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Homilias

“Os povos se encaminham para a tua luz, e os reis, para o resplendor que te nasceu”.


“Os povos se encaminham para a tua luz, e os reis, para o resplendor que te nasceu”. (Is 60,3)

75269_3112998079019_1686421979_2441355_1736803646_n[1]Epifania do Senhor – Ciclo C

Textos
1ra leitura: Isaías 60,1-6.9
Salmo 72,1-2.10-17
2da leitura: Efésios 3,1-12
Evangelho: Mateus 2,1-12

Hoje celebramos a festa da Epifania do Senhor. A palavra «Epifania» vem da palavra grega epifáneia. Como substantivo significa “vinda” ou “manifestação” e como verbo, dependendo de sua forma verbal, pode significar “aparecer”, “iluminar” ou “manifestar-se”.

O termo fazia referência à entrada de um rei a uma cidade, na qual tinha chegado a ser famoso por méritos próprios. Servia também para indicar o aparecimento de algum deus ou uma intervenção maravilhosa deste. Por isto, o termo foi aplicado pela comunidade cristã a Jesus, já que para eles Jesus era o Messias esperado ou uma manifestação maravilhosa e especial de Deus na história humana.

Esta festa nasceu nas igrejas orientais na segunda metade do século IV, ao mesmo tempo em que o Natal em ocidente; e tinha como objeto celebrar o nascimento e o batismo de Jesus. Posteriormente as duas festas celebraram-se em todas as partes, e a Epifania ficou nas igrejas orientais como memória do batismo de Jesus; enquanto em Ocidente se propuseram celebrar, sobretudo, a vinda dos Magos, apresentados como os primeiros não judeus aos que se manifestou Jesus.

O texto do evangelho afunda suas raízes em um ambiente marcado por uma grande efervescência revolucionária na região de Palestina. O período caracterizou-se pelos levantamentos contra a opressão romana e seus títeres locais, representada pela família de Herodes, eufemisticamente chamado de “o Grande”. Isto justifica a agressividade de Herodes em frente a todo possível pretendente ao trono. E nem sequer os membros da sua própria família escaparam da agressividade e do terror, muitos de cujos membros assassinou quando imaginou ameaçado seu poder; sendo vítimas de sua desconfiança: sua sogra, sua mulher e dois de seus filhos.

Por isso, as notícias de que uns magos do Oriente chegaram a Jerusalém perguntando pelo rei dos imagesCACTB0BCjudeus recém-nascido, causou um grande alarme em Herodes; assim como também nos representantes da religião ligada ao Templo e ao poder. Herodes viu nesse menino uma grande ameaça, pois conhecia das esperanças por justiça e libertação do povo; e fará todo o possível para elimina-lo. Daí a tradição que encontramos no evangelho de Mateus do assassinato de meninos em Belém (cf. Mt 2,16-18).

Desde esse marco é necessário entender e/ou interpretar o texto que tem claras conotações políticas pela repetida presença do termo «rei». Este título se atribui primeiramente a Herodes nos v. 1.3.9, mas em boca dos magos se aplica a um menino indefeso (v.2) a quem se atribuem características de senhorio; é chamado de “Messias” (v.4), e também de “chefe” e “pastor”, conforme à cita da profecia de Miqueias (v.6), e recebe a honra e as oferendas como legítimo governante.

Desta maneira, o relato dos magos, realmente sábios ou astrólogos, que vêm de Oriente tem uma forte carga simbólica; é necessário lê-lo como um relato que intenta transmitir uma mensagem para os leitores que o leem; mensagem que vai além de uma leitura simplesmente literal, ou da cena folclórica e bonita que encontramos nos cartões de Natal.

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Os magos na antiguidade eram pessoas conhecedoras das ciências astrológicas e astronômicas; eram muito respeitados pelo povo e pelos reis por causa de seu conhecimento científico; eles eram o que hoje poderíamos chamar «científicos». E narra o relato que  esses magos, dos quais nem sequer sabemos sua origem, apenas que vêm de longe, e que, portanto, não pertencem ao povo de Israel; que não conhecem o Deus de Israel, mas apenas que procuram verdade; em algum momento acreditam ver uma pequena luz que aponta para um Salvador. E eles precisam saber quem é e onde está; e rapidamente se põem a caminho; não conhecem a rota a seguir, mas guiados por uma estrela no seu interior arde a esperança de encontrar uma Luz para o mundo.

nascimento-de-jesus-02[1]E chegando a Jerusalém não entram no suntuoso Templo de Jerusalém; de fato por serem estrangeiros têm proibido o aceso ao Templo. E guiados pela estrela continuam viagem e chegam à pequena Belém, longe dos centros de poder; e chegando lá apenas encontram um menino e seus pais; um menino indefenso sem esplendor nem poder. Mas isso é suficiente para despertar neles a adoração de um Deus que se esconde na fragilidade humana.

E certamente nos defrontamos com um relato desconcertante; porque a esse Deus, escondido na fragilidade humana, não o encontram os que vivem instalados no poder ou encerrados na segurança religiosa; mas revela-se a quem, guiado por pequenas luzes, procura incansavelmente uma esperança para o ser humano na ternura e na pobreza da vida[1].

Assim, simbolicamente o evangelho de hoje afirma que o «trono» não vai estar em Jerusalém, mas em uma manjedoura na pequena Belém, terra de pastores, a menor das cidades de Judá (cf. Mq 5,2-5). E esse menino indefenso que nasce na pobreza de uma manjedoura, é o novo Davi, a quem as tradições bíblicas identificam como o líder do povo empobrecido; porém, desta vez é um Davi sem exército e cujo poder descansa apenas em representar e manifestar a Deus escondido na fragilidade humana.

De tal modo, enquanto os de perto, neste caso os judeus, não se dão conta de que tem nascido um nascimento-de-jesus-07[1]menino muito especial, vêm os de longe para visita-lo e adora-lo, oferecendo-lhe presentes, e perfumes. E os primeiros escritores cristãos verão simbolizados nesses presentes a realeza (ouro), a divindade (incenso) e a paixão (mirra) de Cristo.

E enquanto os de longe vêm a adorar ao recém-nascido, o rei Herodes trama sua morte. Deste modo a vida do menino indefeso nascido em Belém é signo de contradição e conflitos desde seu nascimento. No entanto o mesmo Deus protege ao menino indicando aos magos que não voltem de novo onde Herodes.imagesCA5AB1O5

E junto a este motivo central do relato manifestando a Deus escondido na fragilidade humana, há também uma rejeição explícita à consciência de superioridade racial presente nos grupos judeus da comunidade que esteve por trás da formação do evangelho de Mateus. Os judeus estavam convencidos de que eles eram o povo escolhido, herdeiro exclusivo da salvação de Deus. Isto lhes levava para um tipo de orgulho que excluía da salvação de Deus às pessoas de todas as demais nações.

Por isso Pablo na carta aos Efésios adverte: “que também os não judeus, por meio do evangelho participam com os não judeus das bênçãos divinas. Eles são membros do mesmo corpo e participam da promessa que Deus fez por meio de Cristo Jesus” (Ef 3,6).

Então, a partir desse relato dos magos/sábios/estrangeiros, que vêm adorar ao indefenso menino de Belém, a primeira comunidade cristã é chamada a compreender que, paradoxalmente, são às vezes os “afastados”, em lugar dos chamados “escolhidos”, os que podem descobrir melhor a presença sempre inovadora de Deus na história.

A simbologia da Epifania, ou seja, magos/sábios/estrangeiros do Oriente indo adorar Jesus, hoje como ontem, afirma que a salvação de Deus oferecida em Jesus é universal. Por isso os magos adoram Jesus sem ser cristãos; e o texto nunca diz que se tivessem convertido em cristãos.

A Epifania de Jesus, sua manifestação a toda a humanidade, significa, portanto, que afastando-nos de qualquer exclusivismo religioso, devemos reconhecer que há mais Povos de Deus que o Povo de Deus do cristianismo. Sem dúvida nenhuma, na casa do Pai e da Mãe comum de toda a humanidade «há muitas moradas» (cf. Jo 14,2).

Hoje, como comunidade cristã, podemos fechar-nos em nosso pequeno mundo e acreditar farisaicamente que somos apenas os salvados, e que todas as outras pessoas e todas as outras religiões estão fora da salvação de Deus. No entanto, o relato dos magos/sábios do Oriente adorando Jesus nos mostra e lembra que com essas atitudes podemos estar recusando ou ignorando a presença sempre nova de Deus na historia, e, dessa forma, estaremos reproduzindo a atitude de Herodes e da liderança israelita daquela época em frente ao recém-nascido. Como muito bem tem sido afirmado, “há mais verdade religiosa em todas as religiões juntas do que em uma religião específica […]. Isto se aplica também ao cristianismo”[2].

Também o símbolo da Epifania nos diz que o critério para reconhecer ao Deus vivente, assim como a sua presença e a sua atuação no mundo e na historia, não passa pelo fato de pertencer a uma estrutura chamada Igreja; senão pela prática da justiça, do serviço, do amor, da paz e da fraternidade inter-humana, para fazer de nosso mundo um mundo melhor para todas as pessoas.

O Salmo 72 que recitamos hoje descreve as qualidades do Messias-rei que os judeus estavam esperando. Entre suas qualidades estavam: governar ao povo com justiça; ajudar aos necessitados, abandonados e aflitos; derrotar aos que exploram ao povo; ajudar aos pobres que pedem socorro e não têm quem os defenda.

2508203171_1036738a30[1]Naturalmente esta descrição da missão do Messias-rei esperado será precisamente a que Jesus retomará, na sinagoga de Nazaré, ao começo de  seu ministério, quando retomando palavras do Terceiro Isaías (cf. Is 58,6; 61,1-2) expressou: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para trazer boas noticias aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4,18-19).

Hoje também temos o dever, o desafio e a missão de manifestar Jesus Cristo perante o mundo, escondido entre os pequenos e indefensos. Mas o faremos de forma adequada só na medida em que assumamos a missão comprometida que ele realizou e pela qual viveu e morreu. Se nossa fé está divorciada da vida; se não assumimos a defesa do humilde e do pobre, dos excluídos e dos marginalizados ou dos discriminados; senão não nos comprometemos com toda causa a favor da afirmação da vida, não estaremos fazendo o trabalho como nos o exige hoje Jesus. E então poderiam hoje também serem  aplicadas a nós as palavras de Deus, pronunciadas através do profeta Isaías na crise da sua época: “Esse povo se aproxima de mim e com sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim. A religião que eles praticam não passa de doutrinas e ensinamentos humanos que eles só sabem repetir” (Is 29,13). Por isso são muito relevantes as palavras madre-teresa-de-calcuta[1]de Madre Tereza de Calcutá quando afirmou: “As mãos que ajudam são mais abençoadas que lábios que rezam”.

Irmãos e irmãs se uma estrela brilhou forte lá no céu do imagesCA5JA6A4Oriente era porque tinha acontecido aqui na terra um fato muito importante. Jesus nasce todos os dias, para todos os povos, especialmente para aqueles que não fazem parte do povo eleito de Israel. E essa é a grande mensagem da festa da Epifania; a presença dos magos/sábios chegados de fora de Israel anuncia que o messianismo de Jesus é para todos os povos e para todas as culturas.

E sem dúvida, a festa da Epifania, ainda hoje, nos convida a reproduzir e reinterpretar para nosso presente o significado dessa importante visita. Jesus precisa ser anunciado para todos os povos e todas as culturas, assim como para todos os grupos e setores excluídos, marginados e discriminados de nossa sociedade. Dessa maneira, a festa da Epifania aponta, portanto, para dois princípios fundamentais da nossa identidade como anglicanos: a inculturação e a inclusividade[3]. Finalmente, e com isto termino esta reflexão, a festa da Epifania nos desafia a procurar os sinais de Deus e deixar-nos guiar pela estrela que conduz às “periferias”, lá onde as pessoas vivem na insegurança da saúde pública, da escola, da moradia e do desemprego, para lá “abrir os grandes tesouros” da solidariedade, do amor e da fraternidade.


[2] Edward Schillebeeckx, The Church: The Human Story of God, New York, Crossroad, 1990, p.166. Citado por Paul F. Knitter, Jesus e os Outros Nome, Nhanduti Editora, São Bernardo do Campo/Brasil, 2010, p.50.

[3] Veja Elias Mayer Vergara, em: Pão da Vida – Comentários ao lecionário anglicano, Ano C, Centro de Estudos Anglicanos, Porto Alegre, 2006, p.68.

Discussão

18 comentários sobre ““Os povos se encaminham para a tua luz, e os reis, para o resplendor que te nasceu”.

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