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Homilias

Venha o teu Reino


 Pai-nosso - 7

10o Domingo depois de Pentecostes – Ciclo C

Textos:
1ra leitura: Génesis: 18,20-32
Salmo 138
2da leitura: Colossenses 2,12-15
Evangelho: Mateus 6,5-14

Jesus ensinando aos discípulosO evangelho proposto para este domingo mostra Jesus ensinando aos seus discípulos não apenas como orar, mas também a chamar Deus de Pai; particularmente de “nosso Pai”, fato que escandalizou a muitos religiosos da sua época porque para eles parecia uma blasfêmia e uma ousadia porque significava que Deus é nosso parente mais próximo e que nós somos seus filhos e filhas.

Tertuliano, uns dos primeiros Padres da Igreja, que viveu no século III d.C., expressou que a chamada “oração modelo” ou a “oração do Senhor”, mais conhecida como o Pai-nosso,  constitui um compendio de todo o evangelho, porque é um resumo dos grandes temas que tem a ver com a existência pessoal e social dos seres humanos, em todas as épocas e em todos os lugares.

Na tradição evangélica temos duas versões do Pai-nosso, uma versão mais breve em Lucas (Lc 11,1-4) e uma mais longa no texto do evangelho do Mateus lido hoje. No entanto, tanto na versão de Lucas quanto na de Mateus não encontramos nenhuma referência nem a Jesus Cristo nem à Igreja. Os dois pilares sobe os que se sustenta teologicamente “a oração do Senhor” são Deus e o ser humano. Porém, não apenas qualquer ser humano, mas aquele e aquela que estão necessitados.

Chama a atenção que depois da invocação inicial, “Pai nosso que estás no céu” (Mt 6,9; Lc 11,1), o que continua são simplesmente petições muito concretas e específicas: a vinda do reino, que no contexto literário e histórico em que se inserta o próprio Pai-nosso, tem a ver com a afirmação da justiça (cf. Mt 5-7; 6,10.33; Lc 11,1); também se pede pelo sustento diário para todos e todas, o perdão das dívidas (Mt 6,11-12), assim como também por uma vida liberada da ameaça e a maldade (Mt 6,13). Uma primeira aproximação ao Pai-nosso mostra, sem dúvida, que a comunidade que orava estava desesperada pelo peso das dívidas e pela maldade generalizada.

Na versão de Mateus a estrutura do Pai-nosso se compõe de uma invocação e sete petições finalizando com uma doxologia. A invocação expressa pluralidade, coletividade, comunidade: não é Pai-meu, mas Pai-nosso, de todos e todas.  E o termo Pai, em aramaico, ‘abba’, que era a língua que Jesus falava, é um término muito familiar que implica uma relação íntima com a divindade.

Nas três primeiras petições estamos no campo da verticalidade; tem a ver com Deus: a santificação do nome de Deus, seu reinado e a realização de sua vontade. E vale a pena fazer a ressalva que se pede “venha o teu reino”, e não vamos a teu reino. E sem dúvida isso enfatiza o sentido histórico e a cotidianidade do reino.

Já a partir da quarta petição entramos no campo da horizontalidade. A quarta, quinta e sexta petição têm a ver com os seres humanos, com os interesses da comunidade. Pede-se pelo pão, como símbolo do alimento ao qual todas as pessoas têm direito; pede-se também pelo perdão das dívidas que oprimem não apenas economicamente, senão que desestruturam a vida da comunidade; e finalmente se expressa a solidariedade que deve presidir as relações entre  todas as pessoas.

Na sétima petição nos encontramos com as ameaças, a tentação e o mal que podem causar uma situação de dívida económica, tanto para uma família quanto para a comunidade. E pede-se que Deus nos liberte de todas essas ameaças e desse mal.

E muitas leituras ou interpretações poderiam ser realizadas dessa oração, a mais ecumênica de todas as orações; compendio de todo o evangelho como muito bem afirmou Tertuliano, e que tem sido dita através de todas as épocas e em todos os lugares com uma atualidade sempre surpreendente. Porém, fazendo uma leitura a partir das necessidades da comunidade gostaria chamar a atenção para a quarta e a quinta petição (Mt 6,11-12).

Na quarta petição se pede o pão necessário porque muitos não o têm. Destaca-se a mesa aberta para todasPai-nosso as pessoas: “Dá-nos hoje o alimento que precisamos”. E a mesa é o lugar onde as pessoas se unem ou se separam. A mesa pode ser símbolo da união, da paz, da solidariedade e do amor, porém, pode ser o símbolo da discriminação, da intolerância e da separação. E as comidas de Jesus com todo tipo de pessoas são sinais da mensagem de Jesus e expressão da missão encomendada aos seus.

Também a petição é comunitária. Como falamos ao princípio desta reflexão, não é meu pão, é “o pão nosso”, o alimento necessário para todas as pessoas. E certamente não posso pensar em satisfazer minhas próprias necessidades pessoais sem pensar nas necessidades de todas as pessoas. E se bem é certo, como falou Jesus em outros contextos, que o ser humano não vive apenas de pão (cf. Mt 4,4), é também certo que nunca podemos prescindir dele. De maneira que a relação verdadeira com Deus está em relação direta e depende necessariamente das relações que tenhamos com as outras pessoas, não apenas no nível afetivo e pessoal, mas também através das relações econômicas, políticas e sociais. Por isso, quando pedimos pelo pão, temos que pedir pelo pão nosso, que significa o pão para todas as pessoas. Porque somente o pão nosso é verdadeiramente o pão de Deus.

Pai-nosso - 9E não é fácil pedir pelo alimento para todos e todas em um mundo de tantas desigualdades, onde milhões de pessoas não têm o que comer. Por isso, para que nossa oração não seja vazia, para que o pão seja verdadeiramente nosso, para que o pão seja pão de Deus, dizer e rezar hoje o Pai-nosso significa assumir um compromisso que demanda de nós uma palavra e uma atuação, que contribua à transformação e à libertação de nosso mundo de aqueles mecanismos econômicos, políticos e sociais opressivos que fazem que poucos tenham muitas riquezas à custa do pão arrebatado da boca de muitos.

Na quinta petição vemos que agora se pede o perdão das dívidas: “perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores”. E ainda que algumas traduções, particularmente litúrgicas, trocam o termo “dívidas” por “ofensas”, deixando assim a quinta petição no nível da moral eclesiástica, porém o termo grego utilizado refere-se não apenas a ofensas, mas a dívidas econômicas muito reais, E pedir pelo perdão das dívidas no contexto de opressão do império romano situa o horizonte de leitura dessa petição no nível da resistência econômica, política e social.

Desta maneira vemos que há uma intima relação entre o perdão das dívidas e o perdão que recebemos de Deus. Relação que nos compromete com a prática de criar relações sociais nas quais a justiça possa ser uma realidade para que todas as pessoas possam viver com dignidade. Então, ficar calados ou assumir uma falsa neutralidade perante as desigualdades de hoje seria um pecado contra a vida, contra os seres humanos e, portanto, contra Deus.

Deste modo, não tem apoio na tradição evangélica qualquer ideia que pretenda fazer da oração um ato puramente individual desligado dos problemas que afetam a vida da comunidade e dos seres humanos em geral. No entanto, isto não nega o valor da oração pessoal sempre que a mesma se inserte no contexto da comunidade; porque é precisamente na oração comunitária onde se atualiza, não apenas a relação da comunidade com Deus, mas que, além disso, se mostra a relação de solidariedade entre todas as pessoas. Na oração comunitária fazemos explícitas nossas preocupações pelos nossos semelhantes e pelo mundo em geral. Por isso, como muito bem tem sido dito, no Pai-nosso encontramos a correta relação entre Deus e os seres humanos, entre o político, o social, o econômico e o religioso, presentando a verticalidade e a horizontalidade como um único processo[1].

OrandoIrmãos e irmãs, reler e rezar em nosso presente esta oração é reconhecer que o Pai-nosso não nos eleva ao céu para que esqueçamos o que acontece na terra, mas que nos lembra aos seres humanos com seus problemas cotidianos que precisam ser resolvidos.  O que pedimos quando dizemos e rezamos o Pai-nosso é que Deus nos ilumine, anime e impulsione para sermos colaboradores de Deus na procura pelas soluções necessárias para os problemas de nosso mundo de hoje; para sermos liberados de todas as maldades tanto pessoais quanto sociais, para que venha sobre a nossa terra o reino da justiça e da paz e seja assim feita a vontade de Deus.


[1] Leonardo Boff. El Padrenuestro – La oración de la liberación integral. Ediciones Paulinas, Madrid, 1982, p.12-16.

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