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Homilias

“… sejam perfeitos em amor…”


“… sejam perfeitos em amor…”

 Biblia e vela

 

7mo Domingo depois da Epifania – Ciclo A

Textos:
1ra leitura: Levítico 19,1-2.17-18
Salmo 71,16-24
2da leitura: 1 Coríntios 3,16-23
Evangelho: Mateus 5,38-48

O evangelho de hoje é uma continuação do chamado “Sermão do Monte”. Depois de ter proclamado as “bem-aventuranças” (Mateus 5,1,12) Jesus faz uma releitura das Sagradas Escrituras. Em dois momentos dos dez versos que conformam o evangelho de hoje Jesus cita textos antigos, muito conhecidos e aceitos dentro da lei judaica, porém, faz uma nova leitura deles e os interpreta de uma maneira diferente a como eram comumente interpretados.

Na primeira parte do evangelho Jesus lembra a chamada lei do talião, um princípio jurídico judaico segundo o qual a pena e o castigo deveria ser proporcional à ofensa: “olho por olho, dente por dente” (Êxodo 21,24; Levítico 24,20; Deuteronômio 19,21). Para nossa mentalidade moderna essa poderia parecer uma lei bárbara, mas, na época foi uma lei progressista que tentava por freio ao excesso de violência, e que as pessoas fizessem justiça por elas mesmas, introduzindo certa ordem na sociedade com relação ao tratamento de crimes e delitos. Antes dessa lei qualquer um podia matar outra pessoa apenas por uma pequena ofensa. A lei do talião queria evitar uma vingança exagerada, impedindo, assim, abusos de toda ordem que gerariam uma espiral de violência sem fim[1].

Mas a proposta de Jesus reinterpretando essa lei é outra. Ele vai além, e sua proposta é até escandalosa. E para ilustrar sua proposta apresenta quatro situações que têm em comum o fato de alguém estar usando de má fé para conosco: “oferecer a outra face quando receber uma bofetada”; “oferecer também o manto quando alguém quiser tomar a túnica”; “caminhar dois mil passos se alguém te forçar a caminhar mil”; emprestar se alguém pedir emprestado alguma coisa”.

Para comentar apenas duas dessas ilustrações poderíamos dizer que no caso de oferecer a outra face para uma bofetada não deve ser considerada ao pé da letra, mas significa que devemos nos afastar absolutamente de todo sentimento de vingança.  E no caso da túnica devemos entender e compreender que um judeu pobre da época tinha apenas duas vestimentas: uma túnica e uma capa. E fazendo uma comparação podemos dizer que a túnica servia de calça, camisa ou vestido e a capa servia de cobertura ou agasalho, mas também de cama e cobertor. Ou seja, que túnica e capa eram coisas básicas. E quando Jesus diz que se alguém mover um processo para tomar a túnica devemos dar-lhe também o manto, significa nunca usar a violência. No se deve nunca usar a lei do talião, “olho por olho dente por dente” ou pagar na mesma moeda.

Ou seja, devemos entender que estas palavras de Jesus não devem ser interpretadas de maneira literal, como se cada vez que vemos alguém sendo perverso não tenhamos que fazer nada. Precisamos entender que Jesus não está dizendo que devemos ficar esperando passivamente que outros aprontem de tudo contra nós. Porque quando alguém prejudica a nossa família ou a qualquer pessoa precisamos dentro de nossa esfera de ação resistir-lhe. Porque se virmos alguém tentando cometer um crime e estiver ao nosso alcance, devemos resistir-lhe, seja chamando a policia, seja impedindo pessoalmente. Porque o empregado que sofre abusos da parte do patrão, e com isto não somente ele, mas toda a sua família é prejudicada, ele deve se queixar perante do governo ou do sindicato ou fazer um protesto. Reagir em situações assim não é pecado, é dever, porque o pecado seria a omissão.

O que Jesus com essas ilustrações quer dizer é que nós não devemos vingar-nos, sentir rancor ou responder às pessoas com a mesma moeda. Assim Jesus dá um passo além e propõe uma nova atitude. A resistência proposta por Jesus ataca o mal pela raiz. Não é uma atitude violenta que corta o círculo da violência. Esta, ao contrário, alimenta o ódio, gerando ainda mais violência. A postura que Jesus apresenta é pagar o mal com o bem. Ele propõe não usar os mesmos métodos agressivos dos violentos, mas desarmá-los com atitudes que os desinstalem. Oferecer a outra face (Mateus 5,39), na verdade, é responder à violência com atitudes de gratuidade e de partilha, de generosidade e de solidariedade (Mateus 5,40-42)[2].

Na segunda parte do texto Jesus fala sobre o ódio ao inimigo. Porém, não se conhece nenhum texto do Antigo Testamento que fale sobre odiar o inimigo, apenas sabemos que na lei judaica não era uma obrigação amar aos inimigos. Mas nesta segunda parte do evangelho Jesus anuncia a novidade da justiça do Reino: “Amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês”. Dessa maneira Jesus deixa claro que o ódio não liberta ninguém, porém, pelo contrário o ódio quebra as relações humanas prejudicando, inclusive, a quem odeia.

Entretanto, quando Jesus fala do amor ao inimigo não está pedindo que alimentemos em nós sentimentos de afeto, simpatia ou carinho para quem nos faz mal. Amar ao inimigo significa, ante tudo, não fazer-lhe mal, no procurar nem desejar fazer-lhe dano. Porém, não se trata apenas de não fazer-lhe mal, mas, inclusive fazer-lhe um bem se precisar. Nunca devemos esquecer que somos mais humanos quando perdoamos que quando nos vingamos.

E acrescenta o texto: “Se vocês amam somente a aqueles que os amam, porque esperam que Deus lhes dê alguma recompensa?… Se vocês falam somente com os amigos, o que é que estão fazendo de mais?” E na sequência o texto cita o exemplo dos publicanos/cobradores de impostos e os pagãos que somente amam quem os ama. E sem dúvida amar a quem nos ama não tem nada de extraordinário e diferente. Porque o que deve diferenciar os seguidores e as seguidoras de Jesus é ir além do comum e ordinário, porque somente vivendo uma justiça maior seremos parecidos ou semelhantes com Deus.

E para encerrar com chave de ouro o evangelho de hoje, vem ai a frase que da sentido à nova lei anunciada por Jesus: “Sejam perfeitos em amor, assim como é perfeito o Pai de vocês”. E aqui “perfeito” significa ser parecidos com Deus, ser como o próprio Deus.

Então irmãos e irmãs, neste tempo de epifania somos convidados a redescobrir a mensagem da nova lei de Cristo. Mensagem que talvez temos escutado muitas vezes, mas que temos escutado distraída e confortavelmente. Porque se o cristianismo, que deve ser um agente de mudanças, fica adormecido, distraído e não atua, simplesmente perde seu propósito, esquece seu papel e missão no mundo. Converte-se em uma organização a mais da sociedade que favorece ao rico e ignora aos empobrecidos, afirma ao injusto e condena ao justo, aplaude ao libre e submete ao escravo. Mas são precisamente os empobrecidos, o justo, o escravo a causa primeira de Jesus e a principal opção e razão do seu Reino.

E quero terminar com uma frase de José Fernandes de Oliveira, sacerdote católico, escritor e músico, conhecido como Padre Zezinho, e considerado uns dos maiores fenômenos da música cristã no mundo. Penso esta frase do Padre Zezinho resume muito bem o ensino e sentido da mensagem do evangelho de hoje:

“Devemos amar como Jesus amou. Sonhar como Jesus sonhou. Pensar como Jesus pensou. Viver como Jesus viveu. Sentir o que Jesus sentia. Sorrir como Jesus sorria. E ao chegar ao fim do dia, dormir muito mais feliz.” [3]

_________________________

[1] Ildo Bohn Gass, CEBI, http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=1&noticiaId=4654, Quarta feira, 19 de fevereiro de 2014.

[2] Ildo Bohn Gass, CEBI, http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=1&noticiaId=4654, Quarta feira, 19 de fevereiro de 2014.

[3] Citado por Ildo Bohn Gass, CEBI, http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=1&noticiaId=4654, Quarta feira, 19 de fevereiro de 2014.

 

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