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Homilias

“Quem vocês dizem que eu sou?”


“Quem vocês dizem que eu sou?”

Biblia - luz5to Domingo depois do Pentecostes  

Textos:
1ra leitura: Zacarias 12,9-10.13,1
Salmo 63,1-8
2da leitura: Gálatas 3,26-29
Evangelho: Lucas 9,18-24

Poderíamos dizer que o evangelho de hoje é um texto chave e central na obra do evangelista Lucas. Nele se apresentam duas questões básicas e fundamentais: quem é Jesus? E, qual é a sua missão? Porém, estas duas perguntas não se limitam apenas a Jesus, já que têm ecoado através dos séculos inquietando a todas as pessoas, particularmente quando cada um de nós se pergunta: quem sou eu? Ou também, qual é o propósito da minha vida? Sem dúvida, essas são perguntas que, mais cedo ou mais tarde, todos nos formulamos.

Na narrativa de Lucas o episódio acontece depois de Jesus ter feito muitos milagres e curas. Já nas narrativas paralelas de Mateus e Marcos o episódio acontece perto de Cesaréia de Filipe (cf. Mt 16,13; Mc 8,27). Porém, todas as narrativas apresentam-nos a Jesus retirado e sozinho orando. De repente seus discípulos se aproximam. E em um momento determinado Jesus faz uma pesquisa entre seus discípulos sobre sua pessoa e sua missão. Os discípulos lhe informam que as pessoas tinham diferentes opiniões sobre ele; uns diziam que Jesus era talvez João Batista, ou Elias ou alguns dos antigos profetas (cf. Lc 9,19). Certamente havia uma grande confusão quanto à pessoa e a missão do Messias, ou seja, do Ungido de Deus. Mas Jesus quer saber especialmente o que seus discípulos pensam sobre ele, e ai lhes pergunta diretamente: “E vocês? Quem vocês dizem que eu sou?” Sem dúvida, a pergunta de Jesus é uma espécie de balanço de toda a sua vida.

Pedro responde rapidamente e lhe reconhece como o Messias esperado: “Você é o Messias que Deus enviou”. Porém, nesse momento nem o mesmo Pedro nem os discípulos entendiam realmente o significado desse título aplicado a Jesus. Os discípulos pensavam dele como o Messias poderoso, glorioso, guerreiro e triunfalista. Somente depois da paixão de Jesus compreenderam que ser o Messias esperado de Israel, e ser o Servo Sofredor era a mesma coisa. Por isso nesse momento Jesus lhes adverte que pela resistência que vem enfrentando por parte das autoridades, vai ter que passar pela experiência de total rejeição e ser morto, mas que vai ressuscitar depois. Esse era seu caminho e seu destino; que não era o caminho triunfalista de um Messias poderoso, glorioso e guerreiro que todos esperavam, sonhavam e aguardavam.

Entretanto, depois da confissão de Pedro, Jesus lhes proíbe contarem a todos sua verdadeira identidade; talvez para evitar uma compreensão errada de sua missão; ou talvez porque se ele era o Messias, isso deveria ser descoberto, a través de suas ações e do novo projeto que ele anuncia e vive, mediante uma revisão da ideia tradicional que as autoridades civis e religiosas e o próprio povo tinham sobre o Messias. E, a seguir Jesus acrescenta a famosa frase: “Se alguém quer ser meu seguidor, que esqueça os seus próprios interesses, tome sua cruz cada dia, e siga-me. Pois quem põe seus próprios interesses em primeiro lugar, nunca terá a vida verdadeira; mas quem esquece seus próprios interesses por minha causa terá a vida verdadeira”. 

Já o profeta Zacarias tinha vislumbrado esse Messias vindouro diferente e sofredor, como ouvimos na primeira leitura: “Eles olharão para aquele a quem atravessaram com a lança e chorarão a sua morte… como quem chora a morte de um filho” (cf. Zc 12,10). Desapegado de tudo, este Messias e seus discípulos só podem vislumbrar uma condição para viver de verdade: agarrar-se apenas em Deus e mais nada. Por isso cantamos hoje com o Salmo 63: “Ó Deus, tu és o meu Deus. Todo meu ser deseja estar contigo, eu tenho sede de ti… A tua mão direita me segura bem firme, e eu me apego a ti” (Sl 63,1a.8).

Sem dúvida, Jesus sabia quem ele era; ele era Jesus de Nazaré, Filho de Deus, filho de Maria e José, enviado de Deus, o Servo Sofredor; e sabia também que sua missão era servir e sofrer pelos demais, para assim abrir um caminho de salvação e libertação para todas as pessoas.

E nós, discípulos e discípulas de Jesus, temos que nos fazer hoje a mesma pergunta: Quem sou eu? Que sentido tem minha vida? Que busco em ela? O que é o que fundamenta e guia minha conduta? Qual é o projeto da minha existência?

E a resposta começa por nossa identidade pessoal; sou fulano de tal e sou um cristão e uma cristã. Mas a resposta vai além disso. Porque ser um cristão ou uma cristã não significa crer algo ou crer em alguma coisa, senão crer em alguém e seguir seu caminho. O decisivo para nós é descobrir Jesus; não é apenas crer em Jesus, mas viver como Jesus viveu; é comprometer-nos seriamente com Ele, y levar a serio seu evangelho nas obras da vida e em nosso diário viver.

Sem dúvida esse discipulado proposto por Jesus não é fácil, porque significa renunciar aos valores que herdamos do mundo; significa renunciar a nossa própria vontade e preferências pessoais; significa a entrega voluntária de nós mesmos aos outros.

Quando o texto do evangelho de hoje foi escrito esse discipulado implicava talvez a própria morte; Pedro, Paulo, Estevão, e muitos outros seguidores de Jesus foram martirizados, porque eram tempos de perseguição. Porém, hoje é mais fácil e simples ser discípulo ou discípula de Jesus, porque os mecanismos geradores de morte são outros. Entretanto, a fraternidade, a solidariedade, a partilha não parece ser a preocupação de muitos cristãos e cristãs, que muitas vezes colocam suas prioridades e interesses no lugar das prioridades e interesses do seguimento do evangelho.

Irmãos e irmãs, o evangelho de hoje poderia ser resumido em quatro termos; uma confissão: sou um cristão ou uma cristã; uma revelação: ser um seguidor ou uma seguidora de Jesus significa tomar nossas “cruzes” de hoje e seguir Jesus; uma incriminação: ainda tenho muito a fazer; e, finalmente, uma determinação; vamos dar o primeiro passo hoje até suas últimas consequências.

Jesus rejeitou a proposta de ser rei, rejeitou toda forma de violência, entrou em conflito com as autoridades civis e religiosas e com a ideia tradicional de um Messias glorioso, poderoso, guerreiro e triunfalista. Assumiu, entretanto, a imagem do Messias como servo sofredor, que anunciou o profeta Zacarias. Em sua prática, valorizou as pessoas pobres e excluídas; colocou no centro de sua missão as crianças, as mulheres, os doentes, os publicanos e os pecadores. Dessa maneira sua proposta foi totalmente contrária aos interesses da maioria do povo da sua época.  E a pergunta a seus discípulos continua ecoando até hoje para nós: “Quem vocês dizem que eu sou?

Então, o maior desafio que temos hoje como seguidores e seguidoras de Jesus é nos perguntarmos: quem é realmente Jesus para nós? E responderemos acertadamente se temos a vontade e a disposição para renunciar a certos valores e privilégios e entender que o seguimento de Jesus significa viver a prática do amor, da fraternidade, da solidariedade e da partilha; porque como afirma o evangelho de hoje, quem esquece seus próprios interesses por causa e pela causa de Jesus terá a vida verdadeira.

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