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Homilias

“… e receberá o nome de Emanuel.”


“… e receberá o nome de Emanuel.”

Advento 4 - 3

4to Domingo do Advento – Ciclo A 

Textos:
1ra leitura: Isaías 7,10-14
Salmo 24,1-7
2da leitura: Romanos 1,1-7
Evangelho: Mateus 1,18-55

O Advento como tempo de preparação para o Natal é um momento de alegria. É a afirmação da esperança da intervenção de Deus em nossa historia. Advento e Natal é “Emanuel”, ou seja, Deus conosco. Deus colocou sua tenda, sua morada, em meio de nós.

Por isso, o sentido do Advento e do Natal não é algo comercial ou sentimental. Não é chorar de emoção por causa de uma criancinha. É alegrar-se porque aquele que podemos chamar de “Filho de Deus” veio, e sempre vem e sempre está vindo, para viver no meio de nós, para com seu exemplo e sua vida mostrarmos concretamente o que significa o bem.

Mas, como sentir alegria em um mundo com tantas tristezas, dores, escândalos, corrupção violência e fome? Como poderemos ver a chegada da salvação no rosto de um menino que nasce na pobreza de uma manjedoura?

Mas acontece que nossa alegria não é simplesmente festa, diversão ou euforia. É a alegria da certeza de que o Reino de Deus está em meio de nós. E o Advento é um tempo de partilha e anuncio da chegada do Reino de Deus.

Nos dois domingos anteriores refletimos ao redor da pessoa de João Batista, o mensageiro, a voz que clama no deserto que anuncia a chegada de uma alternativa diferente, de um novo caminho para os humildes, para os fracos; um novo caminho para o povo pobre. E João anuncia esse novo caminho. E esse novo caminho é Jesus. E entre os profetas João Batista é ao mesmo tempo, o maior e o mais humilde (cf. Mt 11,11). Sua missão de iluminar é passageira, porém, a de Jesus é permanente.

Hoje praticamente estamos às vésperas do Natal. Acendemos a quarta vela do Advento. É o quarto domingo do Advento. E hoje nos reunimos com duas grandes figuras e símbolos do Advento e do Natal. Desta vez com uma humilde mulher e um humilde carpinteiro, moradores de Nazaré, uma aldeia sem importância perdida na região de Galileia. Estamos reunidos com Maria e com José.

O evangelho de Mateus se inicia com a genealogia de Jesus. E «genealogia» é um género ou recurso literário na tradição bíblica para apresenta uma personalidade importante. Mas essas listas de nomes geralmente podem resultar chatas e aparentemente sem sentido. Comumente ninguém acostuma ler as genealogias e menos ainda pregar das genealogias. Entretanto, para os judeus e os antigos não era assim, porque para eles era de suma importância conhecer a linhagem de uma pessoa, o que nós chamamos hoje «árvore genealógica». Entretanto se analisamos a genealogia de Jesus, vemos que nessa lista de 42 nomes masculinos, aparecem quatro mulheres, as únicas quatro antepassadas de Jesus que se indicam: Tamar, Raabe, Ruth e Bate-Seba.

E que mulheres! Se o evangelista Mateus tivesse procurado com mais tenacidade no Antigo Testamento não teria encontrado quatro personagens mais indignos: Tamar, a incestuosa (cf. Gn 38), Raabe, a prostituta (cf. Js 2,1; 6,17), Ruth, a estrangeira moabita, motivo de desprezo para qualquer judeu (cf. Rt 1-2) e Bate-Seba, a adúltera, e mãe de Salomão (cf. 2Sm 11). E resulta assombroso achar essas mulheres, como as avós e antepassadas de Jesus, porque uma genealogia era para os antigos um motivo de orgulho e, além disso, a linhagem sempre se dava pela linha paterna.

No entanto, na narrativa de Mateus há toda uma intencionalidade. É como se se quisera deixar claro qual seria a missão de Jesus e seu programa de vida. E além de suas histórias pessoais, essas avós e antepassadas de Jesus têm uma realidade simbólica que as transcende. No amor, a dor, o pecado e a alegria de cada uma dessas mulheres, retratam-se a historia da humanidade sofredora, pecadora e esperançosa. E, entre outras coisas, o evangelista quis mostrar que Jesus nunca se envergonhou de seus parentes, nem se importou de contar na sua família grandes pecadores e pecadoras. Todos foram aceitos como eram, e a todos abraçou em um abraço amoroso, eterno e único.

E vocês poderiam se perguntar, porque toda essa retrospectiva? O fato é que a partir do versículo 18 do evangelho de Mateus, nosso evangelho de hoje, procura-se explicar como Jesus, nascido de maneira misteriosa de Maria, forma parte da linhagem de Davi e Abraão através de José. E o fato do nascimento de Jesus afirmado pela genealogia, é o tema do evangelho de hoje.

Porém, na narrativa de Mateus, o nascimento de Jesus, o Messias esperado, é um escândalo para a sociedade de sua época. Não apenas tem quatro avós indignas e nada convencionais: uma incestuosa, uma prostituta, uma estrangeira e uma adúltera; mas, além disso, nasce de uma relação conjugal fora dos padrões da sociedade judaica: é filho de uma mãe solteira.

Narra o evangelho que quando se anuncia o nascimento de Jesus, Maria sua mãe estava noiva de José, descendente de Davi, quem foi surpreendido com a notícia de que sua noiva estava grávida. E na época isso seria um adultério porque eles estavam comprometidos em casamento. E teria sido uma reação normal, para salvar sua honra, a denuncia pública, o divórcio, ou o apedrejamento da mulher. Mas a narrativa destaca que José era um homem “justo”, não queria difamar Maria e decide cancelar o casamento sem ninguém saber. Porém, mesmo assim, Maria carregaria para sempre o estigma de ser mãe solteira, ficando exposta à marginalidade social, econômica e religiosa, podendo, inclusive ser acusada de prostituta.

Sem dúvida, José foi uma grande dor de cabeça para Deus. Como convencê-lo de aceitar Maria como esposa, aceitar a criança como seu filho, e dar a ela seu nome para que Jesus pudesse ser reconhecido como “filho de Davi”, já que na tradição judaica o Messias esperado teria que ser da linhagem de Davi? E aí aparece na narrativa um anjo, um mensageiro de Deus, que em sonhos fala para José e pronuncia uma das frases chaves no texto: “José, ‘não tenha medo’, porque Maria está grávida do Espírito Santo, e o menino que vai nascer vai ser uma criança muito especial, e seu nome será Jesus”. E o narrador remete para uma profecia do profeta Isaías que fala que “a virgem ficará grávida e terá um filho que receberá o nome de Emanuel”, ou seja, “Deus está conosco”. Contudo, a narrativa não informa o modo humano em que se deu a gravidez.

E continua narrando o evangelho que José, despertando do sonho, fez como o anjo lhe ordenara. E sem entender completamente o que aconteceu, mas confiante na palavra de Deus de que essa criança era uma criança muito especial nos planos de Deus, recebe Maria como sua mulher, dando a Jesus seu nome e ligando assim Jesus à tradição messiânica davídica.

E aí temos o fato que muitos estudiosos, muito comprometidos com as formulações dogmáticas, obscurecem o sentido real do texto e buscam no texto o que o texto não tem a intenção de abordar nem significar: a virgindade perpetua de Maria.

E não gosto muito de entrar em uma reflexão bíblica em assuntos complicados de exegeses e interpretação bíblica que seriam mais bem motivos para um estudo bíblico. Porém, brevemente gostaria clarificar que o evangelista Mateus toma essa citação de Isaías da Septuaginta (LXX), ou seja, a versão grega do Antigo Testamento, que traduz o termo hebraico «almaha»  que significa “mulher jovem” por «parthenos», que significa em grego “mulher virgem”. Entretanto, se o evangelista Mateus tivesse tomado a cita de Isaías do original hebraico teria dito: “a jovem ou a mulher jovem que está grávida dará à luz um filho e porá nele o nome de Emanuel”.

Em fim, seja qual for a interpretação que demos à frase “a través do Espírito Santo”, a mensagem central que o evangelho de hoje quer lançar, para seu tempo e para todos os tempos é: Em primeiro lugar, que quando Deus rompe com a genealogia patriarcal, introduzindo na genealogia de Jesus quatro mulheres, e ainda indignas para os padrões da época, e nada convencionais, rompe com o patriarcalismo. A comunidade de Jesus será uma comunidade verdadeiramente inclusiva e abrangente para todas as pessoas. Em segundo lugar, que José é o verdadeiro e único esposo de Maria, a qual pela força e poder do Espírito concebe e da à luz ao seu filho Jesus. Porque Deus age na história humana, mas com a colaboração de pessoas que assumem com simplicidade, às vezes com dificuldade, sua responsabilidade, como aconteceu com José e Maria. Em terceiro lugar, que Jesus é o verdadeiro herdeiro das promessas de Deus a Davi, que veio ao mundo por obra direta de Deus, e que quando recebe o nome de Jesus, o mesmo nome do patriarca que introduz o povo hebreu na terra prometida, ou seja, Josué, ou em hebraico «Ioshua», é a expressão humana de que Deus é e será sempre Salvador e Libertador. Finalmente, que Jesus, recebendo o título de “Emanuel”, ou seja, “Deus está conosco”, é a declaração que em Jesus Deus está conosco todos os dias até o fim dos tempos. E essa é a mensagem centra do texto e a mensagem do Natal: Deus está conosco!.

Portanto, alegremo-nos como João Batista, e sejamos confiantes como José e Maria, que acreditaram que a través deles, e pela força e poder do Espírito, seria cumprido o que Deus tinha prometido.

Jesus veio ao mundo em um momento em que a esperança tinha-se perdido. E eis o grande desafio que temos hoje, quando celebramos Natal e iniciamos um novo ano: reconhecer que temos que levar a todas as pessoas a esperança de uma vida nova. Uma vida cheia da presença de aquele que nasceu em Belém, porque “Deus está conosco”.

Irmãos e irmãs, alegremo-nos; Natal está perto; um menino nasceu para nós: Feliz e abençoado Natal!

 

 

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