouco as dúvidas e medos que ainda temos e nos fazem viver com as portas fechadas.

E assim sendo, e visto que ainda temos nossas limitações humanas, porque há tantos bloqueios que impedem a ação do Espírito de Jesus em nós, aproveitemos este momento também para pedir a Deus que nos ajude a derrubar as barreiras da falta de perdão, reconciliação, amor, solidariedade e justiça, a fim de que nossa comunidade seja realmente, em nome de Jesus ressuscitado, um espaço de comunhão fraterna e, consequentemente, de vida plena para todas as pessoas.

Então, irmãos e irmãs, com nossas vidas fundamentadas na fé e na partilha solidária, vamos nos reafirmar na certeza de que Cristo está vivo entre nós, para que sua presença abra as portas de nossos corações e nos faça romper as barreiras do medo, para sair em missão com a força do seu Espírito, para assim tornar-nos construtores de uma nova humanidade.

 

[1] Fonte da imagem http://www.cebi.org.br/noticias.php?secaoId=1&noticiaId=4815 Quinta feira, 24 de abril de 2014.

[2] Carlos Mesters, Mercedes Lopes e Francisco Orofino, Raio-X da Vida. Círculos Bíblicos do Evangelho de João, No.24 (Círculo Bíblico)

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: