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Estudos bíblicos - O evagelho de Lucas

ESTUDOS NO EVANGELHO DE LUCAS – I


ESTUDOS NO EVANGELHO DE LUCAS – I

Uma breve introdução ao evangelho de Lucas.

Algumas chaves hermenêuticas

a)      Época

A maioria dos especialistas bíblicos coincidem em afirmar que o evangelho de Lucas foi escrito aproximadamente no ano 85 d.C, provavelmente em Êfeso, Ásia Menor. Portanto, desde o tempo de Jesus até a redação do evangelho de Lucas há um período de 55 anos, ou seja, um salto da cultura judaica para a cultura greco-romana e um salto da cultura do campo para a cidade.

Lucas escreve sua obra no chamado período sub-apostólico (70-135 d.C.), durante o qual ocorreu a institucionalização dos diferentes modelos de igrejas.

Devemos também lembrar que quando o evangelho de Lucas está sendo redigido já aconteceu a queda de Jerusalém no ano 70 d.C. Lucas consegue recolher os momentos mais significativos deste longo caminho cronológico, geográfico e cultural.

Os dois eixos hermenêuticos fundamentais trabalhados por Lucas em seu evangelho foram: 1) a tensão entre os cristãos procedentes do paganismo e os cristãos procedentes do judaísmo e 2) a tensão entre ricos e pobres nas comunidades procedentes do paganismo.

b)     Lucas/Ato: Uma obra só

É bem aceito pela pesquisa bíblica que o atual evangelho de Lucas e Atos tenham sido só uma obra. Mas realmente não sabemos quando as duas obras foram separadas, porém, é muito provável que isto aconteceu quando os quatro evangelhos formaram uma unidade na formação do cânon do NT já no final do século II.

c)      Características literárias

As características escriturarias do evangelho respondem ao mundo helenista, devido a sua linguagem, estilo e mentalidade.  E ao que tudo indica a intenção da obra era mostrar ao mundo grego quem foi Jesus e o movimento gerado por Ele após a ressurreição.

A diferença dos outros evangelhos, Lucas explica a intenção e o objetivo de seu autor ao escrever sua obra (Lc 1, 1-4), além de ser o único evangelho que está dedicado a uma pessoa específica: Teófilo (Lc 1,3), cujo nome significa “amigo de Deus”. No entanto, ao ler Lucas se percebe que os verdadeiros destinatários são as comunidades cristãs espalhadas pelo Império Romano, comunidades de tradição paulina.

Ainda que a obra apresente erros de caráter geográfico, a geografia é um fator muito importante no texto lucano. Para o autor as indicações geográficas possuem um sentido teológico. Particularmente a «casa» e o «caminho» são lugares importantes e cotidianos.

O evangelho de Lucas às vezes tem proximidade com o quarto evangelho. O evangelista tem sua terminologia predileta: salvar-salvação, pobre, compaixão, mulher-criança, servo, pecado-pecador, levantar e ressurreição, caminho e caminhar, santo, senhor, professor, ensinar, espírito, servir, etc.

O autor coloca um paralelismo completo entre a perseguição de Jesus e a de sua comunidade de seguidores. A geografia de ambas as atividades proféticas se desenvolve em direção inversa, tendo a Jerusalém como ponto de chegada e de partida respectivamente.

Grandes partes dos materiais comuns aos três evangelhos sinóticos se encontram mais depurados em Lucas, devido ao domínio que este possuía do idioma grego. A amplitude de seus recursos estilísticos se manifesta inclusive quando com o fim de reproduzir com fidelidade determinada forma se fala em aramaico e introduz conscientemente semitismos ou palavras gregas que se afastam do nível cultural habitual.

Entre os temas mais relevantes se encontram: a irrupção do Espírito Santo, a libertação, e os temas relacionados à desigualdade social, as crianças e o papel das mulheres no ministério e no movimento de Jesus.

d)     Características teológicas

O Espírito Santo é considerado o eixo teológico mais importante na obra lucana. Por isso, tanto o evangelho quanto o livro dos Atos são denominados o «Evangelho do Espírito Santo», dado que o atuar do mesmo está presente através de toda a obra, desde a anunciação do nascimento de Jesus, até a proclamação pelos apóstolos e discípulos da ressurreição de Jesus.

Lucas apresenta Jesus como:

– O Senhor (1,43).
– El Salvador do mundo (2,30-32).
– Alguém de muita ação e oração (6,12,11,1-13).
– O profeta de Deus (24,19).

Por outro lado, Lucas mostra que ser discípulo é:

– Caminhar com Jesus de Nazaré (9,57-62).
– Ser misericordioso (10,29-37).
– Ser servo do Senhor (12,35-49).
– Fazer o que Jesus fez seguindo-o em seu caminhar (14,25-33).

Propósito e autoria

Como já comentado, no prólogo histórico (Lc 1,1-4), que serve de introdução ao conjunto de Lucas-Atos, encontram-se expressos os propósitos e objetivos pelos quais o livro foi escrito e também o autor do evangelho. Trata-se da fé em Jesus Cristo vivida em um mundo marcado pelas divisões sociais, econômicas, políticas e religiosas.
Neste prólogo o autor tenta reconstruir as diferentes etapas históricas entre o chamado Jesus histórico, ou seja, o que as primeiras comunidades reconstruíram como o mais significativo do Jesus real, e a redação do próprio evangelho.

Aparecem cinco sujeitos históricos:

1-      O Jesus da historia, antes do ano 30, implícito neste prólogo más explicitado na reconstrução posterior do prólogo em Atos 1,1-6. Aqui, por «Jesus da historia» se entende, como já comentado, o que as primeiras comunidades cristãs reconstruíram como o mais significativo do Jesus real.

2-      As testemunhas – Constituem a primeira geração cristã, os homens e mulheres que entre os anos 30-60 transmitiram oralmente o que viram e escutaram diretamente de Jesus.

3-      Muitos – Esses «muitos» constituem a segunda geração cristã que entre os anos 60-80 iniciaram a tradição escrita.

4-      Eu [Lucas] – Autor do evangelho que se apresenta como uma pessoa instruída, um investigador-escritor-historiados profissional. Pensa-se que médico de profissão. Segundo o prólogo histórico, ele investigou tudo, desde a origem e escreve ordenadamente.

5-      Teófilo – É um homem já instruído na fé, a quem Lucas escreve o evangelho para que conheça a solidez dos ensinamentos nos quais já foi instruído. A pesquisa bíblica pensa que poderia ser uma pessoa concreta ou um nome coletivo para designar a todos aqueles que acolhem o evangelho, neste caso, seria a terceira geração cristã. Mas nessa terceira geração poderíamos estar incluídos também nós que hoje recebemos este evangelho.

Portanto, o prólogo histórico insere o evangelho na historia que vai desde o chamado Jesus da história até nosso presente, para que nós hoje, como novos Teófilos possamos participar de tal tradição.

Estrutura

Há diferentes maneiras e propostas para estruturar o evangelho. No entanto, vamos propor e assumir uma estrutura que ajude em nossa caminhada posterior:

1-      Prólogo histórico: Lc 1,1-4)

2-      Prólogo teológico: Lc  1,5-4,13

3-      Ministério de Jesus na Galiléia: Lc 4,14-9,50

4-      Subida de Jesus da Galiléia a Jerusalém: Lc 9,51-19,44

5-      Ministério de Jesus no Templo de Jerusalém: Lc 19,45-21,38

6-      Paixão e morte de Jesus: Lc 22-23

7-      Ressurreição de Jesus: Lc 24,1-49

8-      Testamento de Jesus: Lc 24,44-49 + At 1,6-8

Como já comentamos o prólogo histórico que marca os objetivos, propósitos e autoria da obra de Lucas-Atos, a seguir passamos a comentar as outras partes.

Prólogo teológico (Lc 1,5-4,13)

Evangelho da infância de João e Jesus (Lc 1,5-2,52). Aqui se contrapõem as figuras de João e Jesus. É a continuidade, mas ao mesmo tempo a ruptura entre dos períodos da historia da salvação: “A lei e os profetas chegaram até João, desde então se anuncia o reino de Deus” (Lc 16,16).

a)      Conteúdo: profecias, nascimento e crescimento de/sobre João e Jesus. Jesus no templo, batismo de Jesus, prisão e  morte de João, genealogia de Jesus (de José até Adão), tentação de Jesus no deserto.

b)     Contraposições: templo≠casa, sacerdote≠profeta, e contraposições sociológicas como orgulhosos≠poderosos/ricos, por um lado, e os que temem a Deus/os humildes e os famintos, por outro. E nesta seção se destaca “O Magnificat”, texto litúrgico-teológico que constitui um preanuncio do Reino e da missão de Jesus.

Ministério de Jesus na Galiléia (Lc 4,14-9,50)

a)      Conteúdo: Jesus na sinagoga de Nazaré (Lc 4,16-24), curas/milagres em Cafarnaum (Lc 4,31-34), escolha dos doze discípulos e ensino das multidões (Lc 5,1-6,49), sinais/milagres e a fé dos discípulos e discípulas (Lc 7,1-8,56), missão dos doze (Lc 9,1-21).

b)     Destaques: Jesus na sinagoga de Nazaré (Lc 4,16-24). Na seção onde escolhe os doze e ensina as multidões temos curas em sábado e controvérsias com fariseus e doutores da lei. Na seção de sinais/milagres e fé dos discípulos e discípulas aparecem oito mulheres.

Subida de Jesus da Galiléia a Jerusalém (Lc 9,51-19,44)

Começa a subida de Jesus da Galiléia para Jerusalém. Jesus vai a Jerusalém não como peregrino, mas para se defrontar profeticamente com o Templo. Geograficamente atravessa a região de Samaria, região considerada impura pelos judeus. Nos textos desta seção Jesus se refere positivamente aos Samaritanos. E mesmo que os Samaritanos não recebem positivamente a Jesus e seus discípulos, Jesus repreende os seus discípulos por sua atitude para com eles. Se os Samaritanos tivessem sabido que Jesus ia se defrontar com o Templo, talvez o tivessem recebido com entusiasmo. Esta subida da Galiléia a Jerusalém corresponde nos Atos à saída do «movimento de Jesus» de Jerusalém para Antioquia (At 7-15).

Conteúdos: Esta é uma longa seção com muitos e diferentes conteúdos onde se destacam textos sobre a oração, o confronto com fariseus e doutores da lei, diversas parábolas (o bom samaritano, a ovelha perdida, a dracma perdida, o pai misericordioso, o homem rico), assim como ações libertadoras em sábado/confronto com autoridades religiosas, um pequeno apocalipse com a temática do Reino de Deus….. etc.

a)      Destaques:

  • Marta      e Maria (Lc 10,38-42), onde estas mulheres não têm nada a ver com as irmãs      de Lázaro no evangelho de João. Aqui podemos ver dois modelos de igreja:      a) a igreja de Marta, a igreja judeu-cristã, preocupada pelos quefazeres      da lei; b) a igreja de Maria, a igreja helenista de Lucas que escuta a      palavra de Deus.
  • Outro      destaque é o texto do Pai-nosso (Lc 11,2-4), que em Lucas é mais fiel à      fonte Q original que o texto de Mateo.
  • No      pequeno Apocalipsis (Lc 17,20-37) não se fala de «parusia» ou segunda vinda do Filho do Homen, senão de sua      manifestação o apocalipsis. Lucas nunca usa o termo grego «parusia». Esta manifestação ou      apocalipsis acontece no meio das atividades da vida cotidiana: comer,      beber, casar-se, comprar, vender, plantar, construir (v.26-30).

Ministério de Jesus no Templo (Lc 19,45-21,38)

A primeira coisa que Jesus faz ao entrar em Jerusalém é uma ação profética violenta no Templo: a expulsão dos vendedores e cambistas. Continuam as controvérsias com as autoridades  religiosas.

a)      Destaques: O discurso sobre a destruição do templo tem uma importância especial. O texto de Lucas dá a impressão de falar de uma história que já aconteceu e que Marcos ainda não conhece (queda de Jerusalém e destruição do Templo 70 d.C.). Esta catástrofe mudou essencialmente a historia de povo judeu. Morre um projeto teocrático e nasce o judaísmo rabínico. E estas mudanças também exigiram a organização das igrejas à margem da Sinagoga.

Paixão e Morte (Lc 22-23)

Os textos desta parte falam das últimas atividades de Jesus: Última Ceia, prisão de Jesus, julgamento, crucifixão e sepultura.

Ressurreição de Jesus (Lc 24,1-49)

Textos como o túmulo vazio, anúncio das mulheres, encontro de Jesus no caminho de Emaús

Testamento de Jesus (Lc 24,44-49+ At 1,6-8)

Quando o Evangelho e Atos dos Apóstolos formavam um só livro

Nota:

O texto de Lc 24,50-53 é um acréscimo posterior quando os dois livros foram separados.

Bibliografia básica consultada e recomendada para todos os estudos

GEORGE, Augustin, El evangelio según san Lucas, 3ra ed. Editorial Verbo Divino, Navarra, España, 1979.

JEREMÍAS, Joaquín. Jerusalén en tiempos de Jesús. Ediciones Cristiandad, Madrid, 1980.

MORRIS, Leon I, Lucas. Introdução e Comentário, São Paulo, Vida Nova, 2000.

RICHARD, Pablo, “O evangelho de Lucas – Estrutura e chaves para uma interpretação global do evangelho”, em: Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Vozes, Petrópolis, 2003, No.44/1, p.7-36.

RICHARD, Pablo,  El movimiento de Jesús antes de la iglesia. Una interpretación liberadora de los Hechos de los Apóstoles. Editorial DEI, San José, Costa Rica, 1998.

LIMA VASCONCELLOS, Pedro, A boa notícia segundo a Comunidade de Lucas – “O espírito me ungiu para evangelizar os pobres”, CEBI, São Leopoldo, 1998. (Serie: A Palavra na vida, No.123/124)

MESTERS, Carlos e LOPES Mercedes, Querido Teófilo. Encuentros bíblicos sobre el evangelio de Lucas. Editorial Verbo Divino, Madrid, 2000.

MÍGUEZ, Néstor, “Lucas 1-2: Um olhar econômico, político e social”, em: Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Vozes, Petrópolis, No.53/1, 2006, p.54-64.

PIKASA, Javier, A teologia de Lucas, Edições Paulinas, Sâo Paulo, 1978. (Coleção “Teologia dos Evangelhos de Jesus” – 3)

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Pedro Triana, Ave. Goiás 2547, Casa 20, Barcelona, São Caetano do Sul/SP, CEP: 09550-051, E-mail: triana231247@yahoo.es e pedro_triana_sp@hotmail.com Telf: res. (11) 4225-1421 e cell. (11) 8362-9220 (TIM)

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