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Estudos bíblicos - O evagelho de Lucas

ESTUDOS NO EVANGELHO DE LUCAS – V


ESTUDOS NO EVANGELHO DE LUCAS – V

A oração como uma forma de resistência e luta 

Textos: Lucas 11,2-4 e Mateus 6,9-13

Momento celebrativo

Leitura dos textos

  • Ler os textos em voz alta

Esclarecimento

Para este estudo recomendamos usar também a versão de Mateus porque – mesmo que talvez, e segundo as leis que regem a transmissão de um texto litúrgico, a versão de Lucas possa considerar-se a mais antiga ou original – estamos de acordo com os que postulam que o texto de Mateus recolhe melhor que Lucas o sentido original, e se ajusta melhor à realidade sócio-econômica do século I d.C. , assim como à releitura econômica que estamos propondo da «oração do Senhor». Não obstante, não achamos que entre as duas versões haja contradições ou idéias opostas, e sim pensamos que se complementam como comentaremos mais adiante.

O contexto do texto

O contexto econômico, político e social de nosso texto se encontra no período da ocupação e dominação romana sobre a Palestina, mantido por estruturas hierárquico patriarcais de dominação que afetavam todo o sistema de relações, desde a política até a economia.

O sistema de arrecadação de impostos fez crescerem o endividamento e o aumento do número de escravos e escravas. Na sua expressão social, política e econômica o sistema de dominação romano dependia da aliança com os poderosos, tanto no nível secular como no nível religioso. Reis e sacerdotes eram colocados e substituídos por Roma de acordo os seus interesses. E toda esta estrutura econômica, política e social era sustentada pela força e a coerção do exército romano.

Vemos por tanto que os elementos mais importantes para o crescente empobrecimento da população no tempo de Jesus eram as dívidas e os impostos. É por isto que as pessoas empobrecidas articulavam reações coletivas contra o sistemático endividamento da população. E é que uma dívida pode destruir completamente uma família. O processo de endividamento podia levar à ruína total um grupo familiar e social, levando inclusive a problemas morais e sociais, arrastando de maneira particular às crianças e às mulheres à escravidão e a prostituição. Vemos, então, em documentos bíblicos e extra-bíblicos, como se articula a resistência das pessoas empobrecidas expulsando aos credores da cidade e destruindo os arquivos públicos que continham documentos de dívidas. É dentro desta situação que devemos entender Lucas 11,2-4 e Mateus 6,9-13.

Antecedentes judaicos

O Pai-nosso tem seus antecedentes em antigas orações judaicas usadas comumente nas sinagogas. Afirmou-se que depende literariamente do qaddish, antiga oração aramaica com a qual se terminava o serviço nas sinagogas em tempos de Jesus. O evangelho de Mateus a traduziu para o grego adaptando-a às novas necessidades da comunidade. No entanto, os círculos rabínicos e farisaicos nos quais tais formas de oração eram usadas não eram conhecidos por uma prática libertadora. Será precisamente o resgate do potencial de justiça e liberação destas formas de oração o que Jesus realiza, radicalizando o qaddish, ou outras orações, dando-lhes um novo conteúdo de compromisso social.

O contexto literário do texto

No evangelho de Mateus o Pai-nosso se insere em uma estrutura literária maior conhecida como o Sermão da Montanha, estrutura literária que ocupa os capítulos 5 ao 7 do evangelho de Mateus. Este contexto literário é importante, porque enfatiza a temática libertadora do êxodo e porque, além disso, insere-se no cotidiano judaico. O Pai-nosso se insere, além disso, na controvérsia de Jesus com o setor fariseu mais rigoroso chamados de “hipócritas”.

Estrutura do Pai-nosso

A estrutura do Pai-nosso se compõe de uma invocação e sete petições finalizando com uma doxología (Mt v.13b). A doxología expressa pluralidade, coletividade, comunidade: Não é «Pai meu», mas «Pai-nosso», de todos e de todas. Apesar de que o termo Pai (em aramaico ABBA) é um termo familiar que implica uma relação íntima com a divindade, a terminologia masculina da doxología não está livre da visão de uma sociedade patriarcal.

Nas três primeiras petições (Mt vv. 9-10/Lc vv.2) estamos no campo da verticalidade, têm a ver com Deus: a) o santo do nome de Deus, b) seu reinado e c) a realização de sua vontade. Aqui vale a pena ressaltar que se pede que «venha o Reino», e não «vamos a teu Reino». Enfatiza-se a temporalidade e o cotidiano do Reino.

Na quarta (Mt v.11/Lc v.3), quinta (Mt v.12a/Lc v.4a) , sexta (Mt v.12b/Lc v.4b) e sétima (Mt v.13a/Lc v.4c) petição, estamos no campo da horizontalidade, têm a ver com os seres humanos: o alimento dos seres humanos, o perdão das dívidas, e o mal que poderia afetar as relações inter-pessoais e sociais.

Chamamos a atenção para a quarta e a quinta petição. Na quarta petição se pede o pão necessário porque muitos não o têm. Na quinta petição se pede o perdão das dívidas, que no contexto de opressão do império romano situam ao Pai-nosso no plano da resistência econômica. No entanto, algumas traduções e textos litúrgicos distorcem o sentido original quando se ora: “perdoa-nos as nossas ofensas”, levando o perdão ao plano da moral eclesiástica. Os termos gregos utilizados são ofeilémata (dívidas) e ofeilétais (devedores), Estes termos são usados para caracterizar as dívidas monetárias de ordem econômicas. E sob o fundo do endividamento econômico que gerava pobreza, fome e escravidão, nos fazem ver que este texto se situa claramente na tradição do jubileu bíblico. As dívidas, com suas conseqüências sócias, políticas e econômicas fazem impossível a relação justa entre as pessoas assim como a relação com Deus.

Resumo e perspectivas

A oração do Pai-nosso, interpretado como a oração da liberação integral, não é, portanto, um pedido, mas também um compromisso horizontal e se insere dentro da proposta jubilar do perdão de dívidas. Cada vez que oramos o Pai-nosso trazemos a nosso presente a prática do Jubileu.

Relendo o Pai-nosso em nosso presente

Como ler significa sempre reler, e interpretar com sentido de passado significa sempre atualizá-lo em função do presente, as esperanças e angústias daqueles tempos se nos fazem hoje surpreendentemente próximas a nossas esperanças e angústias de hoje. Os convido, pois, a atualizar para nosso presente esta oração, que não nos eleva ao céu para que esqueçamos o que sucede na terra, mas nos lembra os seres humanos com seus problemas cotidianos que necessitam ser resolvidos. O que pedimos quando oramos o Pai-nosso é que Deus nos ilumine e conduza à busca de soluções necessárias para nossos problemas de hoje.

Atualizando o texto

Perguntas para guiar a discussão

• que queremos dizer quando pedimos que seja santificado o nome de Deus hoje?
• como contribuir para que venha o Reino de Deus em nosso presente?
• que significa e por que pedir hoje pelo pão de todos e todas?
• como podemos vincular uma profunda espiritualidade com a missão de lutar por uma organização social mais justa e igualitária?
• como poderia a quinta petição do Pai-nosso ser aplicada no meio da problemática de um mundo globalizado e endividado?
• de que pecados devemos livrar-nos hoje como comunidade de Jesus Cristo?

 Conclusão

Terminar com um momento de oração que resuma o estudo e nos faça comprometidos com os desafios que o texto demanda de nós hoje.

Bibliografia básica consultada e recomendada para este estudo

Año de gracia. Año de liberación – Una semana bíblica sobre el Jubileo. (Animador), Editorial Verbo Divino, Navarra, 2000. (La Casa de la Biblia)

BOFF, Leonardo. El Padrenuestro – La oración de la liberación integral. Ediciones Paulinas, Madrid, 1982.

JEREMIAS, Joachim. O Pai-nosso: a oração do Senhor. Edições Paulinas, São Paulo, 1976.

LOCKMANN, Paulo. “Perdónanos nuestras deudas – Una meditación sobre la oración: Una forma de lucha y resistencia a la opresión”. En: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana. REHUE, Santiago de Chile, 1990. No.5-6, p.7-14. (Ver edição em português, Vozes, Petrópolis, No.5-6)

MÍGUEZ, Néstor. “Contexto sociocultural de Palestina”. En: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana. RECU, Quito/Ecuador, 1996. No.22, p.21-31. (Ver edição em português, Vozes, Petrópolis, No.22)

MÍGUEZ, Néstor. “El imperio y los pobres en el tiempo neotestamentario”. En: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana. REHUE, Santiago de Chile, 1990. No.5-6, p.87-102. (Ver edição em português, Vozes, Petrópolis, No.5-6)

REIMER, Haroldo e RICHTER-REIMER, Ivoni. Tempos de Graça – O Jubileu e as tradições jubilares na Bíblia. CEBI/Paulus/Sinodal, São Leopoldo/São Paulo, 1999.

RICHTER-REIMER, Ivoni, “Perdão de dívidas em Mateus e Lucas. Por uma economia sem exclusões”, em: Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Vozes, Petrópolis, 1999, No.33/2, p.133-149.

RICHARD, Pablo, “Já é tempo de proclamar um jubileu – Sentido geral do jubileu na Bíblia e no contexto atual”, em: Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Vozes, Petrópolis, 1999, No.33/2, p.7-22.

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Pedro Triana, Ave. Goiás 2547, Casa 20, Barcelona, São Caetano do Sul/SP, CEP: 09550-051, E-mail: triana231247@yahoo.es e pedro_triana_sp@hotmail.com Telf: res. (11) 4225-1421 e cell. (11) 8362-9220 (TIM)

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