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Homilias

“O teu Reino é eterno, e tu és Rei para sempre”. (Sl 145,13)


O teu Reino é eterno, e tu és Rei para sempre”.

(Sl 145,13)

Ultimo domingo após Pentecostes 

 Textos
1ra leitura: Daniel 7,9-14
Salmo 145,10-21
2da leitura: Apocalipse 1,5-8
Evangelho: Marcos 11,1-11 (texto alternativo João 18,33b-37)

Com a festividade de Jesus Cristo, Rei do Universo, encerramos o ano litúrgico. E no final desta caminhada os textos afunilam para um ponto bem definido e específico: o Reino de Deus.

Assim sendo, a leitura do Apocalipse, utilizando a metáfora e a simbologia da primeira e a última letra do alfabeto grego, proclama Jesus Cristo como o Alfa e o Ômega; ou seja, o começo e o fim da história humana (cf. Ap 22,12-13); história que Deus transforma em história da salvação e da libertação. O Deus, cujo Reino proclamado por Jesus Cristo, é anunciado no Salmo 145, como o Deus eterno; o Deus que cumpre o que promete; que ajuda aos que estão em dificuldades e levanta os que caem; que está perto de todos os que pedem sua ajuda; que protege os que o amam, e que destruirá todos os maus.

E no evangelho de hoje termina, no evangelho de Marcos, a longa travessia de Jesus e seus discípulos da Galiéia até Jerusalém (cf. Mc 9-11). Jesus entra na cidade junto com seus discípulos, rodeado de peregrinos, montado em um jumentinho, e sendo aclamado pelo povo como rei. Porém, quando todos esperavam um grande rei, um guerreiro, com um grande séquito e rodeado de grande pompa, Jesus aparece montado em um jumentinho. E na tradição bíblica e antiga quando um rei entrava em uma cidade como um guerreiro e como um conquistador montava um cavalo, mas quando chegava a uma cidade em paz montava um jumentinho.

Mas alguém poderia se perguntar: que Messias é este? E entrando montado em um jumento Jesus deixa claro, em primeiro lugar, que é um Messias humilde; inclusive foi preciso pedir o jumento emprestado para Jesus entrar em Jerusalém. Em segundo lugar, que é um Messias pacífico que entra rodeado de pessoas mal vestidas e não por um exército conquistador. E as pessoas o aclamam dizendo “Hosana!”, expressão que significa “Salva-nos!” Finalmente que não é um Messias político que chegava para pôr fim ao domínio romano sobre Palestina; ele é um Messias religioso cujo primeiro ponto de chegada é o templo. Portanto, seu reino não pode ser confundido com as instâncias políticas, e nem sequer com as instâncias religiosas da sua época, porque ao seguinte dia entra no templo derrubando as mesas dos cambistas e proclamando: “A minha casa será chamada de Casa de Oração para todos os povos. Mas vocês a transformaram num esconderijo de ladrões!” (Mc 11,15-19).

E podemos supor que não foram as mesmas pessoas que acompanharam Jesus na sua entrada na cidade de Jerusalém as que depois pediram sua morte. Devemos supor que as pessoas que acompanharam Jesus eram pessoas singelas e humildes, que tinham visto suas ações em favor dos empobrecidos e humildes; que tinham ouvido suas palavras salvadoras e liberadoras. Entretanto, os poderosos de Jerusalém – os sacerdotes, os saduceus, os escribas e os fariseus – estavam tramando sua morte e inclusive convenceram a muitos do povo para pedir que Pilatos crucificasse Jesus (Mc 11,18).

Entretanto, temos que lembrar que estamos em uma época da história do mundo onde o sistema monárquico não é o mais comum nem o mais moderno; e o uso das palavras «rei» e «reinado» podem parecer um anacronismo. Mas, em nosso contexto bíblico e cristão as utilizamos como uma metáfora ou um símbolo que poderíamos traduzir no presente como «a utopia», ou «a causa» ou «o projeto de Jesus».

Mas, é consenso entre os exegetas e biblistas que o dado histórico mais confirmado historicamente da vida de Jesus é sua pregação ao redor do Reino de Deus. Tudo o que Jesus disse e fez está inspirado, desde o inicio até o fim, pelo seu compromisso com a vinda do Reino de Deus. O horizonte dominante da sua missão e de seu ministério é o Reino de Deus. Sua vida, morte e ressurreição derivam seu significado do anúncio do Reino de Deus.

Desta maneira, na tradição evangélica se mostra que todo o que Jesus diz e faz está inspirado em seu compromisso com a vinda do «Reino de Deus» (cf. Mt 6,33; Lc 4,16ss; 7,18-23)[1]. Jesus nunca se pregou a si mesmo, nem pregou simplesmente «Deus». Sempre que falava de Deus falava do «Reino de Deus». O Reino foi a causa e a razão da sua vida e de sua morte, porém, nunca deu uma definição do Reino de Deus. E não o explicita ou define porque não é um conceito que ele tenha criado ou inventado, mas um conceito bem antigo nas tradições de Israel, particularmente das tradições proféticas e apocalípticas (cf. Ex 15,18; Sal 47,8; Is 24,23; 52,7; Dn 4,3; Ab 21; Mq 4,7). E sempre que falava do Reino o fazia mediante a simbologia e a metáfora das parábolas, onde o Reino não é um fato para além da historia, porém uma realidade deste mundo. Não é «outro mundo», mas «este mundo mesmo», mas totalmente renovado e transformado. É Deus em relação a esta Terra e a esta historia.

Então, a metáfora ou o símbolo do Reino de Deus não é apenas fundamental para compreender e interpretar a figura histórica de Jesus, senão também para uma interpretação correta de Deus, como um «Deus conosco».

Entretanto, é importante quando hoje refletimos sobre a realeza de Jesus Cristo e lhe proclamamos hoje como rei, não confundir sua realeza com a realeza deste mundo. A resposta de Jesus a Pilatos é categórica: “O meu Reino não é deste mundo!” (Jo 18,36). Mas muitas vezes, a frase em questão também é utilizada para justificar a postura de gente que afirma que “política e religião não se misturam”. No intuito de justificar seu comportamento religioso teoricamente apolítico, pessoas e grupos também “espiritualizam” a leitura do movimento de Jesus: enquanto “rei espiritual” dos judeus, o Mestre almejava anunciar uma mensagem de paz totalmente espiritual e religiosa. Infelizmente, não raras vezes, muitos dos que defendem essa postura, se líderes religiosos, vivem atrelamentos vergonhosos com políticos e empresários. E, se políticos ou empresários, quase sempre pedem as bênçãos de um líder religioso para suas ações e seus empreendimentos financeiros. Justificar o sistema com elementos e símbolos religiosos não seria, portanto, juntar religião e política. Questionar o sistema por meio da fé, isto seria.A proposta de Jesus é uma proposta religiosa, de vivência de uma espiritualidade radical, que não se contenta com a superficialidade, mas vai até raízes mais profundas. Por essa razão, uma proposta altamente política.[2]

Jesus é um rei diferente dos poderosos do mundo. O reino que Jesus Cristo abraçou e proclamou como a sua causa e o seu projeto, conquista novas fronteiras pela atitude de serviço, pelos gestos de solidariedade com os mais fracos; ele se manifesta no respeito de uns pelos outros, na partilha, no encontro, e no diálogo que instaura relações de comunhão.

Quando o evangelho diz: “…. ponham em primeiro lugar na sua vida o Reino de Deus…” (Mt 6,33), está-se afirmando que é mais importante «seguir Jesus», «viver e lutar pela causa de Jesus», que a simples aceitação das afirmações teóricas do chamado dogma cristológico. Por isso, como muito bem afirmou Jon Sobrino, «seguir» é a forma prática de aceitar a transcendência de Deus, e seguir Jesus é a forma prática de aceitar a transcendência de Jesus[3]. Ou seja, o importante não é «crer em Jesus», senão «crer como Jesus».

Jesus desencadeou um movimento alentado por uma mensagem de esperança baseada no Reino de Deus, como uma utopia que provoca uma luta comprometida contra todos os fatores «anti-reino» que se opõem ao Reino de Deus; um sentido para a vida, uma convocação à vida e para a vida; um sentido último para a vida humana em relação com esse absoluto que chamamos Deus. Para Jesus a salvação tem um nome: o «Reino», e essa salvação está ao alcance de qualquer ser humano pela prática do amor e a justiça. Portanto, onde se constrói o amor e a justiça, aí está o Reino de Deus e, portanto, o Deus do Reino. [4]

Mas, não podemos cair no equivoco de identificar «Reino» e «Igreja». E de maneira sintética poderíamos dizer que:

  • Temos que distinguir entre Reino e Igreja. Os termos não podem ser equiparados nem identificados. Identificamos presença do Reino «na» Igreja, mas não podemos identificar o Reino «com» a Igreja.
  • O Reino é maior que a Igreja, mais extenso e intenso. O Reino é o Absoluto, «o último», é a Causa de Jesus, a mesmíssima intenção de Jesus.
  • A Igreja está e deve estar inteiramente ao serviço do Reino; assumi-lo como responsabilidade; construí-lo na historia, anuncia-lo e  reconhece-lo onde ele já está. Essa é a missão da Igreja, missão que parte do seguimento de Jesus; e nesse serviço deve gastar-se e desgastar-se.
  • A Igreja é um instrumento temporal e uma mediação do Reino, na historia da salvação e não representa uma realização escatológica definitiva.[5]

Celebremos Jesus como Rei e peçamos que chegue a sua plenitude o Reino de verdade e de vida, Reino de graça, Reino do amor e da paz. O Reino de Deus exige nossa participação ativa em sua edificação, e ainda que sua implantação definitiva se dará por obra de Deus, nós somos chamados a participar desse processo, como testemunhas de Jesus Cristo. Y com essa certeza e alegria de estar construindo junto com Deus o Reino de Deus, vamos orar com a oração que Jesus nos ensinou: “Venha teu Reino Senhor”.


[1] O termo «Reino de Deus» aparece 112 vezes nos evangelhos e delas 90 vezes nos lábios de Jesus.

[2] Veja Edmilson Schinelo e Ildo Bohn Gras, “Meu Reino não é deste mundo? (Jo 18,33-37)” em: Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), quinta feira 22 de novembro de 2012.

[3] Veja Jon Sobrino, Espiritualidade da Libertação, São Paulo, Paulinas, 1992.

[4] Confira agora José María Vigil ,  Teología del Pluralismo Religioso, Colección Tiempo Axial, (Edição digital de ATRIO) pp.167,  http://cursotpr.adg-n.es/archivos/Vigil/TPRVigilCap07.pdfe. Em português  Teologia do pluralismo religioso -.para uma releitura pluralista do cristianismo, Paulos. São Paulo, 2006, (Coleção tempo axial). cit., p.117.

[5] Veja José María Vigil, op. cit., p.143-145.

Discussão

27 comentários sobre ““O teu Reino é eterno, e tu és Rei para sempre”. (Sl 145,13)

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