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Homilias

“O tempo já se completou e o reino de Deus está próximo…”


“O tempo já se completou e o reino de Deus está próximo…”

1ro Domingo da Quaresma – Ciclo B 

Textos

1ra leitura: Gênesis 9,8-15
Salmo 25
2da leitura: 1 Pedro 3,18-22
Evangelho: Marcos 1,9-15
 

Na Quarta-feira de Cinzas iniciamos a Quaresma. As primeiras comunidades cristãs começaram a se reunir todas as semanas para festejar a victória de Jesus sobre a morte no domingo, um dia depois do sábado. Ainda bem no começo, os cristãos sentiram a necessidade de solenizar, de maneira muito especial, o acontecimento que mudou os rumos da história. Decidiram fazer uma vez por ano, uma grande festa, com cuidadosa preparação, para celebrar intensamente a Páscoa de Jesus Cristo. A maior de todas as festas, a festa das festas, do domingo de todos os domingos: a Páscoa de Ressurreição.

E toda festa que se preze merece uma boa e prolongada preparação. Não podia ser diferente a preparação da festa da Páscoa. E a Igreja definiu estes quarenta dias que, com o tempo, receberam o nome de Quaresma.

Ora, por quê quarenta dias? Na determinação de quarenta dias, teve grande peso os outros muitos quarenta  que encontramos na Bíblia: os quarenta anos transcorridos com o povo de Deus no deserto, os quarenta dias durante os quais Elias, fortificado pelo pão cozido sob as cinzas e pela água, chegou ao monte de Deus, o Horeb; os quarenta anos que passou o povo de Israel no exílio babilônico e, finalmente, os quarenta dias de jejum e oração de Jesus no deserto antes de começar seu ministério.

Desta maneira, na tradição bíblica “Quarenta dias” quer diser uma vida inteira, de manhã à noite, em todas as circunstâncas.

Assim, Quaresma passou a significar o caminho para a festa, tempo de preparação da comunidade e de cada cristão para a celebração da Páscoa, centro da vida cristã e do Ano Litúrgico. Também o tempo de conversão e entrada na prática e na solidariedade de Jesus. Portanto, Quaresma não é tempo de luto ou tristeza, mas de profunda expectativa e inteligente concentração para viver intensamentee as alegrias da Ressurreição do Senhor.

O texto do Gêneses para este domingo encerra o relato do dilúvio. Texto muito simbólico e metafórico que busca explicar, na linguagem antiga, um mundo dominado pelo mal e nos aponta o surgimento de um novo mundo, e o nascer de uma nova sociedade.

O dilúvio era uma história muito antiga que formava parte da cultura babilônica, lugar onde o povo de Israel ficou exilado durante mais de 40 anos, e o lugar onde o texto do Gêneses foi escrito. Na cultura babilônica a “grande inundação” estava diretamente vinculada ao surgimento e resurgimento da monarquia babilônica. E esse mito ou relato fazia com que o povo se submetesse à autoridade divina do soberano de manter a ordem do universo que permitia as chuvas e evitava as inundações. E quando parte do povo de Israel foi escravo na Babilônia não entendia que o poder do rei pudesse estar acima da vontade do Deus de Israel de salvar e libertar seu povo. Mas, seria que se o povo de Israel desobedecesse o rei da Babilônia morreria afogado num diluvio?

Então, o escritor bíblico fez uma releitura do mito do dilúvio dando-lhe um novo sentido. Desta maneira no texto do Gênese a destruição pelo dilúvio não acontecerá para mais ninguém, israelita ou não, seres humanos e animais. Se acabava assim com o terrorismo do Estado babilônico libertando as pessoas para lutar pelo que é justo e sem medo dos poderosos.

No entando, quando normalmente nos defrontamos com um texto como esse, pensamos que apresenta um Deus que castiga. Mas é um error entender o texto dessa maneira. Deus não castiga. Somente tem amor pelos seres humanos e os quer felizes. Deus não fica indiferente diante das ações e projetos dos seres humanos. Como Pai e Mãe intervém para criar uma nova sociedade. E a narrativa do dilúvio não é  um desastre provocado por Deus, mas um retrato simbólico da ruina que as maldades humanas provocam. E se a Bíblia fala de castigo é apenas porque naquele tempo, as pessoas assim se expressavam e atribuíam aos deuses os fenômenos da natureza que não sabiam como explicar, mas que hoje cientificamente podemos explicar.

Por isso, para dar um novo sentido ao relato babilônico, se introduz no texto do Gêneses a imagem do arco-iris, como símbolo da aliança de Deus com seu povo, significando a paz entre o céu e a terra, o abraço permanente entre Deus e a humanidade. O arco-iris passa a ser, assim, símbolo de um Deus de misericórdia que da salvação e libertação a todas as pessoas em todos os tempos e em todos os lugares. E o Salmo 25 que recitamos neste domingo reafirma esse fato e apresenta Deus como eternamente fiel e amoroso, mostra-o como o Deus da salvação e da libertação.

Na segunda leitura tomada da primeira carta de Pedro aparece a ligação das águas do dilúvio com as águas do Batismo. Os efeitos da água do dilúvio estão presentes, simbolicamente, nas águas do Batismo, ou seja, destruição do homem antigo e nascimento do homem novo.

Ser batizado é se comprometer com Deus com conciência reta. E a Quaresma é precisamente uma caminhada na qual se procura purificar as intenções e os propósitos. No Batismo recebemos o Espírito Santo, o mesmo Espírito que anima Jesus. O Espírito nos empele a fortalece para sermos discípulos missionários no deserto da vida, nos conflitos da sociedade, nas lutas por justiça, pão e saúde.

Por sua vez, Marcos, o evangelista deste Ano Litúrgico B, antes de começar a narrar a atividade profética de Jesus escreve estes breves versículos.

Mas, desde o princípio de seu evangelho Marcos inicia dizendo como foi o começo. Você esperaria de Marcos uma data bem precisa. Mas, em vez disso, recebe uma resposta aparentemente confusa. Para descrever esse começo, Marcos cita Isaías e Malaquias (Mc 1,2-3). Fala de João Batista (Mc 1,4-5). Alude ao profeta Elias (Mc 1,4). Evoca a profecia do Servo de Javé (Mc 1,11) e as tentações do povo no deserto, depois da saída do Egito (Mc 1,13). Você pergunta: “Mas afinal, o começo foi quando: na saída do Egito, no deserto, em Moisés, em Elias, em Isaías, em Malaquias, em João Batista?” O começo, a semente pode ser tudo isso ao mesmo tempo. O que Marcos quer sugerir é que olhemos a nossa história com outros olhos. O começo, a semente da Boa Nova de Deus, está escondida dentro da vida da gente, dentro do nosso passado, dentro da história que vivemos.

Nestes poucos versículos do evangelho de Marcos lidos hoje encontramos três referências bem distintas a locais que representam momentos de nossa caminhada espiritual ao lado de Jesus.

O primeiro lugar citado é Nazaré da Galiléia, e Jesus é chamado de Nazareno porque toda sua vida está associada àquela aldeia. Nazaré representava o lugar onde ele passara sua infância, o lugar onde ele crescera, onde ele tinha família, segurança, carinho, emfim, o lugar onde estamos seguros. Mas Jesus, para assumir seu compromisso com Deus precisa se expor. Precisa abandonar a segurança que Nazaré representa e assumir o projeto que Deus lhe propôs. E como Jesus também precisamos abandonar a segurança que temos e nos envolver de corpo e alma com o projeto de Deus para nossa vida.

O segundo lugar mencionado no evangelho é o rio Jordão. Lá está João Batista, e ele prega o arrepedimento e o compromisso incondicional com Deus. E o Batismo é um ritual público de que as coisas mudaram, de que a conversão ocorreu, de que as coisas velhas já passaram, e de que tudo se fez novo. Tal como Jesus também precisamos ter um encontro com nosso batismo no Jordão. Precisamos renovar nossa renúncia ao mal e renovar nosso compromisso com o Reino de Deus. Precisamos declarar, mais uma vez, que Jesus é nosso Senhor.

O último lugar citado no evangelho é o deserto. Depois do batismo, o Espírito de Deus toma conta de Jesus e o empurra para o deserto, onde ele se prepara para a missão (Mc 1,12s). Não o conduz a uma vida cômoda. Leva-o por caminhos de prova, riscos e tentações. Procurar o reino de Deus e a sua justiça, anunciar Deus sem falseá-lo, trabalhar por um mundo mais humano é sempre arriscado. Foi para Jesus e será para seus seguidores.

E no deserto Jesus enfrenta as tentações, mas não se deixava deviar (Mt 4,4.7.10). E tentação é tudo aquilo que afasta alguém do caminho de Deus. Porém, sempre que falamos ou pensamos em deserto lembramos de um lugar inóspito, onde a vida é difícil, onde falta água, alimento, o calor é insoportável durante o dia e o frio é cortante durante a noite. Mas Jesus foi até o deserto porque, de acordo à tradição bíblica,  o deserto é, também, lugar de encontro com Deus, lugar onde Deus nos fala, nos instrui, nos orienta e nos fortalece para exercermos nossa missão no mundo. E em um mundo que evita de todas as formar falar em dor e sofrimento, o evangelho nos relembra que seguir Jesus é “tomar a cruz”, é estar disposto a se doar. Por isso, não há vida cristã sem deserto; assim como não há vida cristã sem o abandono do conforto e sem compromisso com o projeto do Reino de Deus.

Já no final do evangelho, está o resumo da pregação de Jesus. “O tempo já se completou e o reino de Deus está próximo: convertei-vos e crede no evangelho”. E este é hoje um convite concreto e pessoal de Jesus dirigido a todos nós.

Portanto, irmãos e irmãs, Quaresma é,

– tempo abençoado e privilegiado na vida da Igreja;

– tempo de conversão, purificação e glorificação do Senhor;

– tempo de abrir o coração para a novidade do evangelho, tendo como centro a cruz de Cristo, sinal de salvação e reconciliação da humanidade;

– tempo de revitalização das promessas do Batismo e inserção consciente na comunidade;

– tempo de se envolver, de corpo e alma, na libertação das pessoas excluídas e oprimidas, vítimas de tanta violência e descasos com a vida;

– tempo de renovar nossa fidelidade ao Deus de Jesus Cristo;

– tempo de nos deixarmos acolher e tocar pela misericórdia do Senhor;

– tempo de ressucitarmos com Cristo e nos colocarmos a serviço de seu Reino, aqui e agora.

O povo da Bíblia tinha esta convicção: Deus está presente na nossa vida e na nossa história. Por isso, eles se preocupavam em lembrar os fatos e as pessoas do passado. Porque pessoa que perde a memória, perde a identidade, ela já não sabe de onde vem nem para onde vai. Eles liam a história do passado para aprender a ler a história deles e descobrir dentro dela os sinais e os apelos da presença de Deus.

É o que Marcos fez aqui no início do seu evangelho. Ele tira o véu dos fatos e aponta um fio de esperança que vinha desde o êxodo, desde Moisés, passando pelos profetas Elias, Isaías e Malaquias, pelos servidores do povo, até chegar em João Batista, que aponta Jesus como aquele que realizará a esperança do povo.

Irmãos e irmãs vamos viver este tempo de Quaresma com os olhos fixos em Jesus e seu projeto de vida. É o Espírito de Deus o que nos está empurrando para o nosso deserto de hoje, e vamos sair dessa caminhada, como pessoas e como comunidade, mais humildes e mais fiéis ao Senhor. E vamos resgatar a utopia de construir uma nova igreja e uma nova sociedade, onde haja espaço de vida e de participação para todas as pessoas.

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