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Homilias

O fariseu e o cobrador de impostos


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O fariseu e o cobrador de impostos

23o Domingo depois de Pentecostes – Ciclo C

Textos
1ra leitura: Eclesiástico 35,12-23
Salmo 84,1-6
2da leitura: 2 Timóteo 4,6-8.16-18.
Evangelho: Lucas 18,9-14

A semana passada o texto do Evangelho de Lucas se enfocava na importância da oração e a insistência em orar. Através da parábola “da viúva e o juiz injusto”, Jesus ensina aos seus discípulos “que deviam orar sempre e nunca desanimar ou desistir” (Lc 18,1b).

E continuando a temática da oração, a primeira leitura de hoje tomada do livro do Eclesiástico, escrito em torno do segundo século antes de Cristo, propõe afirmações sobre o poder da oração feita com humildade. Nela Deus comparando-se com um juiz imparcial e não corrompido pelos ricos, olha com muito carinho para os pobres e humildes que não têm nada para lhe retribuir, porque “a oração do humilde penetra as nuvens”.

Também o Evangelho de hoje continua com o tema da oração. É outra parábola que é continuação da parábola que ouvimos no último domingo, mas desta vez vai endereçada diretamente a uma classe de pessoas: os autossuficientes.

Jesus apresenta a parábola “do fariseu e do cobrador de impostos” para ilustrar sua mensagem. O cenário é o Templo. E a maiorias dos comentaristas bíblicos coincidem que não se trata de um momento de devoção particular ou individual, mas de adoração coletiva.

Os personagens também são muito representativos: um fariseu e um cobrador de impostos ou publicano. O fariseu pertence a um grupo religioso que cuidava pelo cumprimento rigoroso das leis. O publicano era cobrador de impostos, colaborador do império romano, grupo que frequentemente era acusado de corrupção e traição aos interesses nacionais. E os dois estão orando a Deus.

O fariseu até que parece uma boa pessoa. Faz jejum duas vezes por semana e dá a décima parte de tudo o que ganha (18,12). Assim ele está cumprindo com o marcado pela lei de sua religião. Por isso, realmente tudo o que ele diz a respeito de si mesmo na oração é verdade. Os fariseus realmente praticavam aqueles exercícios devocionais mencionados no texto e eram muito fiéis na prática do dizimo.

Mas há uma diferença na oração de um e do outro. O fariseu num gesto de superioridade religiosa ora em pé e coloca-se aparte dos outros adoradores dizendo: “Ó Deus eu te agradeço porque não sou avarento, nem desonesto, nem imoral como as outras pessoas. Agradeço-te também porque não sou como este cobrador de impostos”. Dessa maneira as frases da oração dele, muito mais que uma oração, parece uma recriminação para as outras pessoas. Por isso sua oração, afinal de contas, era um ato de auto-propaganda e auto-complacência. Não há nenhuma palavra de gratidão ou nenhum reconhecimento de culpa.

Já o cobrador de impostos chega a Deus com um coração contrito, e ao invés do fariseu fica a certa distância e se batia o peito, dizendo, “Oh Deus, tem compaixão de mim, que sou pecador!” (18,13).  Assim, ele reconhece que vivia das taxas abusivas cobradas dos pobres, além de colaborar com o império romano. Por isso, há algo que faz diferença entre sua oração e aquela do fariseu. Enquanto o fariseu mostrava auto-complacência e ensoberbecimento, o publicano queria reconciliar-se com Deus. Por isso clama para que seu sacrifício colocado no altar lavasse suas culpas.

Jesus conclui a história dizendo que os dois homens voltaram do templo diferentes. O fariseu, do mesmo modo, feliz na auto-complacência de seus deveres cumpridos. E voltou feliz, mas não justificado. O publicano desceu também feliz, mas ao reconhecer todas as suas limitações desceu justificado. Foi assim que o cobrador de impostos e não o fariseu quem ficou perdoado por Deus.

Porém, convém procurar o verdadeiro sentido da parábola porque não podemos ficar em uma interpretação superficial e dizer apenas que o fariseu é mau e o cobrador de impostos é bom.

A nós, que ouvimos esta parábola hoje muitas vezes, não nos surpreende muito o resultado, mas para os ouvintes daquela época, era toda uma surpresa. Por quê? Pois porque o fariseu era uma pessoa com muito respeito na comunidade; acudia ao templo cada sábado e cumpria a lei. Então, estava agindo bem ante todos. Por outro lado, os cobradores de impostos (ou os publicanos) não gozavam de respeito ante os demais. Seu trabalho e seu estilo de vida não eram respeitados por nenhum segmento da sociedade judia porque cobravam os impostos para os romanos, e trapaceavam aos pobres para obter ganâncias maiores.

Então, para os ouvintes da época o fariseu é o símbolo do bom judeu, enquanto o cobrador de impostos o símbolo do inimigo do povo judeu. Mas Jesus ironicamente usa estes dois personagens para oferecer sua mensagem: “Porque o que a si mesmo se engrandece, será humilhado; e o que se humilha, será engrandecido” (18,14).

Por isso, a chave para interpretar corretamente o texto reside na diferença mais significativa inserida por Jesus nessa parábola. E essa diferença reside no fato de que na concepção farisaica Deus deveria justificar o que já é considerado “justo”, ou seja, aquele que pratica as obras religiosas recomendadas pela lei. Porém, Jesus ensina o contrário. Deus não justifica o que aparentemente parece “o justo” e sim “o pecador”. Para Deus nem o nível de educação nem o nível de prestígio é importante para alcançar o perdão. É a atitude ante Deus e nosso próximo o que determinará se somos perdoados o não.

A oração do cobrador de impostos torna-se assim um modelo não apenas de oração, mas também da atitude de quem ora. Nossa oração deve partir de uma atitude de humildade, reconhecendo que não podemos nos salvar a nós mesmos. E isso é o que ouvimos na primeira leitura: a humildade é indispensável e fundamental para que nossa oração “possa atravessar as nuvens” e obter resultado.

Hoje não tem mudado muito o palco do mundo. Pessoas com prestígio e fiéis observantes da lei aparecem como bons, e pessoas, como os “cobradores de impostos” de antigamente, aparecem como inimigos. Mas esta história não trata de gente boa ou gente má. Trata do perigo de ter muita confiança em nos mesmos olvidando-nos do poder e da misericórdia de Deus. A cultura do mundo promete que se cumprimos as leis e trabalhamos arduamente, triunfaremos ante a sociedade e ante Deus. Mas nem o mundo nem nós individualmente estamos dispostos a admitir os defeitos e pecados que nos aprisionam.

Já no contexto comunitário da Igreja o farisaísmo se manifesta de muitas e diferentes maneiras. Dentro da Igreja temos também aqueles e aquelas que se creem os bons, os cumpridores, os fiéis, e rezam para que os que não pensam como eles se convertam, porque estão errados! Por isso o farisaísmo de hoje encontra-se na visão que temos de Deus como um comerciante que vende o céu em troca de obras humanas. Nas parábolas “do jovem rico” e “da porta estreita” Jesus alertou que: “Muitos que agora são os primeiros serão os últimos, e muitos que agora são os últimos serão os primeiros” (cf. Mc 10,31 e Lc 13,30). E um proverbio de Mahatma Gandhi diz que “enquanto um homem não se considera espontaneamente o último, não há para ele salvação”.

Então, e resumindo, o ensino da parábola é, portanto, que a justificação pessoal é uma dádiva que recebemos de Deus. Não é uma recompensa ou uma medalha “de honra ao mérito” que ganhamos porque cumprimos certas formalidades religiosas, ao estilo do fariseu da parábola. Também que é preciso humildade, reconhecimento de nossas falhas e erros, e confiança exclusivamente no amor de Deus. Porque Deus sempre será fiel apesar de nossas falhas e erros, e sempre concederá uma nova oportunidade e um novo recomeço. Amém.

 

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