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Homilias

A indignação de Jesus


A indignação de Jesus

3ro Domingo da Quaresma – Ciclo B

Textos
1ra leitura: Êxodo 20,1-17
Salmo 19,7-14
2da leitura: 1 Coríntios 1,22-25
Evangelho: João 2,13-25

Estamos no terceiro domingo da Quaresma, caminho que nos leva à festa da Páscoa. E tanto a liturgia da Palavra como as orações nos colocam diante do Senhor que nos pede um culto perfeito, nascido na siceridade do coração, da solidariedade e a justiça.

E somos chamados a responder algumas perguntas: em que consiste nosso culto a Deus? O que esse culto traz de novo e significativo para as nossas vidas?

Na leitura do livro do Êxodo, Deus nos oferece os Dez Mandamentos. E chama a atenção o modo como Deus propõe os mandamentos. Antes de tudo diz: «Meu povo, eu, o Senhor, sou o seu Deus. Eu o tirei do Egito, a terra onde você era escravo» (Êx 202). Ou seja, mostra o que fez pelo povo e depois coloca as condições do pacto. Assim, os Dez Mandamentos não foram decretados por um senhor poderoso e tirano, mas por um Deus libertador, que escolheu esse povo e quer ser amigo e parceiro.

No entanto, Jesus reduziu a dois os mandamentos: amar a Deus e amar ao próximo (cf. Mt 22,34-40). Porque não podemos negar que o amor é muito mais exigente do que qualquer lei. E também porque os Dez Mandamentos não esgotam a lei de Deus, porque «somente o amor é a plena perfeição da lei» (cf. Rm 13,10). O amor nos compromete muito mais com o irmão e a irmã e com sua história. Coloca-nos em atitude de alerta permanente com a seguinte pergunta: o que podemos e devemos fazer para tornar o nosso próximo mais feliz e pleno de vida?

No texto do evangelho, a expulsão dos vendedores e cambistas do templo acontece em pleno tempo da Páscoa dos judeus, quando Jerusalém encontra-se apinhada de peregrinos, vindos de todas as partes da Judeia para celebrar, oferecer sacrifícios e cumprir suas promessas.

Muitos peregrinos vêm de longe. Eles fazem economias durante anos para conseguir, uma vez na vida, realizar a peregrinação santa. São realmente dias de festa. E os comerciantes sabem que a festa da Páscoa é uma ocasião privilegiada de fazer muitos e bons negócios. E em poucos dias lucram mais que ao longo do ano.

Narra o evangelho que acompanhado pelos seus discípulos, Jesus sobe a Jerusalém para celebrar as festas da Pascoa. Sendo de família judia ele segue a prática religiosa de seu povo. Bom lembrar que, de acordo à tradição evangelica, ele foi apresentado no templo quando nasceu (Lc 2,22); junto com seus pais participava das romarias anuais por ocasião das festas; e aos 12 anos fez o passagem para a vida adulta visitando de novo, junto com seus pais, o templo de Jerudalém (Lc 2,41-52). Assim também, as primeiras comunidades dos seguidores e seguidoras de Jesus eram todas formadas por gente vinda do judaísmo da Palestina. E no início, estas pessoas continuavam ligadas ao templo e frequentavam o santuário para rezar (cf. At 2,46; 3,1).

No entanto, e voltando a nosso evangelho de hoje, desta vez, ao se aproximar do recinto que rodeia o templo, Jesus encontra-se com um espetáculo inesperado. Vendedores de bois, ovelhas e pombas oferecendo aos peregrinos os animais que necessitam para sacrificá-los em honor de Deus. Cambistas instalados nas suas mesas traficando com o câmbio de moedas pela única moeda oficial aceite pelos sacerdotes para o pagamento do imposto do templo.

Nesse esquema os bois e as pombas eram vendidos para os dois polos da sociedade da época. Assim sendo, enquanto os mais ricos ofereciam bois, os mais pobres apenas podiam ofrecer pombas. Desta maneira, o texto descreve um sistema bem elaborado e especializado em explorar, e cujo único propósito era o lucro e a exploração dos pobres e as viúvas.

O evangelho relata a presença de Jesus diante desse comércio. Jesus vê todo o que acontece. E sente-se como um estranho naquele lugar. O que veem os seus olhos nada tem a ver com o verdadeiro culto a Deus. A religião do templo tinha-se convertido em um negócio onde os vendedores, cambistas e sacerdotes procuravam bons ingressos, e onde os peregrinos tratavam de “comprar” Deus com as suas oferendas.

Talvez, nesse momento, Jesus lembra umas palavras do profeta Oseas que repetirá mais de uma vez ao longo da sua vida, que proclama a superioridade da misericórdia sobre os sacrifícios: «Eu quero que vocês me amem e não sacrifícios» (Os 6,6).

Certamente aquele templo não é a casa de um Deus Pai e Mãe em que todos se acolhem mutuamente como irmãos e irmãs. Jesus não pode ver ali essa “família de Deus” que quer formar com os seus seguidores. Aquilo não é senão um mercado onde cada um procura o seu negócio. E todo esse esquema de exploração existia sob a benção dos sacerdotes que levavam uma parte dos lucros.

Jesus não diz apenas uma palavra, mas enche-se de indignação. E o narrador descreve a sua reação de forma muito gráfica e dramática. Faz um chicote de cordas e expulsa os vendedores e cambistas, derruba as cadeias e as mesas jogando o dinheiro no chão, expulsa do recinto sagrado as gaiolas com os animais, e grita: «Tirem tudo isto daqui! Parem de fazer da casa do meu Pai um mercado!» E o gesto e as palavras de Jesus lembram várias profecias: «a casa de Deus não pode ser transformada em covil de ladrões» (Jr 7,11); «no futuro não haverá mais vendedor na casa de Deus» (Zc 14,21); «a casa de Deus deve ser uma casa de oração para todos os povos» (Is 56,7).

A reação de Jesus é surpreendente. Por que ele reage assim?

Não pensemos que Jesus estava apenas condenando a religião simples da sua época. A sua crítica é mais profunda. Por um lado, Deus não pode ser o protetor e encobridor de uma religião tecida de interesses e egoísmos. Porque quando o templo vira mercado é possível que o povo se acostume a freqüentar o ambiente, mas a transformação das vidas não acontece mais. E quando os sacerdotes esquecem a justiça e não defendem mais o direito dos órfãos e das viúvas, então o culto se transforma em uma triste abominação aos olhos de Deus. E dessa maneira, a religião só é usada para pacificar as conciências que oprimem, e legitimar como certo aquilo que Deus rejeita. E por outro lado, Deus não se prende a nenhum santuário. O que Deus quer são os verdadeiros adoradores, aquelas pessoas que manifestam Deus em suas vidas através do amor ao próximo. Estas são as que o adoram “em espírito e verdade” (cf.,Jo 4,23). O verdadeiro templo de Deus é a comunidade, onde as pessoas são todos sacerdotes e sacerdotisas, “as palavras vivas”, que continuamente oferecem a Deus o autêntico sacrifício espiritual (cf. 1Pe 2,4-5). Por isso, era preciso “virar a mesa”, porque Deus é um Pai e uma Mãe ao qual só se pode dar culto trabalhando por uma comunidade humana mais solidária e fraterna.

Quase sem nos darmos conta, também todos nós podemos nos tornar hoje em “vendedores e cambistas” que não sabem viver senão procurando o seu próprio interesse. Estamos a transformar o mundo em um grande mercado onde tudo se compra e se vende, e corremos o risco de viver, inclusive a relação com o mistério de Deus, de forma mercantil.

Na narrativa da expulsão dos vendedores e cambistas do templo, devemos lembrar, também, que a história da Igreja está permeada de momentos no qual a religião foi utilizada para justificar interesses, vantagens e benefícios que nada tinham a ver com o Evangelho ou com o culto ao Deus vivo. 

Certamente, a  liturgia de hoje transpira, do começo ao fim, o sentido e a espiritualidade do verdadeiro culto que devemos prestar a Deus. E importa nos deixarmos impregnar por essa Palavra e fazer da vida um culto perfeito a Deus. E só assim nossos cantos, nossas celebrações e orações serão significativas para Deus. Os sacrifícios agradáveis são as obras de amor, o serviço prestado ao ser humano, especialmente ao doente, ao pobre, ao faminto, ao discriminado, ao marginalizado.

Por isso, irmãos e irmãs, temos de fazer das nossas comunidades cristãs um espaço onde todos nos possamos sentir na «casa do Pai e da Mãe de todos e todas». Uma casa acolhedora e cálida onde a ninguém se cerra as portas, onde a ninguém se exclui nem descrimina. Uma casa onde aprendemos a escutar o sofrimento dos filhos mais desvalidos de Deus e não só o nosso próprio interesse. Uma casa onde podemos invocar a Deus como nosso Pai e nossa Mãe porque nos sentimos os seus filhos e procuramos viver como irmãos e irmãs.

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