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Homilias

Jesus e a mulher de Samaria


Jesus e a samaritana - 2 Jesus e a mulher de Samaria

 3ro Domingo de Quaresma – Ciclo A 

Textos:
1ra leitura: Êxodo 17,3-7
Salmo 95, 6-11
2da leitura: Romanos 5,1-11
Evangelho: João 4,5-26.39-42.

Na Bíblia a água é um elemento muito importante símbolo de vida e afeto. Porém, pode ser também um símbolo de morte e destruição, como é o caso da simbólica narrativa do diluvio, quando toda a terra foi alagada e apenas sobraram Noé e sua família (Gn 8); isto é assim porque às vezes para construir uma nova ordem a ordem antiga tem que ser destruída. 

A água é mencionada ao redor de trezentas quarenta vezes; em alguns casos com um sentido metafórico em outros com um sentido real. Na primeira leitura tomada do livro do Êxodo, precisamente a carência desse elemento é o que faz aos israelitas mais uma vez se revoltarem contra Deus e contra Moisés na sua travessia pelo deserto. Devemos lembrar que quando o povo saiu do Egito estava feliz porque tinham experimentado o poder de Deus que os tinha libertado da escravidão do faraó. Porém, quando o povo se encontra no deserto, e tinha que sobreviver pelos seus próprios médios, sentiu desanimo e a vontade de voltar novamente para o Egito onde, ao menos, tinham água e comida para sobreviver.

E o povo se rebela contra Moisés e reclama: “Por que você nos tirou do Egito? Será para nos matar de sede, a nós, aos nossos filhos e às nossas ovelhas e cabras?” E ante os reclamos do povo Moisés não teve outra escolha que se dirigir a Deus para ele responder o que fazer. Deus indica a Moisés bater a rocha com o mesmo bastão que tinha usado para abrir as águas do Nilo, e assim o povo obtém a água da rocha.

E de certa maneira muitas vezes nós temos muita semelhança com os israelitas no deserto; não conseguimos entender que Deus está sempre ai a nosso lado; não reparamos que Deus sempre quer o melhor para nós e que por seu poder faz brotar da rocha árida e seca, água e vida para todos nós.

E também, no evangelho de hoje, é a água o elemento central na narrativa do encontro de Jesus com uma mulher de Samaria. Um encontro entre duas culturas, com um tronco comum, mas divididas por uma história que as conduz por diferentes caminhos. Mas o interesante deste evangelho é o cúmulo de surpresas que nos oferece Jesus com sua conduta.

E não vamos nos preocupar ou nos perguntarmos se o episódio aconteceu realmente ou não. Esses questionamentos não são fundamentais nem importantes para entender o ensino que o texto quer transmitir. Lembremos que segundo a narrativa Jesus está com seus discípulos, e talvez o texto pudesse ser considerado uma parábola, ou uma narrativa simbólica, como pensam alguns biblistas, mediante a qual o evangelista quer transmitir um ensino para os discípulos e discípulas de antigamente, como também para os discípulos e discípulas de todos os tempos e lugares.

Mas gostariamos fazer várias lembranças, em primeiro lugar, que, segundo o texto, será precisamente essa mulher a primeira pessoa escolhida por Jesus para levar as boas novas do Reino ao povo de Samaria. Em segundo lugar, é interessante e curioso o fato que foram também as mulheres as que ficaram ao lado de Jesus na cruz acompanhando sua morte, enquanto a maioria dos discípulos fugiu. Em terceiro lugar foram elas as primeiras testemunhas da ressurreição. E, finalmente, foram depois elas também as que contaram da ressurreição aos discípulos (Mt 28,8; Lc 24,10; Jo 20,18).

E pela história sabemos que não existia relacionamento nem comunhão entre Judeus e Samaritanos. Os judeus não tinham nenhuma classe de compromisso com os samaritanos; não lhes pediriam nada emprestado; não beberiam do mesmo copo ou sacariam água do poço que eles extraíssem; não se sentariam a comer juntos, não teriam conexão religiosa nem tratos comerciais com eles.

Os samaritanos eram desprezados pelos judeus. E este desprezo vinha de longe, desde o século VIII antes de Cristo (2Rs 17,24-41), e transparece em alguns livros do Antigo Testamento. O livro do Eclesiástico, por exemplo, fala de um “povo estúpido que mora em Siquém, que nem sequer é nação” (Eclo 50,25-26). Muitos judeus da Galiléia, quando viajavam para Jerusalém, não passavam pela Samaria. Mas o Evangelho de João mostra Jesus fazendo o contrário, passando pela Samaria e acolhendo os samaritanos. Por causa disso, era criticado pelos judeus, que o xingavam de “samaritano possuído por um demônio” (Jo 8,48).

E atravessando Samaria, Jesus cansado do caminho senta-se junto ao poço de Jacó, perto da aldeia de Sicar. O «poço de Jacó» situa-se num rico vale entre os montes Ebal e Garizim, não muito longe da cidade samaritana de Siquém. Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha. E segundo a tradição teria sido aberto pelo Patriarca Jacó. E na época o poço era o lugar tradicional de encontros e de conversas. Hoje, seria a praça, o bar, a rodoviária, o supermercado, a fila do banco etc... E é lá, perto do poço, que começa a longa e difícil conversa que foi de muito proveito para ambos.

Segundo o evangelho era quase meio-dia. Os discípulos tinham ido ao povoado comprar alimento. E uma mulher samaritana, cujo nome não é mencionado, chega com seu cântaro de água. Ela nem podia imaginar o que ia acontecer. Jesus, rompendo os preconceitos e os tabus de seu tempo, inicia o diálogo e lhe pede água. Ao pedir água à mulher, Jesus lhe pede uma demonstração da solidariedade ao nível humano mais fundamental. Inclusive quando hoje alguém chega de visita a nossa casa a primeira coisa que falamos é: aceita uma água, um cafezinho? Então hoje como ontem dar água é sinal de acolhimento, solidariedade e hospitalidade.

E aqui temos o primeiro fato surpreendente. Ao fazer o pedido Jesus elimina a antiga superioridade que os judeus alimentavam em relação aos samaritanos e também dos homens em relação às mulheres. Jesus quebra todas as normas culturais e religiosas de sua época. Apresenta-se simplesmente como um homem necessitado, partilhando a mesma fraqueza e a mesma necessidade dela e de todo homem e toda mulher.

Porém, segundo o evangelho, a mulher se surpreende. Está intrigada pela audacia deste homem que, sendo judeu, lhe dirige a palavra. “Como é possível, o senhor é judeu, e eu sou samaritana, como é que o Senhor me pede água?”

O diálogo prossegue e a mulher responde às observações de Jesus. A conversa desenvolve-se através das sete respostas que a samaritana da às sete frases de Jesus. Para ela a água serve para saciar a sede. A busca da água, com o cántaro todos os dias, significa que a sede jamais se saciaria. Mas Jesus lhe oferece outra água: «a água da vida que apaga toda sede». Deste modo, Jesus transforma as circunstâncias simples e comuns da vida, como buscar água num poço, em momentos especiais de graça e salvação.

Mas a resposta da mulher está cheia de ceticismo, muito semelhante a Nicodemos no evangelho do domingo passado: “Será que o senhor é mais importante que nosso antepassado Jacó, que nos deu este poço, onde ele, seus filhos e seu gado beberam?”. E a resposta de Jesus indicando um ato único de beber de sua água corresponde à idéia do novo nascimento. Só uma água perene pode saciar a sede humana. E essa é a água que Jesus oferece. Trata-se do Espírito que se torna um princípio interior e não exterior como o poço de Jacó.  

Ai a mulher, praticamente convencida, pede a Jesus essa água fantástica, para não ter nunca que vir a sacar do poço já que, segundo ela, não tem marido. Mas a seguir Jesus acaba por confundí-la totalmente quando lhe desvenda os segredos de sua vida: “você tá certa, ao dizer que não tem marido, pois já teve cinco, e este que você tem agora não é de fato seu marido”.

E aqui nos surpreende a benevolência e compaixão de Jesus. Não reprova à mulher o fato de não estar casada. Jesus sabe muito bem, que quando em um diálogo ou numa conversa com alguém começamos reprovando e rejeitando não se chega muito longe. E ele quer chegar ao fundo do problema, o resto se resolverá por si mesmo. Ele quer mostrar o que significa dar culto a Deus em “espírito e verdade”. 

Ai a mulher começa a tirar conclusões. Primeiro, “vejo que você é profeta”. Segundo, “pode que você seja o Messias”. E a partir desse diálogo a mulher começou a perguntar sobre adoração, a vida espiritual, sobre o lugar correto para o culto, se no monte Garizim ou em Jerusalém E uma coisa muito importante acontece para ela a partir dessa conversa: se dá conta que o poço de Jacó era símbolo de uma religião externa, ritual e sem vida, incapaz de saciar a sede espiritual, e que chegará o tempo em que as pessoas compreenderão que a relação com Deus não depende do local. “Deus é Espírito e por isso seus adoradores devem adorá-lo em Espírito e verdade”.

E a partir desse diálogo essa mulher sem nome, ficou convencida e se torna “a primeira missionária e evangelizadora”, antecipando, profeticamente, o anuncio da ressurreição, dada por Maria Madalena e pelas mulheres aos discípulos, na madrugada da Páscoa. Diz o texto que “muitos samaritanos daquela cidade creram em Jesus porque a mulher tinha dito: Ele me disse tudo o que eu tenho feito” (Jo 4,39).

Assim, o lugar do encontro com Deus não é geográfico, não se dá em um local determinado, pois aqui em nosso texto a samaritana encontra Deus na pessoa de Jesus peregrino que lhe pede água. E ao entrar em um diálogo com o Jesus sedento, a mulher descobre que Deus pode ser encontrado na simplicidade da vida e nos atos de amor e solidariedade. Deste modo, o que Jesus fez foi desafiá-la a viver a experiência da partilha e da solidariedade, e isso não se encontra simplesmente na formalidade do templo, do culto e do ritual, mas no dia-a-dia, onde o mundo todo é templo de Deus. Daí a diferença entre a água do poço e a «água viva», ou seja, a água da fonte interior.

Quem só bebe da água dos poços religiosos, ou seja, da religião externa, e pensa que Deus somente pode ser encontrado aí vai ter sede de novo, porque ao Deus vivo se lhe encontra no dia-a-dia, e nos conflitos de nosso mundo.

Entretanto, hoje como ontem, em nossas comunidades, há pessoas que acham que Deus apenas pode ser encontrado no templo. Mas temos que descobrir que Deus está presente em cada lugar onde há pessoas abertas a sua Palavra e dispostas a fazer sua vontade.

Por isso, não podemos esquecer que para encontrar a Deus, não há necessidade de entrar em uma capela ou visitar uma luxuosa catedral. Desde uma simples cozinha, desde o nosso centro de trabalho, na própria rua, podemos elevar nossos corações a Deus e encontrá-lo em nosso diário caminhar.

No evangelho de hoje vemos que a samaritana faz todo um processo até descobrir quem é Jesus. De forastero e judeu inimigo, descobre ao homem que a desconcerta, ao profeta de Deus e, finalmente, chega a lhe reconhecer como Mesías. Por isto, a anônima mulher samaritana do evangelho, torna-se um modelo de vida cristã. Um modelo do que nos deve passar no processo de descobrir quem é Jesus, ou seja, ir pouco a pouco o conhecendo até descobri-lo como o Salvador que dá sentido a nossas vidas e a nossas lutas do dia-a-dia.

Nossas comunidades cristãs têm o desafio de se manterem no caminho da justiça, que é o caminho da santidad, como uma forma concreta de mostrar sua fé. Porque quando somos capazes de sair de nosso individualismo e nosso conforto; quando somos capazes de nos comprometer em trabalhos comunitários e solidários; então, estamos no caminho da fé que produz verdadeiros frutos e nos constituímos em signo de esperança para tantos homens e mulheres que perderam a ilusão e a esperança no caminhar do dia-a-dia.

Então, e trazendo o texto para o nosso presente, será tão difícil compreendermos que mediante a encarnação de Jesus, o local do encontro com Deus passou a ser o próximo, o necessitado, e que esse encontro sempre enriquece nossa vida espiritual? Será tão difícil aprendermos do exemplo de Jesus, que não condena ninguém, que não rejeita ninguém mesmo que não seja de sua religião e de seu mesmo opinar? Foi isso o que a samaritana descobriu e passou à frente. E se nós imitássemos hoje a Jesus alcançaríamos muitas mais coisas e chegaríamos a muitas mais pessoas. Aprendamos dele!

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