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Homilias

Humildade, hospitalidade e partilha


jesus

Humildade, hospitalidade e partilha

15to Domingo depois de Pentecostes  – Ciclo C

Textos
1ra Leitura: Eclesiástico 10,12-18
Salmo 112
2da Leitura: Hebreus 13,1-8
Evangelho: Lucas 14, 1.7-14

O evangelista Lucas acostuma apresentar Jesus como viajante, caminhante e hóspede. No texto do evangelho de hoje Jesus aparece indo para Jerusalém. O cenário é a comunhão de mesa em dia de sábado. Jesus tinha sido convidado a comer na casa de um proeminente fariseu.

Porém, Jesus é um hóspede incômodo. E nesse convite rodeado das lideranças do povo e os fariseus, estritos cumpridores da lei, não perde a oportunidade para naquela circunstância relativizar a lei do sábado, afirmando que a vida das pessoas e o mandamento do amor estão acima e além do respeito à lei.

Jesus também se apresenta nos evangelhos como um bom observador, daqueles que fala pouco, mas quando diz alguma coisa provoca surpresa e até constrangimento em quem ouve. Assim, observando o comportamento dos convidados ele se da conta da disputa pelos primeiros lugares na mesa. Naquela época, tal como hoje, havia regras protocolares, a que acostumamos chamar “regras de etiqueta”, ou também “boas maneiras”, para banquetes e comidas formais. E geralmente hoje como ontem, o anfitrião determina os lugares dos convidados. Na cultura judaica, quanto mais próximo do anfitrião, mais bem-vista e importante era considerada a pessoa.

Nessa situação, o que diz Jesus nos vv.8-11 com relação aos primeiros lugares na mesa, não deve ser entendido como uma falsa humildade ou uma atitude deselegante de Jesus. Lembro que estamos ante uma parábola, e uma parábola é um recurso muito usado por Jesus para, através de uma pequena historia, oferecer um ensino. E o que Jesus quer ensinar é que no novo estilo de vida que ele está propondo, as pessoas têm que se libertar dos anseios de status, da necessidade de estar sempre à frente, se mostrando, ou em evidência.

Já na segunda parte da parábola, nos vv.12-14, Jesus é ainda mais desconcertante, pois ele se dirige ao anfitrião que o convidara: “Quando deres um jantar, ou uma ceia, não chames os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem vizinhos ricos, para que não suceda que também eles te tomem a convidar, e te seja isso recompensado” (v12). “Mas quando fizeres convite, chama os pobres, aleijados, mancos e cegos. E serás bem-aventurado; por que eles não têm com que te recompensar; mas recompensado te será na ressurreição dos justos” (v.v.13-14).

Então Jesus fala para convidar os cegos, coxos, doentes, estropiados (aleijados) e pobres. Que por serem dessa maneira, essas pessoas não eram consideradas bem-aventuradas e, por tanto, eram consideradas excluídas e afastadas do Reino. É o que hoje chamaríamos “teologia da prosperidade”, presente hoje em algumas igrejas.  Ou seja, se a pessoa tem posses, está numa boa, ah, ai essa pessoa é bem-aventurada. Mas se está doente, pobre, ah, isso é porque é um pecador. Porém, são justamente essas pessoas que interessam a Jesus, no meio de uma sociedade como a judaica, cheia de desigualdades, discriminações e exclusões.

No entanto, o que proclama o evangelho de hoje, reflete-se também na sociedade atual. Trata-se da arrogância e do orgulho do ser humano que se acha superior inclusive ao mesmo Deus. Por isso, em algumas ocasiões, se atua com desprezo para com os demais.

Em ocasiões as pessoas tendem a se unirem com os de sua própria condição social, esquecendo as outras pessoas menos favorecidas. Com frequência se esquecem dos pobres, os descapacitados, os doentes, e mais necessitados da sociedade. Também às vezes as pessoas pensam apenas em si mesmas.

Hoje em dia o ambiente social nos dá a sensação de viver em um mundo em decadência moral e espiritual. Só temos que ler os jornais ou escutar as notícias dos telejornais para dar-nos conta do panorama de sofrimento e violência que o egoísmo humano causou e causa a todo nível.

Alguns buscam a forma de destruir e abusar dos pequenos ou mais vulneráveis. Ainda hoje se trafica com crianças e mulheres. Crianças e moradores de rua ficam muitas vezes esquecidos. Maltratamos a terra e a criação dilapidando os recursos naturais. Desconsideramos ou consideramos inferiores nossas culturas aborígenes e seu imaginário religioso. Acostumamos discriminar, e desprezar por razão de sexo, raça, religião, orientação sexual. Isto é algo que clama ao céu. Como pode uma sociedade que se chama “civilizada” permitir tais crimes?

No entanto, mesmo que o quadro de dor atual seja triste, não pensemos que seja exclusivo de nosso tempo. Deu-se sempre na história da humanidade. É o eterno problema do mal que aparece constantemente em disputa contra o bem.

E, às vezes nos resulta pesado e incomodo que as Escrituras tenham que repetir com tanta frequência o mandamento do amor. E isso é o que anelamos todos, amar-nos em família, amar-nos como irmãos e irmãs. Mas, na verdade que significa isso?

Também podemos ver quanto se sofre nas famílias. E por quê? No fundo é porque não vivemos com autêntica fé. Se pensássemos que em todo ser humano se oculta o mesmo Deus, como nos levaríamos? No entanto, como não nos esforçamos em ver a Deus no próximo, o que fazemos é tratá-lo como um objeto a mais do qual possamos tirar fruto.

Assim, o que necessitamos é um processo constante de reconversão e transformação. Todos os dias devemos nos converter e nos transformar em melhores pessoas. Mesmo que isso que chamo “melhor”, seja algo muito pequeno. O importante é nos superarmos um pouquinho a cada dia, como o escalador que pouco a pouco vai conquistando a montanha que, no início, poderia parecer fora de todo alcance. Um passo a cada dia. Um esforço a cada dia.

Tratemos de encontrar a Deus em cada criatura, na criação toda, ainda naqueles que pareçam mais desprezíveis. Lembremos que Deus se manifesta na sua criação, e que o próprio Jesus nos disse que estaria sempre presente naqueles pequenos que sofrem fome, sede, doença, que não tem o que vestir, e também que tudo o que façamos no favor dessas pessoas o estamos fazemos ao mesmo Cristo.

comunidade e partilha 2Esses convidados, recolhidos, ao longo dos caminhos, e pelas praças, bons e maus, limpos e sujos, dos quais fala a parábola, representam hoje os homens e mulheres do mundo inteiro. Isso nos leva a abrir o coração e as portas das nossas comunidades a qualquer tipo de pessoas, aos pobres, aos marginalizados, a quem é rejeitado por todos.

Assim, reconhecer Jesus como o nosso Senhor e Salvador é significativo somente quando tratamos de viver como ele viveu e de organizar nossa vida segundo os valores dele. Não precisamos teorizar sobre Jesus, precisamos “reproduzi-lo” em nosso tempo, em nosso lugar, e em nosso dia-a-dia. Porque apenas a prática verdadeira da fé e do amor eficaz pode verificar no que acreditamos.

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