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Homilias

A cura do cego de Jericó – um modelo de fé


A cura do cego de Jericó 

Um modelo de fé

 22do Domingo após Pentecostes – Ciclo B

Textos
1ra leitura: Jeremias 31,7-9
Salmo 126
2da leitura: Hebreus 5,1-6
Evangelho: Marcos 10,46-52

Na liturgia dos domingos anteriores o evangelho de Marcos apresenta Jesus e seus discípulos saindo da Galiéia em uma longa travessia a caminho de Jerusalém. Desta maneira, simbolicamente, Jesus refaz o caminho dos israelitas na tomada da terra prometida, passando pelo Jordão e por Jericó para ir a Jerusalém[1].

Nessa caminhada, ainda na Galiléia, Jesus aproveita para o ensino de seus discípulos; falou-lhes sobre o que lhe aconteceria em Jerusalém; e sob a pergunta “Quem é o primeiro?”, apresenta-lhes o grande ensino: “Se alguém quer ser o primeiro, deve ficar em último lugar e servir a todos” (cf. Mc 9,30-37); também, e já saindo da Galiéia, encontra o homem rico, onde reflete sobre a posse de bens materiais, a vida eterna e particularmente sobre o Reino de Deus. E refletindo sobre o sentido e significado do Reino de Deus, nos ensina que viver coerentemente com a proposta do Reino de Deus significa superar a mentalidade que legitima a riqueza e justifica a pobreza; significa escolher e procurar, acima de tudo e em primeiro lugar, “o Reino de Deus e sua justiça” (Mt 6,33), por todo aquele que quiser ganhar a vida eterna; vida eterna que, aliás, não é algo para além desta vida, mas um dom que já possuímos precisamente quando colocamos “o Reino de Deus e sua justiça” em primeiro lugar (cf. Mc 10,17-31).

Já a liturgia do domingo passado apresentou a conversa com os dos filhos de Zebedeu, Tiago e João, onde Jesus alertou os discípulos sobre a tentação da ambição dentro da comunidade, e as dificuldades próprias da missão que ele veio cumprir. Tiago e João pedem a Jesus um favor pretencioso: queriam sentar-se à direita e à esquerda de Jesus no Reino glorioso; sonhavam com honra, poder e destaque; queriam estar acima dos demais apóstolos. E na conversa com os filhos de Zebedeu, quando se afirma, “quem quiser importante, que sirva os outros, e quem quiser ser o primeiro que seja escravo de todos”, deixa-se claro, de novo, que não são o poder e o destaque que tornam alguém grande aos olhos de Deus, mas quando cada um é capaz de compadecer-se do outro e colocar-se ao serviço dele.  (cf. Mc 10,35-45).

Na liturgia de hoje, e continuando a leitura do evangelho de Marcos, e após uma longa travessia, Jesus e seus discípulos chegam a Jericó, última parada antes da subida para Jerusalém. E aqui assistimos ao último milagre de Jesus no evangelho de Marcos: o milagre de um cego que recobra a vista e se torna discípulo de Jesus; é a história de um homem chamado Bartimeu, que era mendigo e cego.

Jesus estava com seus discípulos em Jericó; e quando já saíam da cidade, seguidos de muita gente, de repente aparece um excluído, um mendigo cego sentado na beira do caminho; e quando ficou sabendo pela multidão que era Jesus de Nazaré quem passava por ali, começou a gritar: “Jesus, Filho de Davi, tenha pena de mim!” A gente que escutava os gritos do mendigo cego o reprendiam e mandavam que se calasse. Mas ele, sem se importar com a repreensão da multidão que acompanhava Jesus, e cheio de fé e de esperança, gritava ainda com mais força. “Filho de Davi, tenha pena de mim!” Jesus parou-se e pediu que lhe trouxessem ao cego. O evangelho agrega, então, que ante o pedido de Jesus os que estavam tentando afastar o pobre cego são obrigados a ajuda-lo chegar até Jesus. Aí o cego largou tudo o que tinha, apenas um manto, mas que era a única vestimenta que tinha para se proteger do frio, sua única segurança, e se acercou a Jesus, que lhe perguntou: “O que é o que você quer que eu faça?” E o cego contestou-lhe: “Mestre eu quero ver de novo!”

Bartimeu tinha invocado Jesus com ideias não inteiramente aceitas por ele; porque o título “Filho de Davi” transmitia a visão da época de um Messias poderoso, guerreiro e vitorioso, que o próprio Jesus criticava e rejeitava (cf. Mc 12,35-37); porém, Bartimeu teve mais fé em Jesus que a própria ideia que tinha sobre Jesus. Assim Jesus, sem impor condições e movido à compaixão disse-lhe: “Vá, você está curado porque teve fé!” E nesse momento, Bartimeu pôde ver, tornou-se discípulo de Jesus e o seguiu pelo caminho.

Poderíamos imaginar-nos o que significará para alguém recobrar a vista após tanto tempo na escuridão? Deve ser uma total libertação. Será como sair de uma caverna e de repente ver um mundo cheio de luzes e cores. As pernas se encontrarão rejuvenescidas e fortalecidas. Agora essa pessoa poderá caminhar, correr e pular. Que alegria! É muito provável que após o milagre, Bartimeu se encontrasse livre de depender de outros. Agora pode ir só, caminhar livre, trabalhar, e ajudar a outros.

A maneira como o evangelho de hoje apresenta a cura do cego Bartimeu afirma a ideia de um modelo de fé a ser seguido. Em primeiro lugar, porque a partir da fé Bartimeu enfrentou a repreensão daqueles que acompanhavam Jesus. A multidão pedia que ficasse calado, porém ele gritava mais ainda, colocando todas suas esperanças e expectativas em Jesus e no testemunho que tinha escutado dele. Em segundo lugar, por um detalhe muito importante dentro do texto no qual às vezes não reparamos; o fato de jogar o manto, símbolo da sua mendicidade e sua única proteção, mostra que ele não estava acomodado na segurança representada pelo manto, pois o que Jesus oferecia era muito mais importante para ele. Finalmente, porque sua cura não foi apenas um momento oportunista na sua vida, já que como fala o texto, quando recebe a palavra de Jesus que o cura não apenas de sua doença física, mas que o restaura no convívio social e comunitário, não vai embora, porém escolhe o seguimento de Jesus e seu projeto, e sobe junto com ele na sua caminhada a Jerusalém, caminho do Calvário.

Sem dúvida, o episódio da cura do cego Bartimeu nos mostra que a fé cristã é essencialmente comunitária e não combina com acomodação ou individualismo. E o lugar dos cristãos é o caminho do seguimento de Jesus e seu projeto, porque a compreensão plena do seguimento de Jesus não se obtém pela instrução teórica, mas sim pelo compromisso prático, caminhando com ele no caminho do serviço, desde a Galiléia até Jerusalém.

O teólogo francês Gérard Bessière escreve: “E nós? Não estamos frequentemente cegos, fechados em nós mesmos? Não deveríamos tirar os nossos mantos, as nossas seguranças, nos libertar das nossas proteções, nos lançarmos na escuridão até Jesus a fim de sermos iluminados logo pela sua luz?”[2]

E hoje, quando nos recusamos a ver o mundo no qual vivemos, quando nos recusamos a acolher as realidades novas que são as nossas, quando excluímos pessoas, com a desculpa de que elas não correspondem às etiquetas que nós queremos lhes impor, será que não estamos cegos, nós também? Não estamos rechaçando o caminho da luz que nos é proposto por Cristo no evangelho de Marcos?[3]

Então, sejamos como o cego Bartimeu. Sejamos corajosos; gritemos, como ele pedindo a ajuda ao Senhor. E como também Bartimeu fez, não permitamos que nada nem ninguém se interponham entre nós e Deus. Persistamos até que ele nos chame e se interesse por nossa dor. Deus nos ajudará a ver que é o que precisamos realmente.

Com confiança renovemos a fé no Senhor que nos tira da escuridão, nos liberta de todos os medos e nos traz de volta à vida. Por isso, na coleta deste domingo pedimos: “aumenta em nós a fé, a esperança, e o amor; e para que alcancemos as tuas promessas inclina-nos a amar o que nos ordenas”. E para alcançar suas promessas, vamos pedir profundamente que realmente amemos o que nos manda perante os desafios de nosso presente. Porque se cumprimos realmente e de maneira prática sua palavra teremos desde agora a vida eterna e estaremos contemplando eternamente sua infinita beleza.


[1] Veja comentário da Bíblia do Peregrino. Ilustração/mapa tomado de http://www.israel-a-history-of.com/jesus-in-jerusalem.html

[2] Citado por Raymond Gravel, “Caminhar com os olhos abertos”, em: www.cebi.org.br (Quinta-feira, 25 de outubro de 2012).

[3] Idem.

Discussão

24 comentários sobre “A cura do cego de Jericó – um modelo de fé

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