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Homilias

Restaurando os sonhos


Restaurando os sonhos

 

Domingo de Pentecostes – Ciclo B

1ra leitura: Atos 2, 1-11
Salmo 104, 24-35
2da leitura: 1 Coríntios 12, 4-13
Evangelho: João 20, 19-23

Depois de uma longa caminhada de cinquenta dias de celebração pascal, o Senhor nos reúne para celebrarmos a plenitude da Páscoa: o dom do Espírito Santo derramado sobre a nascente Igreja. Assim, hoje, na celebração de Pentecostes, somos convidados a meditar sobre a aparição de Jesus aos discípulos e a missão que eles receberam.

A festa de Pentecostes era uma comemoração judaica, celebrada cinquenta dias após a Páscoa. Era conhecida como uma festa agrícola, na qual se agradecia a Deus pela colheita da cevada e do trigo. Mais tarde se transformou na festa histórica em que se comemorava a aliança, a entrega da Lei no Monte Sinai e a constituição do povo de Deus. Mas, ao situar o dom do Espírito nesta festa, o autor dos Atos dos Apóstolos indica que o Espírito é a Lei da nova Aliança e que, por esse mesmo Espírito, constitui-se, agora, a nova comunidade do povo de Deus. Portanto, Pentecostes evoca o nascimento da Igreja.

No domingo passado, celebramos liturgicamente a festa da Ascensão, ou seja, da glorificação de Jesus. Depois de quarenta dias aparecendo, comendo e conversando com os seus discípulos, de repente Jesus desaparece diante deles (At 1,4-11). Mas antes Jesus pede aos seus discípulos para não irem embora da cidade de Jerusalém, pois Deus tinha ainda uma surpresa para eles: seriam “batizados com o Espírito Santo dentro de poucos dias”. E esse fato daria para eles poder para serem testemunhas das Boas Novas em Jerusalém… “e até os lugares mais distantes da terra”.

E dias depois, exatamente na festa judaica de Pentecostes, como vimos na primeira leitura (Atos 2,1-11), os discípulos estavam reunidos numa sala em Jerusalém. O evangelho de João fala que estavam reunidos “de portas trancadas”. E realça dessa maneira o evangelista a situação de insegurança própria de quem não sabe mais a quem recorrer. É a comunidade que ainda não tem consciência do que significa a ressurreição. É uma comunidade fechada e com medo, desamparada num ambiente hostil. Necessita fazer a experiência do Espírito. Porque só a partir desta experiência, estará preparada para a missão no mundo.

De repente, narra o evangelho, Jesus aparece e se coloca no meio deles. Logicamente todos ficaram contentes e alegres por verem Jesus de novo, de tal forma que recuperaram a confiança e a serenidade ao ouvirem a saudação: “A paz esteja com vocês”. E as portas trancadas não podem impedir que ele esteja no meio dos que nele acreditam. E até hoje é e será sempre assim! Quando estamos reunidos, ainda com todas as portas fechadas, Jesus está no meio de nós. E até hoje e sempre, a primeira palavra de Jesus é e será: “A paz esteja com vocês!”.

E construir a paz faz parte da missão. E relembrando o que já tinha falado antes, na homilia do 3ro Domingo de Páscoa, paz na tradição bíblica, no hebraico «shalom», significa muito mais do que apenas ausência de guerra ou calmaria. Significa construir uma convivência humana harmoniosa, onde todas as pessoas possam ser elas mesmas, tendo todas o necessário para viver, conviver felizes e em paz; significa vida abundante tanto no material como no espiritual. Essa foi a missão de Jesus, e é também a nossa missão.

E a seguir, narra o evangelho, depois da saudação, Jesus soprou sobre eles e falou: “Recebam o Espírito”. E ai as mentes dos discípulos se abriram e começaram a entender, finalmente, o que significava a morte e ressurreição de Jesus, bem como seu aparente sumiço e o Espírito prometido (At 1,4-11). Compreenderam que, na verdade, Jesus, agora glorificado, não se havia afastado nem se distanciado deles. Muito pelo contrário, Jesus se fazia inteiramente presente, porém, agora de outro jeito, pelo seu Espírito Santo. Viram que agora a gloria de Jesus era tão ampla e profunda que agora se fazia o membro mais intimo da própria comunidade.

E como escutamos na primeira leitura, o autor dos Atos dos Apóstolos, para descrever e realçar aquele momento de esplêndida iluminação dos apóstolos, fala de um barulho vindo do céu, “como se fosse um forte vento”; de “línguas de como de fogo, que se repartiam e pousavam sobre cada um deles”. E diz o texto dos Atos que começaram “a falar em outras línguas”, e todos os peregrinos que estavam escutando lhes entendiam em sua própria língua.

E esse milagre de falar em outras línguas, é um jeito muito simbólico que tem o autor dos Atos dos Apóstolos de significar, que com o derramamento do Espírito Santo, o Deus eterno chegou fazendo-se presente e permanente para todas as pessoas em todos os lugares e em todas as épocas. Evidencia a universalidade da Boa Nova de Jesus; e que chegou para santificar-nos para consolar-nos, para fortalecer-nos. Mas que chegou também para que cheios desse dom do Espírito Santo, atuemos como mensageiros de Cristo, como uma comunidade transformada e transformadora que gera relações de solidariedade e reconciliação. Porque o ponto central e significativo da missão da paz está na reconciliação, na solidariedade, e na tentativa de superar as barreiras que nos separam e dividem. E essa é a grande responsabilidade que é dada à comunidade no Pentecostes.  Porque uma comunidade sem perdão, sem solidariedade, nem reconciliação, já não é mais a comunidade cristã.

Na verdade, hoje celebramos o inicio da nossa peregrinação como cristãos, como testemunhas de Cristo. Poderíamos dizer que a festa de Pentecostes é o aniversário da Igreja porque depois do Pentecostes os discípulos e discípulas se espalharam pelo mundo conhecido para anunciar as boas novas de salvação e libertação que Jesus prometeu e que o derramamento do Espírito Santo ratificou. Por isso é no marco da festividade de Pentecostes que se celebra a Semana pela Unidade dos Cristãos, para que, segundo o reclamo de Jesus, a comunidade cristã encontre a desejada unidade para que o mundo creia e a humanidade encontre também a unidade.

Então, a festa de Pentecostes nos conduz a caminhar pelo mundo dando testemunho de quem somos, a quem seguimos, e o que buscamos e procuramos para nossas vidas. Se isto não fica claro em nossas vidas, estamos falhando a nossa vocação, e o derramamento do Espírito não vai se manifestar em nós.

E essa é a essência da grande festividade que hoje festejamos. Isto é, conseguir que o Espírito Santo, que se nos dá, se manifeste de fato em todas e cada uma de nossas ações. Pentecostes, pois, não é algo passageiro e estéril. É a constante renovação de nossa fé pelo Espírito em favor do bem de todas as pessoas. E a todos, já sejamos da condição que sejamos, ou da raça ou cultura a que pertençamos, se nos deu o mesmo Espírito para o bem comum. E nesta tarefa cada um de nós pode cooperar com diferentes dons espirituais, com diferentes serviços, com diferentes talentos, como fala o texto da Primeira Carta aos Coríntios lida hoje, mas o objetivo final há de ser o mesmo, a salvação e reconciliação de todas as pessoas. E atuando desta maneira manifestamos que somos um corpo compacto e unido, um corpo cujos membros funcionam ao uníssono para o bem de todo o organismo. E nosso corpo eclesial, nossa família eclesial, ou seja, a Igreja, e particularmente cada uma das comunidades cristãs, têm de funcionar da mesma maneira, buscando o bem comum de todas as pessoas.

Então, a Igreja nasce do evento de Pentecostes, isto é, do Espírito do Jesus ressuscitado. A Igreja nasce missionária, porque nasce de Deus, que enviou Cristo ao mundo, que por sua vez enviou aos apóstolos a todas as nações. Dai que Jesus falasse aos seus apóstolos: “como o Pai me enviou, assim também envio vocês”. A Igreja nasce do Espírito Santo que infundiu nos primeiros discípulos e discípulas a luz e a força necessárias para levar a termo a missão.

Assim, se a Igreja nasce da missão, existe para a missão. Portanto, não existe para si; existe para os outros e precisa ir a todos, sem distinção de nação, raça, cultura, condição social, sexo, orientação sexual, etc. E nós hoje, somos mensageiros de Jesus Cristo, e antes de tudo, testemunhas daquilo que viram, encontraram e experimentaram os primeiros cristãos aquele dia de Pentecostes. E este fato significa irradiar a presença de Deus, de Jesus Cristo, de Deus-Conosco, e na força do Espírito Santo, proclamar com a palavra e com a vida que Cristo está sempre vivo e presente entre nós.

Cinquenta dias depois da Páscoa, neste dia do Pentecostes, onde celebramos a «constituição» do novo povo de Deus, a Igreja, chamada a levar para frente a obra de Cristo, devemos renovar e reafirmar nossa fé em todas as maravilhas que Deus revelou. E neste novo aniversário da Igreja vamos orar e pedir que Deus faça de todos nós pessoas iluminadas, que enxerguem com profunda clareza o sentido da presença de Cristo em nossas vidas e em nossas comunidades, para que, como os apóstolos, tenhamos a ousadia e a coragem para testemunhá-lo a todas as pessoas, não apenas de palavra, mas acima de tudo com nossas ações e com nossas próprias vidas.

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