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Homilias

“… pareciam ovelhas sem pastor”. (Mc 6,34)


“… pareciam ovelhas sem pastor”.

(Mc 6,34)

8vo Domingo após Pentecostes

Textos:
1ra leitura: Jeremias 23,1-6
Salmo 23
2da leitura: Efésios 2,13-18
Evangelho: Marcos 6,30-44

O evangelho do domingo passado narrava a missão que Jesus confiara aos seus discípulos (cf. Mc 6,7-13). Ele os chamou e os enviou dando-lhes autoridade para expulsar todos os espíritos maus; ou seja, curar os enfermos e leprosos, e integrá-los dentro da comunidade; deu-lhes também a ordem de não levarem nada na viagem, nem comida, nem dinheiro; isto os obrigava a confiar na hospitalidade; apenas deviam levar uma bengala para se apoiar: a bengala que usavam os pastores para apanhar as ovelhas quando caiam em algum buraco; e por isso a bengala tem essa curvatura ou dobramento, porque com essa curvatura ou dobramento os pastores apanhavam ou puxavam para fora as ovelhas, particularmente as menores, quando caiam em algum buraco ou fenda.

E tanto o texto de Jeremias, como o evangelho deste domingo, aprofunda o tema do bom pastor, ou seja, aquele que tem responsabilidades com a vida dos outros.

O profeta Jeremias faz uma forte acusação aos pastores de Israel que traíram as esperanças do povo: Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto”! O dono do rebanho é Deus; os pastores são as lideranças políticas e religiosas; o rebanho é o povo que Deus confiou às lideranças para que o pastoreassem com justiça. E a tarefa dos pastores era não deixar se perder nem dispersar o rebanho, com uma administração seria e eficiente, na qual fossem preservados o direito e a justiça. Mas as lideranças foram infiéis. E pela boca de Jeremias, Deus (Yavé) põe nas lideranças políticas e religiosas a culpa pela deportação da população de Jerusalém para Babilônia, depois da tomada da cidade pelos babilônios em 586 a.C.

Também o Salmo 23 tematiza a figura de Deus como pastor que se compadece do povo explorado; conduz às fontes de água viva; e quem segue esse pastor encontra a graça e a paz de Deus ao longo dos caminhos da vida. No Salmo se fala, também, do pastor que caminha à frente de seu rebanho, e com sua bengala ou cajado, guia o seu rebanho, tanto para chegar ao pasto e à água como para voltar ao curral do repouso, já na escuridão da noite.

Já o evangelho de hoje, que como já falamos também tematiza a figura do pastor, situa-se depois do assassinato de João Batista (cf. Mc 6,14-29), que segue ao texto do evangelho do domingo passado, que tematiza o envio dos apóstolos. Assim, dois banquetes são descritos no capítulo 6 do evangelho de Marcos.

O primeiro, promovido por Herodes, termina em morte. Herodes, líder político, trai as expectativas e esperanças do povo oprimido, e no meio da festa, e a pedido de sua esposa, manda cortar a cabeça de João Batista e trazê-la para o banquete num prato. Celebra matando aquele que defende a vida dos pobres e anuncia a chegada de um novo dia de justiça: o Reino de Deus.

Já o segundo banquete é promovido por Jesus. E neste contexto Jesus aparece como líder e como pastor do povo sofrido e ameaçado, compadecendo-se dele. E com esse povo, Jesus celebra o banquete da vida, saciando a fome do povo.

O evangelho descreve duas cenas: na primeira aparecem os apóstolos voltando cansados depois de muitas atividades e contando a Jesus todo o que tinham feito e ensinado. Ai Jesus os convida a se retirarem para um lugar sossegado, na solidão e no silêncio do deserto. E na tradição bíblica e evangélica, o deserto é o lugar onde Deus fala a seu povo; é o lugar para orar e cultivar a relação intima e pessoal com Deus (cf. Ex 3-4,17; 16; Nm 1,1; Dt 2,1-25; 1 Rs 19; Mt 4,1; 14,13 Mr 1,12.35; 6,31; Lc 1,80; 4,1; 5,16).

A segunda cena descreve a chegada da multidão: povo abandonado e desprezado pelos maus governantes e maus pastores que, pela corrupção, abuso do poder, busca de interesses pessoais e total descaso do povo, provocavam o triste drama da miséria cada vez maior das multidões excluídas do sistema do Império Romano, que só beneficiava uma minoria de privilegiados.

A narrativa do evangelho de Marcos apresenta uma multidão com fome. Diante dessa multidão sofrida, Jesus ficou tomado de compaixão, “… porque pareciam ovelhas sem pastor”.  E quando lemos isso nos lembramos do Salmo 23, que fala do bom pastor, que recitamos hoje na liturgia.

Mas como alimentar tantas pessoas? Os discípulos logo apontam a solução: “que eles comprem seus alimentos”. Porém, a resposta de Jesus é convite para superar essa mentalidade individualista: “Dai-lhe vocês mesmo de comer”. Dessa maneira, para que o milagre aconteça é preciso superar a mentalidade individualista e colocar os bens em comum; porque onde há partilha e solidariedade, ninguém passa fome. Então Jesus pergunta o que eles tinham; e os discípulos respondem que apenas cinco pães e dois peixes. E nos gestos de Jesus encontramos a tradição da partilha preservada na liturgia: “… tomou os cinco pães e os dois peixes, olhou para o céu e deu graças a Deus… partiu os pães e os entregou aos discípulos… e também dividiu os dois peixes com todos”.

Assim, depois do banquete da morte promovido por Herodes, junto com as grandes lideranças da Galiléia, que resultou na morte de João Batista, vem o banquete da vida. Jesus alimenta o povo faminto no deserto; como bom pastor Jesus se compadece dos pobres e dos famintos: “… e todos comeram e ficaram satisfeitos…”. E diz o texto que ainda sobraram doze cestos cheios de pedaços de pães e peixes.

Porém, não podemos correr o risco de diminuir o sentido real do texto enfatizando o milagre apenas como uma ação sobrenatural de Jesus. A chamada, algumas vezes, “multiplicação dos pães e dos peixes”, ou como se diz no presente: “a alimentação das multidões” ou “a alimentação dos cinco mil”; concentra um simbolismo muito forte que vai além de uma interpretação sobrenatural.

O homem moderno tende a considerar os milagres como ocorrências extraordinárias, fatos que constituem exceções às leis da natureza. Mas muitas vezes perdemos de vista que os elementos que constituem um milagre nos são muito familiares porque pertencem à vida cotidiana; dessa maneira, o milagre consiste, muitas vezes, em uma mudança de mentalidade e/ou uma mudança de atitude.

Além disso, faço a ressalva que em nenhum dos evangelhos se fala de “multiplicar”. Todos os chamados evangelhos sinópticos (Mt/Mc/Lc) utilizam os termos gregos «katakláo/kláo»que significam «partir/dividir» e «dídomi» que  significa «distribuir/dividir» (cf. Mt 14,18; Mc 6,41; 8,1-10; Lc 9,16); já o evangelho de João utiliza apenas o termo grego «dídomi» que significa, como já comentamos, «distribuir/dividir» (cf. Jo 6,11); ou seja, que, segundo a tradição evangélica, o que Jesus realmente fez foi tomar os cinco pães e os dois peixes oferecidos pelos seus discípulos, e parti-los, dividi-los e distribui-los.

E certamente o milagre se deu. Deu-se em uma mudança de mentalidade, em uma mudança de atitude: deu-se na partilha! Porque o milagre começa a acontecer quando os que tinham algo guardado para si, inclusive os seus discípulos, mudaram de atitude, mudaram de mentalidade, também se comoveram, e colocaram o que tinham a disposição de todos.

Então, o evangelho de hoje traz dois grandes ensinos. Um deles é que a dinâmica do Reino é a arte de repartir/partir/dividir/distribuir o que se tem, mesmo que apenas sejam «cinco pães e dois peixes»; porque a solidariedade e o partilhar geram irmandade e trazem alegria. É repartindo, sendo solidários, que realizamos o projeto de Jesus, banquete de fartura e de alegria entre irmãos e irmãs que se amam.

Dessa maneira, somos convidados hoje a termos compaixão das multidões famintas, dos abandonados, dos presos, das crianças que vivem na rua, dos aidéticos, e de todas as pessoas rejeitadas pelos preconceitos de raça, sexo, religião orientação sexual etc. Precisamos abrir as mãos e o coração para a partilha e a solidariedade. E dar às pessoas menos favorecidas o direito de receber o pão da vida significa comprometer-se de corpo e alma nas exigências do amor e, para o cristão, fazer acontecer uma «nova repartição/divisão/distribuição dos pães e dos peixes». Porque se tem pessoas passando fome, não é tanto pela pobreza em si, mas pelo fechamento de quem não se importa com os demais.

Certamente a partilha e a solidariedade marcaram profundamente as primeiras comunidades cristãs; e hoje ao partir o pão com todas as pessoas, descobre-se a presença, sempre nova e atual, do Jesus Ressuscitado entre nós!

E porque existem tantos pobres e famintos abandonados e sem carinho, tantas pessoas rejeitadas, marginadas e discriminadas, o segundo grande ensino que o texto traz, é que como comunidade cristã, que celebra o pastoreio de Jesus, não podemos cruzar os braços nem fechar os olhos diante a situação de tantos sofredores e ovelhas sem pastor.

No trecho da carta aos Efésios lida hoje como segunda leitura, se diz que Jesus Cristo é a paz e quem nos traz a paz: “… ele derrubou o muro o muro de inimizade que separava os judeus dos não judeus”; o que na linguagem de hoje significa que ele derruba a parede divisória entre crentes e não crentes, brancos e negros, homem e mulher ou qualquer outra oposição. Portanto, qualquer oposição ou divisão não pode ser aceita por nós; não tem lugar nas comunidades dos seguidores e seguidoras de Jesus. Por isso, como comunidade cristã somos chamados a exercer o pastoreio de Jesus para com todos e todas, sem distinção.

E pastor e pastora é qualquer um que tem responsabilidade pelo bem das outras pessoas. A atitude de Jesus nos lembra de que esta é a forma de ser de Deus, e também deve caracterizar a comunidade cristã.

Como bom pastor, Jesus, hoje como ontem, se compadece dos pobres, dos famintos, dos desempregados e abandonados à própria sorte, assim como de todos os discriminados e marginados; e neles devemos contemplar Jesus em seu pastoreio e ministério. Por isso, no seguimento de Jesus, nós somos ovelhas e pastores, convocados a viver hoje a compaixão com as pessoas menos favorecidas, a serem pastores amorosos, responsáveis pela sorte, pela vida, pela paz, e pela felicidade de todas as pessoas.

Discussão

12 comentários sobre ““… pareciam ovelhas sem pastor”. (Mc 6,34)

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