//
você está lendo...
Homilias

“… vai diante de vocês para a Galiléia. Lá vocês vão vê-lo!”


“… vai diante de vocês para a Galiléia. Lá vocês vão vê-lo!”

 Domingo da Páscoa – Ciclo B

Textos:
1ra leitura: Atos 10,34-43
Salmo 118,14-29
2da leitura: Colossenses 3,1-4
Evangelho: Mateus 28,1-10

É a Páscoa do Senhor! Ele vive! E, porque vive, anima-nos à esperança; anima-nos à fé. É a festa da vida! Em Jesus ressuscitado somos convidados para o encontro com o Evangelho da verdade. Somos comunidade. Somos de Cristo, de Cristo vivo. Feliz Páscoa!

O Domingo da Ressurreição, o primeiro dia da semana, é o começo de uma vida nova, uma nova criação, tempos novos, seres humanos novos! E cada Páscoa pode ser o início de uma vida diferente. E apesar do escuro da nossa fé, somos convidados à experiência de vislumbrar sinais de ressurreição, anunciadores de uma vida nova. E como Maria Madalena, deixemo-nos mover pela fé e pela sede de Deus!

Assim, a palavra de Deus que ouvimos hoje é a proclamação de uma crença: uma fé. Por isso, não vou perder meu tempo tentando provar para os incrédulos a ressurreição de Cristo. Os evangelistas e os primeiros discípulos e discípulas nunca perderam seu tempo tentando explicar como ou o quê aconteceu propriamente com o corpo físico de Cristo. Realmente os evangelhos no explicam a ressurreição; é a ressurreição que explica os evangelhos.

Dessa maneira, nossa fé na ressurreição de Jesus, causa de nossa esperança, baseia-se na fé e no testemunho dos primeiros discípulos. Embora ninguém tenha visto sua ressurreição, a comunidade dos primeiros discípulos percebeu e compreendeu, aos poucos, no encontro com o Senhor e pela ação do Espírito, que seu Mestre continuava vivo entre eles. Portanto, não é possível provar a ressurreição com os sentidos e com a razão; sua aceitação está no nível da fé e não da argumentação teórica. A certeza de que Jesus está vivo entre nós é um ato de fé e, acima de tudo, uma experiência de vida.

Por isso, o que temos a fazer é refletir sobre a importância da ressurreição para a vida cristã. Por um lado, desde o ponto de vista coletivo, ou seja, como comunidade cristã, como seres humanos vivendo em um mundo em transformação, e, por outro lado, também refletir sobre a importância e o que significa a ressurreição desde o ponto de vista pessoal para a pessoa que acredita e segue os ensinamentos de Jesus.

Hoje percebemos, como também perceberam os primeiros discípulos e discípulas, que Jesus está conosco. Ele está presente na palavra que ouvimos e meditamos, em cada um de nós, na nossa comunidade reunida e na partilha do pão e o vinho.

Na experiência de fé das primeiras comunidades cristãs, fundamenta-se a força missionária da Igreja que, ao longo dos séculos, teve a certeza de proclamar: “O Senhor Ressuscitou verdadeiramente, aleluia!”.

A liturgia do Domingo da Páscoa oferece vários textos alternativos. Porém, eu vou me referir à narrativa do evangelho Mateus.

E gostaria começar imaginando. Vamos imaginar que uma pessoa perdeu um ser muito querido, poderia ser o pai, a mãe ou um grande amigo. O corpo do falecido é levado ao cemitério e sepultado. E depois? Lógico, vem a saudade! Passam-se os dias. E o que normalmente fazemos? Vamos até o cemitério visitar a sepultura, levar flores, e amenizar, assim, a dor da saudade.

E algo parecido aconteceu com Maria Madalena, e a outra Maria, como narra o evangelho de Mateus. Elas tinham um grande carinho por Jesus. Haviam-lhe seguido desde a Galiléia, prestando-lhe serviços, e certamente tiveram numerosas oportunidades para ouvir os ensinamentos sobre a morte e resurreição de seu Mestre.

E três dias depois que o corpo de Jesus foi sepultado, elas devem ter sentido uma imensa saudade do seu melhor amigo; e foram ao cemitério visitar a sepultura; e era o primeiro dia da semana, ou seja, nosso domingo. E dessa maneira elas serão as primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus, como foram de sua crucificação e sepultamento (Mt 27,55-56.61).

Mas ao chegar lá, uma tremenda surpresa e um grande susto. E faço a resalva que o texto da ressurreição de Jesus no evangelho de Mateus está repleto de elementos simbólicos característicos das grandes narrativas religiosas: um grande terremoto, a pedra tirada do sepulcro, e um anjo, semelhante a um relâmpago e de ropas brancas como a neve sentado nela. Já a narrativa de João fala de dois anjos vestidos de branco (Jo 20,12); enquanto Marcos fala de um moço vestido de branco (Mc 16,5), e Lucas de dois homens vestidos com roupas muito brilhantes (Lc 24,4).

E hoje em dia os anjos estão de moda. Escreve-se sobre eles. Vendem-se imagens de anjos. E até nas novelas aparecem pessoas que encarnam anjos. No entanto, quando reparamos no significado da palavra “anjo”, ou seja, “mensageiro de Deus”, nos damos conta que mais importante do que eles é a mensagem que proclamam. E no evangelho deste domingo estamos diante da mensagem de um anjo para Maria Madalena e a outra Maria.

Por isso, a mensagem propriamente dita do evangelho de hoje não se concentra nos fenômenos e sinais portentosos que acompanham o texto, mas nas palavras do anjo, ou do moço, ou dos homens, que têm paralelo nos quatro evangelhos: “Não tenham medo! Sei que vocês estão procurando Jesus, que foi crucificado, mas ele não está aqui, já foi ressuscitado… Agora vão depressa e digam aos discípulos dele… que foi ressussitado dos mortos e vai adiante de vocês para a Galiléia. Lá vocês vão vê-lo”.

Assim, se introduz a grande mensagem de boa-nova que todos merecem e precisam ouvir no meio do temor, a decepção e o pessimismo que tomou conta dos discípulos e discípulas após a morte de Jesus: “digam/contem…  ele está vivo e vai diante de vocês para a Galiléia”. Assim, preanunciando a dispersão e o abandono dos discípulos Jesus havia prometido que os encontraria de novo na Galiléia (Mt 26,31-32), região do anuncio do Reino, do chamado para a missão.

E comumente não damos valor à importância desse lugar geográfico. A Galiléia dos gentios, do “povo que não tem nem conhece a lei” (Rm 2,14). A Galiléia dos pecadores, dos impuros, dos desamparados. Aquela região que de acordo com o preconceito dos judeus, e particularmente dos moradores de Jerusalém, era a vergonha e desonra da nação, a ponto de Natanael responder a Filipe quando este lhe fala de Jesus: “E será que pode sair alguma coisa boa de Nazaré?” (Jo 1,46);  assim como tambiém a resposta dos fariseus a Nicodemos quando ele também lhes fala de Jesus: “Estude as Escrituras e verá que da Galiléia nunca surgiu nenhum profera” (Jo 7,52). E devemos ter em conta que Nazaré era um povoado da Galiléia.

E é muito simbólico e significativo que o evangelista marca o encontro com Jesus ressuscitado na Galiléia onde Ele começou seu ministério proclamando a chegada do Reino de Deus. E com a vida, morte e a ressurreição de Jesus o Reino está inaugurado. É o amanhecer de um novo dia no horizonte da humanidade. E o ressuscitado será visto e encontrado onde Ele revelou pela primeira vez a misericórdia de Deus, agindo a favor dos mais fracos da sociedade, fato que o levou à morte.

Em Jesus Cristo se pronuncia a última palavra a favor da vida. Deus está do lado de Jesus, do lado dos crucificados de todos os tempos. Nosso futuro está aberto, podemos ser sempre homens e mulheres de esperança, porque com a ressurreição de Jesus, entrou em nossa historia o júbilo de quem venceu a morte, e a alegria de uma vida nova.

Porém, neste dia de júbilo e vitória para todos os cristãos, Deus nos lembra, também, que a Páscoa de Jesus tem muito a ver com cada um de nós; que todos nós fomos batizados, isto é, mergulhados na morte de Jesus e ressuscitados com Ele para a vida. Isto significa que a Páscoa de Jesus é também nossa Páscoa. A vitória dele é também nossa vitória. Morremos a nossa vida passada com Cristo, e nossa vida presente está escondida, com Cristo, em Deus.

Desta maneira, a participação na morte e ressurreição de Cristo, revestenos de vida nova para trabalharmos por um mundo novo. Fomos enxertados em Cristo ressuscitado para vivermos a vida nova de filhos e filhas de Deus (Rm 6,3-11).

E já que ressuscitamos com Cristo, nada nos resta senão buscar, a todo custo, as coisas do alto, “onde está Cristo, sentado ao lado direito de Deus”, como escreveu Paulo à comunidade de Colossos, quando lhes lembrava que a ressurreição de Cristo é também nossa ressurreição (Col 3,1-2).

Porém, o que significa buscar as coisas do alto? Que coisas do alto? Com certeza, é tudo aquilo que Jesus mesmo viveu, fazendo o bem a todos, a ponto de entregar a própria vida por todos: a justiça, o amor a Deus e ao próximo, a solidariedade, a misericórdia, o perdão, a paz, todo o empenho em favor da vida para todos e todas.

Talvez a maior dificuldade em compreender o poder e a força da ressurreição de Cristo hoje, e encontrá-lo mais vivo do que nunca, reside no fato de que geralmente não nos decidimos a pôr os nossos pés «na nossa Galiléia de hoje». Preferimos procurá-lo «em Jerusalém». No entanto, não foi a Jerusalém, ao lugar que era o centro do poder político, religioso e econômico da época, que o anjo enviou os discípulos para encontrar o Cristo vivo.

Por isso, hoje somos impelidos a correr para anunciar que Jesus ressuscitou e vai à nossa frente na missão, ali onde temos tantas dificuldades para ir: ao encontro dos pecadores, dos sofredores, dos marginalizados, dos diferentes, dos desempregados, dos que não têm voz, das pessoas cuja ética e religião não se enquadram em nosso padrão. E essa talvez seja uma mensagem que pode levantar reações negativas e contrárias em algumas pessoas. Mas esse é, sem dúvida, o cerne da mensagem do evangelho de hoje: “… vai diante de vocês para a Galiléia. Lá vocês vão vê-lo”.  

Então, crer no Jesus ressucitado é crer que Deus vai diante de nós e está conduzindo até sua verdadeira plenitude os anseio de vida, de justiça, de fraternidade e de paz que se encontram no coração da humanidade e da criação inteira.

Crer no Jesus ressuscitado é rebelar-nos com todas as nossas forças a que essa imensa maioria de homens, mulheres e crianças que só têm conhecido nesta vida, miséria, humilhação e sofrimentos fiquem esquecidos para sempre.

Crer no Jesus ressuscitado é acreditar com todas as nossas forças que um mundo melhor é possível, um mundo onde já não existirá pobreza nem dor, onde ninguém estará triste e ninguém terá que chorar.

Crer no Jesus ressuscitado é aproximar-nos com esperança e compaixão a tantas pessoas sem saúde, deficientes físicos e psíquicos, pessoas afundadas na depressão, cansadas de viver e lutar.

Crer no Jesus ressuscitado é não aceitar que Deus seja um Deus oculto e distante, mas um Deus do qual sempre poderemos conhecer seu olhar, sua ternura e seus abraços, porque o encontraremos encarnado para sempre em Jesus, nosso amigo e nosso irmão.

Irmãos e irmãs, o júbilo e a alegria da ressurreição de Jesus Cristo necessita ser perenemente anunciado ao mundo. E seremos testemunhas autênticas da ressurreição, se escutamos e vivemos o que Ele anunciou e viveu, sobretudo em favor dos excluídos da sociedade e em favor de novas relações humanas, marcadas pelo amor.

Desde nossa Galiléia de hoje celebremos a Páscoa de Jesus, repletos pela graça de seu amor.

Discussão

2 comentários sobre ““… vai diante de vocês para a Galiléia. Lá vocês vão vê-lo!”

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: