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Homilias

“… os que vivem de acordo com a verdade procuram a luz”.


“… os que vivem de acordo com a verdade procuram a luz”

4to Domingo da Quaresma – Ciclo B

Textos
1ra leitura: 1 Crônicas 36,14-23
Salmo 122
2da leitura: Efésios 2,4-10
Evangelho: João 3,14-21

Como tínhamos falado na homilia do primeiro domingo da Quaresma, necessitamos superar a mentalidade que concebe a Quaresma como um tempo pessimista, negativo, preocupado tão somente com o pecado, com a conversão e a penitência. Quaresma é precisamente o contrário, é o tempo no qual devemos aprofundar que nós estamos salvos, não apenas por nossos méritos, mas porque Deus nos amou primeiro. E viver a Quaresma é aceitar esse amor de Jesus que chegou até dar a vida por nós.

Na celebração de hoje, somos conduzidos para o encontro com Jesus. Ela nos apresenta o anúncio da paixão e da entrega de Jesus como prova de seu amor à humanidade: “Deus amou o mundo tanto que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha vida eterna”.

Na carta aos Efésios, Pablo nos permite penetrar o futuro. Mas um futuro que consiste na graça de Deus e de nossa capacidade de obrar bem em Cristo Jesus. A graça de Deus que se derrama sobre nós, “… em todos os tempos do futuro”, é uma graça impregnada do amor de Deus em Jesus Cristo, e onde nós, com nossas falhas e fracassos, podemos renascer ante a vida com um sentido que nos libera dos medos, das ansiedades e nos guia pelos caminhos de Deus, por um caminho de luz no meio das dificuldades.

As grandes obras de amor e transformação em nosso mundo têm em comum a iniciativa de pessoas que ante as dificuldades da vida e ante as opressões de seu tempo foram capazes de ter uma visão de um mundo, não como é, senão como deve ser. Essas pessoas são visionárias, profetas de ontem e de hoje, não no sentido de ver ou predizer ou adivinhar o futuro, mas no sentido de contribuir a criar um futuro diferente.

Certamente, nosso mundo tem uma tremenda necessidade de sair da escuridão à luz, mas para que isso possa acontecer devemos começar com um processo de transformação pessoal. Estamos em perigo de viver na escuridão para sempre, daí que as Escrituras deste domingo tragam uma mensagem que vai além de nossas preocupações pelo futuro. É uma mensagem que nos convida a participar da graça de Deus e a agir no mundo de maneira que nossas verdadeiras intenções, nossa verdadeira identidade sejam reveladas.

Viver na luz é algo maravilhoso e liberador, mas precisa que Deus tome o controle de nossas vidas, porque seja que o admitamos ou não, o certo é que todos nós temos aspectos em nossa vida que nos gostaria manter ocultos ou, pelo menos, o mais afastado da luz que possamos. Coisas que preferimos deixar para trás, ou que não temos valor de lidar com elas, ou que desejaríamos que nem sequer Deus mesmo as soubesse.

O evangelho de hoje é a segunda parte de um estranho encontro de Jesus com um importante fariseu chamado Nicodemo.

De acordo com a pesquisa bíblica, sabemos que o evangelho de João teve sua redação final já no final do século primeiro, momento em que muita gente vinha entregando a vida pela causa do Evangelho, particularmente no enfrentamento com o Império Romano, por meio do martírio. E de acordo com as tradições joaninas, havia um grupo de pessoas interessadas no projeto de Jesus, mas com dificuldades de assumir publicamente essa postura. Tais pessoas sempre procuravam Jesus às escondidas (cf. Jo 3,2). Nicodemos fazia parte desse grupo. E na época da redação do evangelho, foi modelo para muitos que não podiam ou não queriam assumir publicamente sua fé em Jesus.

Nicodemos era fariseu e membro do Sinédrio (Jo 3,1), portanto uma pessoa influente. Mais tarde, até tentou evitar a condenação de Jesus no Sinédrio (Jo 7,50). E de acordo à tradição joanina, também foi ele quem trouxe os perfumes para a preparação do corpo de Jesus depois da sua morte (Jo 19,39).

Certamente, Nicodemo foi alguém que parecia andar em busca da luz, porém, teve dificuldades de assumir publicamente seu compromisso com o projeto de Jesus. Ele representa no relato a todas as pessoas que procuram sinceramente, apesar de medos e indecisões, encontrar-se com Jesus.

E a conversa entre Jesus e Nicodemo segue em forma de poema, até que tanto as figuras de Nicodemo como a de Jesus desaparecem da cena, dando passo às palavras de quem escreveu o evangelho, as quais formam o texto do evangelho de hoje.

Mas é interessante como o evangelista descreve a Nicodemo, na primeira parte do capítulo, vindo até Jesus no meio da escuridão da noite, às escondidas, em segredo, para aprender mais dos seus ensinos. E no evangelho de João a luz e a escuridão, o dia e a noite, são formas que o evangelista utiliza para falar do bem e do mal.

Particularmente a escuridão é um termo que o evangelista utiliza para falar de tempos de confusão. É uma forma de se referir às adversidades e aos tempos difíceis. Por isso, quando descreve a missão de Deus no mundo, ao princípio do seu evangelho, diz: “A luz brilha na escuridão, e a escuridão não conseguiu apagá-la” (Jo 1,5). Já posteriormente Jesus afirmará: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue nunca andará na escuridão, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). Desta maneira, quando examinamos cuidadosamente o texto nos damos conta que o evangelista está tentando nos dizer alguma coisa.

No entanto, o evangelho de hoje parece cair em uma contradição, porque enquanto no conjunto insiste na salvação do mundo, afirma no verso 18 que quem não crer, de antemano já está condenado. Entretanto, para entender corretamente esta afirmação temos que ter em conta que no evangelho de João o termo “mundo” (kósmos) é utilizado para designar tudo aquilo que se opõe ao Reino, ao projeto de Jesus. Por isso, ante Pilatos Jesus afirma categoricamente: “O meu reino não é deste mundo!” (Jo 18,36). Porém, talvez uma melhor tradução para essa frase pudesse ser: “Meu reino não é conforme –de acordo- com este mundo!”. Que na linguagem da época era o mundo do império romano: ocupação militar, exploração econômica, violência contra as mulheres e as crianças. E Jesus denuncia publicamente todo esse esquema e, por isso, o império, em contubérnio com as autoridades religiosas do judaísmo, o condena e o prega em uma cruz, como um rebelde político.

Então, quem condena? E condena o que? E podemos afirmar com certeza que quem nos condena não é Deus. Porque foi tão grande o seu amor por nós que enviou seu próprio Filho. Nós mesmos fazemos a escolha, a opção é nossa. Porque estamos «no mundo», mas podemos deixar de viver «conforme o mundo». Condena-se a si mesmo quem decide pelo projeto do «mundo», que na linguagem e no contexto do evangelho de João, é tudo aquilo que se opõe ao Reino, ao projeto de Jesus. E nesse sentido «crer» significa aceitar, entregar-se, integrar-se «no outro projeto», ou seja, no projeto do Reino, que na linguagem bíblica é vida, paz, justiça e amor.

Não é bom que corramos o risco de nos condenarmos à tristeza e à frustração de quem não consegue crer que Deus nos ama e que «outro mundo é possível». O caminho é a solidariedade, a partilha e o compromisso com quem sofre injustiças, exclusões, discriminações, marginalidade. Não fazer essa escolha é ficar na indecisão de Nicodemos. E então, apenas nos restaria a “escolha” de nos consolarmos levando perfume ao túmulo, como Nicodemo fez.

O evangelho de hoje é uma demonstração de como há pessoas que não têm a coragem de vir à luz por medo de ficar expostos. Às vezes parece que a gente tem-se acostumado à escuridão. Mas o evangelho de hoje alerta: “… as pessoas preferem a escuridão porque fazem o que é mau”, já que o engano, o egoísmo, a falta de amor, a falta de solidariedade são frutos das trevas e não da luz. Entretanto, com essa complacência estamos também aceitando que nossas vidas e o mundo continuem afastados da luz de Deus, porque em sintonia com o evangelho de hoje, apenas “os que vivem de acordo com a verdade procuram a luz”.

Então, irmãos e irmãs, enquanto nos aproximamos à história da crucifixão de Jesus, devemos refletir em aqueles aspectos de nossas vidas que ainda permanecem na escuridão. Vamos refletir naquelas coisas que preferimos ocultar à luz de Deus: no trabalho, na família, em nossas relações com os amigos e as amigas. Para que possamos celebrar o Domingo da Páscoa como pessoas que vivem na plenitude da luz.

Jesus, «levantado» numa cruz (Jo 3,14), envia-nos sinais de vida e de amor. Porque nesses braços estendidos e nessas mãos pregadas, está Deus com os seus braços abertos para acolher, abraçar e sustentar as nossas vidas.

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