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Homilias

A oferta da viúva


A oferta da viúva

24to domingo após Pentecostes – Ciclo B 

Textos
1ra leitura: 1 Reis 17,1-16
Salmo 146,4-9
2da leitura: Hebreus 9,24-28
Evangelho: Marcos 12,38-44

Na liturgia de hoje, e continuando a leitura do evangelho de Marcos, termina a longa travessia de Jesus e seus discípulos de Galiéia até Jerusalém. Jesus entra na cidade aclamado pelo povo como um rei; porém, Jesus é um rei diferente daquele aclamado pelo povo. Ele não é o rei poderoso, guerreiro e vitorioso que o povo pensa.  Ele não se desvia do seu caminho; é o Messias-Servo (cf. Hb 9,24-28).

E rumo à cruz, aos poucos, vai rompendo com as pessoas e as estruturas que não condizem com o seu jeito de Messias: rompe com o templo, rompe com os sumos sacerdotes, escribas e anciãos, rompe com os fariseus, herodianos, saduceus e escribas. Em fim, com as autoridades civis e religiosas de sua época.

Na liturgia de hoje duas pobres viúvas, a de Sarepta e a do templo de Jerusalém, nos ensinam com o exemplo de despojamento e confiança total.

As viúvas eram o grupo social mais explorado na sociedade judaica. Nessa sociedade e época a mulher não tinha independência; era membro de uma família e dependente total do pai ou do marido. A situação da viúva, portanto era difícil. Vestia roupa que indicavam a sua condição. Não recebia herança do marido. Se ficasse sem filhos voltava à casa do pai. A mulher que não tinha nenhum homem para defender seus direitos era evidentemente vítima das extorsões dos credores e de todo tipo de opressão. As viúvas não tinham sequer um defensor legal e, portanto ficavam à mercê dos juízes desonestos.[1] E neste contexto podemos entender quanto o ensinamento de Jesus mexeu na posição de alguns privilegiados da época.

A primeira viúva aparece na primeira leitura tomada do Primeiro Livro dos Reis. Nessa leitura aparece a figura do profeta Elias. A primeira parte da leitura anuncia ao rei Acabe uma grande seca e fome (vv. 1-7).

O rei Acabe, casando-se com Jesabel, uma princesa fenícia, deixou que ela introduzisse o culto ao deus cananeu Baal. O profeta Elias resistiu os planos da rainha e teve que fugir. O profeta escapando da perseguição e da fome refugia-se em Sarepta, pequeno povoado da Fenícia, região de origem de Jesabel. E aí, nesta região pagã Deus vem em socorro de Elias, por intermédio de uma viúva pobre e pagã que ia comer o que restava da comida que tinha para ela e o seu filho.

Segundo o texto, a viúva confiou no Deus do profeta. Partilhou o pouco que tinha com o profeta, e seu gesto não ficou sem resposta, porque a promessa do profeta foi cumprida: “… não faltou farinha na tigela nem azeite no jarro”.

Desta maneira, o Salmo de hoje, que é uma exortação ao louvor e a confiança, fala de Deus como aquele que age sempre em favor dos mais fracos e indefensos: faz justiça aos oprimidos, dá alimento aos famintos, liberta aos cativos, abre os olhos aos cegos, ergue os caídos, ama o que é justo, protege os estrangeiros, ampara os órfãos e as viúvas e confunde e faz fracassar os caminhos dos maus.

A outra viúva aparece no texto do evangelho; é a viúva do templo de Jerusalém. E o evangelho poderia ser dividido em dois momentos, mas ambos os momentos estão ligados. Na primeira parte (vv. 38-40) se faz um alerta à multidão diante da hipocrisia dos doutores da Lei; “que preferem os lugares de honra nas sinagogas e os melhores lugares nos banquetes. Exploram as viúvas e roubam seus bens; e, para disfarçarem fazem orações compridas”.

Na segunda parte (vv. 41-44) o texto contrapõe, de um lado, os doutores da Lei e os escribas cuja prática não deve servir de modelo para ninguém; e, do outro lado, o exemplo da pobre viúva que deu tudo o que tinha. Provavelmente, era o costume que o valor depositado fosse falado em voz alta. E a pobre mulher depositou apenas duas moedas que não valiam quase nada, enquanto, os ricos com toda ostentação, depositavam grandes quantias.

Diante do gesto da pobre viúva, Jesus chamou os discípulos para conversar e ensinar-lhes onde eles devem procurar a vontade de Deus: nos pobres e na partilha. E fazendo um paralelo entre os doutores da Lei e a viúva, Jesus denuncia e reprova a exploração dos escribas e exalta a atitude da pobre mulher como sinal de abandono e fé verdadeira; contrapõe, ao modo hipócrita do agir dos escribas e ricos senhores do templo, a generosidade sincera de uma pobre viúva que doa tudo o que possui demonstrando que sua confiança e segurança estão nas mãos de Deus.

Portanto, o texto do Livro de Reis e o texto do evangelho de hoje estão interligados. Por um lado, porque as viúvas, como falamos, eram uns dos grupos sociais mais explorados e excluídos da época; e, por outro lado, porque tanto a viúva de Sarepta quanto a viúva anônima do templo de Jerusalém, deram tudo o que tinha depositando sua confiança nas mãos de Deus.

Então, os textos da liturgia de hoje trazem para nós três grandes ensinos. Em primeiro lugar, alertam para a verdadeira prática religiosa. Esta não consiste em uma corrida em busca de honrarias, prestigio, aplausos e poder, como muitas vezes acontece, inclusive no interior da própria Igreja. A verdadeira e autentica prática religiosa parte da generosidade e da dedicação aos mais necessitados.  O seguimento de Jesus se caracteriza pela partilha e a solidariedade; porque a partilha generosa e solidária multiplicam as soluções de problemas que parecem que não têm solução. Em segundo lugar, e como consequência do anterior, somos chamados a lutar contra a miséria e contra tudo o que fere a dignidade humana. E, finalmente, somos chamados a prestar atenção ao valor dos pequenos gestos; como o gesto das duas viúvas dos textos de hoje, que ofereceram tudo o que tinham para viver. Desta maneira, diante da corrupção, da exploração e das injustiças, o seguidor de Jesus deve aprender com os mais simples, e com aqueles e aquelas que entregam até a própria vida como culto verdadeiro e agradável a Deus.

Reunidos hoje em nome do Senhor vamos nos oferecer, como fala uma de nossas Orações Eucarísticas, como um sacrifício perfeito, com simplicidade e generosidade, a exemplo das duas viúvas: a de Sarepta e  a de Jerusalém.

Que o Senhor faça de nós uma oferta perfeita e afaste de nós todo obstáculo para que, transformados pelo Espírito, juntos possamos abraçar o bem e a justiça, sendo assim sinais eficazes do Senhor em nossa história que tanto precisa ser transformada.

1- Dicionário Bíblico, Edições Paulinas, São Paulo, 1984, p.968.

Discussão

21 comentários sobre “A oferta da viúva

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    Publicado por pedrotriana | 9 de novembro de 2012, 11:46 pm

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  1. Pingback: » Blog Archive » A oferta da viúva - Rev. Dr. Pedro Triana - 8 de novembro de 2012

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