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“… eu estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos”.


“… eu estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos”.

 Trinidad

1ro Domigo de Pentecostes

Domingo da Santíssima Trindade

Textos:
1ra leitura: Isaías 6,1-8
Salmo 29
2da leitura: Apocalipse 4,1-11
Evangelho: Mateus 28,16-20

O domingo passado, celebrando a festividade do Pentecostes, encerramos os cinquenta dias do tempo pascal. E hoje celebramos a festividade da Santíssima Trindade, que da o nome a nossa paróquia.

No mundo antigo, o número 3 era considerado o número perfeito por ter princípio, meio e fim; era considerado um símbolo da totalidade; e por essa razão era considerado o símbolo do divino.

Celtas na Europa (2)Na civilização celta, um conjunto de povos e tribos que povoaram a maior parte do oeste da Europa entre 2,000 a. C e 400 d. C., se lhe representava geometricamente mediante o triângulo, mas, particularmente, na chamada triquetra, que é um triângulo com espirais de três pontas entrelaçadas e um circulo ao redor ou no meio. CelticSymbol14[1]

E na civilização celta encontramos a triqueta inscrita em pedras, capacetes e armaduras de guerra, representando o infinito, a eternidade, a perfeição e a precisão nas três dimensões; sendo considerado como um amuleto ou símbolo de proteção, interpretado como a interconexão dos níveis físico, mental e espiritual. Já para os cristãos esse símbolo passou a simbolizar a Trindade.[1]

No entanto, a doutrina da Trinidad é exclusiva dos cristãos. Algumas outras religiões têm algo parecido a nossa Trinidad, mas nem o judaísmo nem o islamismo aceitam a Trinidad. Contudo, a vida do cristão vai marcada com o signo trinitário desde sua entrada na Igreja, como filho de Deus por meio do batismo administrado no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, até sua última bênção com a invocação trinitária ao morrer ao encontro definitivo com Deus. Por conseguinte, tudo se nos dá no nome da Santíssima Trinidad.

Por isso, iniciamos cada celebração em nome da Trindade que nos convoca e reúne como o corpo de Cristo. Depois da homilia, quando mediante os credos dizemos que cremos em Deus Pai, criador do céu e da terra, em Jesus Cristo seu Filho e no Espírito Santo, professamos nossa fé trinitária. No prefácio antes do Santus, nesta celebração da Santíssima Trindade, vamos reafirmar o nosso Deus como um Deus Triúno, digno de adoração e de honra pelos séculos dos séculos. Na Oração Eucarística, junto com Cristo, entoamos nossa ação de graças a Deus, nosso Pai, e pedimos ser santificados pelo Espírito Santo e pedimos também para sermos perfeitos no amor e assumirmos ser fieis discípulos e comunicadores da partilha, da comunhão e da salvação para todas as pessoas. Finalmente, ao final de celebração, retornamos à missão pedindo que Deus, Pai, Filho e Espirito Santo nos defendam e nos conduza pelos caminhos da verdade e da paz.

CelticSymbol1[1]Ao longo dos séculos os teólogos tentaram investigar e colocar em conceitos teológicos e filosóficos o mistério de Deus. Porém, esses conceitos terminaram por esconder e encobrir seu mistério. Por isso, esse assunto da Trinidad, ou seja, “três são um e um é três”, tal e como se anunciou, ressoa aos ouvidos da maioria das pessoas simples como um enigma ou uma charada difícil de decifrar e explicar. E ai a maioria dos pregadores resolvem o problema simplesmente dizendo que é um mistério, que não há quem o entenda, e que é uma doutrina que devemos aceitar apenas por fé.

Entretanto, realmente quando falamos de Deus como Uno e Trino, não estamos afirmando uma fórmula científica ou matemática compreensível apenas para os teólogos. Não se trata disso; porque se a afirmação de que “três são um e um é três” for apenas uma questão numérica, isso seria de fato, a pior distorção do mistério da Trindade[2]. A doutrina da Trindade vem a ser uma das formas simbólicas, metafóricas e poéticas que a Igreja utiliza para descrever como é Deus, ou em que pensamos ou imaginamos quando ouvimos dizer a palavra Deus. E se as palavras Pai, Filho e Espírito Santo são símbolos, precisam ser compreendidos sempre de novo para que sua extraordinária riqueza apareça[3].

Biblicamente falando Jesus não fala muito de Deus, nem nos explica a Deus. Oferece-nos apenas e simplesmente a sua experiência de Deus. O chama de “Pai”, e o experimenta como uma presença muito próxima; e sente-se “Filho” desse Deus, e chamado a impulsionar e levar à sua plenitude o seu projeto; e sua paixão por Deus se traduz em compaixão por todos os que sofrem (cf. Mt 9,36; 11,27; 14,14; 18,35; Mc 6,34; 14,36; Lc 22,42; 23,34; Jo 2,16; 5,43; 8,54; 20,21). Por isso atua sempre impulsionado pelo “Espírito” de Deus, o hálito de Deus, que o envia a anunciar aos injustiçados e oprimidos a Boa Notícia do projeto de Deus, que a Bíblia chama: o Reino de Deus (cf. Mt 12,28; Lc 4,16-21; 10,9; 11,20; 17,21).

O evangelho selecionado para este domingo é um dos vários textos que a liturgia utiliza para falar da ação e revelação tríplice de Deus (cf. Jo 3,1-16; 16,12-15). E tem também uma tríplice mensagem.

Em primeiro lugar, o evangelho anuncia desde Galileia as boas notícias a todos os povos. E Galileia, como sabido, era considerada em tempo de Jesus uma terra de pagãos e impuros. Por isso, para os judeus de Jerusalém e de Judeia, os galileus não eram judeus puros e legítimos, já que se tinham misturado com outras raças consideradas por eles como impuras.

O movimento de Jesus, no entanto, começou em Galileia. Os mais próximos seguidores e seguidoras de Jesus eram galileus. E mais uma vez, Jesus escolhe manifestar-se entre os pequenos, os desprezados, os sem importância aos olhos humanos. Assim, desde a periferia, desde as margens do judaísmo, inicia-se um projeto de vida para tantas mulheres e tantos homens; projeto que se expandirá até os lugares mais distantes da terra.

Em segundo lugar, e após a ressurreição, Jesus convoca aos seus discípulos em um monte de Galileia, lugar tradicional na Bíblia de uma revelação importante de parte de Deus (cf. Ex 24,12; 32,15; 1Rs 19,11; Mt 17,1; Mc 9,2; Lc 6,12). E desde ali lhes convida a realizar a missão de fazer discípulos e discípulas e batizar em o nome do Pai, do Filho e do Espírito; lembrando-lhes que ele tem poder para enviá-los; um poder para o serviço, a partilha e a comunhão. Assim, Deus segue contando com os fracos e com os marginados para realizar seu projeto.

E a missão de “fazer discípulos e discípulas”’, é uma fórmula concreta para envia-los a proclamar o evangelho. No entanto, a proclamação não pode ser reduzida só às palavras. É importante que as pessoas que escutam a mensagem façam dos ensinos evangélicos o sentido para suas vidas. Porque o Evangelho não se transmite só com as palavras; as palavras devem estar acompanhadas de gestos, de projetos que defendam a vida, de ações de amor, justiça, solidariedade, partilha e comunhão. E é que as palavras e os gestos sem o compromisso não têm sentido.

E por fim, o evangelho termina com Jesus assumindo um grande compromisso: “Eu estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos”. E o evangelista Mateus, que tinha iniciado o seu evangelho apresentando Jesus como Emanuel, ou seja, “Deus-conosco” (Mt 1,23), o conclui mostrando que Jesus continua vivo e presente na comunidade. Jesus não se afasta do mundo; está presente na história, ao mesmo tempo história de Deus e da humanidade, a serviço da justiça do Reino de Deus.

Mas, que significa e tem a ver tudo isso com a Trindade? Significa muito se nos afastamos do artifício numérico CelticSymbol11[1]contido nesse conceito filosófico e teológico e repensamos a Trindade como a explicação metafórica, simbólica e poética, da intimidade do próprio Deus; porque só podemos pensar de Deus mediante a linguagem metafórica e simbólica da poesia; se repensamos a Trindade como a afirmação de um Deus que é diverso e com muitos rostos; se repensamos a Trindade com a imagem de uma árvore com raiz, tronco, galhos e frutos; se repensamos a Trindade afirmando que Deus não é solidão infinita, mas a mais perfeita comunidade.

E se o número três é símbolo da multiplicidade, mas ao mesmo tempo símbolo da totalidade e da unidade, quando somos batizados em o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, estamos dizendo que somos insertados na perfeita comunidade de Deus; significa que Pai, Filho e Espírito Santo são expressões simbólicas, metafóricas e poéticas dentro da experiência cristã para falarmos dessa intuição profunda de que finalmente somos todos e todas com tudo o que existe, participantes do mesmo sopro de vida[4]; significa, finalmente, que entramos em uma nova relação com a vida, onde somos chamados a aprender a construir comunidade, a comunidade de Jesus Cristo, Reino de Deus sobre esta nossa terra.

Cruz Celta - Petr Kratochvil- httpwww.publicdomainpictures.netview-image.phpimage=3802&picture=cruz-celta-velhoCruz celta velhoa por Petr KratochvilDessa maneira, será a partir dessa relação com a perfeita comunidade que é Deus, onde há espaço para todos e todas na riqueza de nossa diversidade; e onde há espaço também para todos os marginados, cansados e oprimidos; que seremos bons colaboradores na construção de uma sociedade e um mundo mais justo e melhor, sendo missionários de unidade de comunhão e de fraternidade entre os seres humanos, para que todos tenham vida, e vida em abundância; com a certeza de que Jesus Cristo está com todos nós, todos os dias, até o fim dos tempos.

http://www.publicdomainpictures.net/view-image.php?image=3802&picture=cruz-celta-velho”>Cruz celta velho</a> por Petr Kratochvil

[1] Na época em que o Império Romano invadiu e conquistou a ilha da Grã-Bretanha, o povo celta era o povo que habitava esta região. Chegaram na região vindos de diversas regiões da Europa, entre os séculos II e III A.C. Era um povo formado por indivíduos fortes e altos. Dedicavam-se muito à arte da guerra, embora também tenham desenvolvido muito o aspecto artístico, principalmente o artesanato. Conheciam técnicas agrícolas desenvolvidas para a época como, por exemplo, o arado com rodas. Fabricavam joias, armaduras, espadas e outros tipos de armas, utilizando metais. Fabricavam carros de guerra desenvolvidos, que chegavam a provocar medo nos inimigos. Eram politeístas e faziam seus rituais religiosos ao ar livre. No calendário celta havia diversas festas místicas como, por exemplo, o Imbolc (em homenagem a deusa Brigida). Esta festa marcava o início da época do plantio das sementes. As cerimônias e os rituais eram responsabilidade dos druidas, os sacerdotes dos celtas. Veja John Haywood, Os Celtas, Edições 70, Brasil.

[2] Carlos Eduardo Calvani, “Domingo da Santíssima Trindade”, em: Pão de Vida – Comentários ao lecionário anglicano, Ano A, Centro de Estudos Anglicanos, Porto Alegre, 2007, p.230-232.

[3] Ivone Gebara, Trindade, palavra sobre coisas velhas e novas. Uma perspectiva ecofeminista, Paulinas, São Paulo, 1994, p.19.

[4] Ivone Gebara, op. cit., p.36.

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