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Homilias

Jesus Cristo, Rei do Universo


Jesus Cristo, Rei do Universo

Próprio 29 – Ciclo A

Textos

1ra leitura: Ezequiel 34,11-12.15-17
Salmo 23
2da leitura: Apocalipse 22,6-7.10-13.18-20
Evangelho: Mateus 25,31-46

Estamos no último domingo do ano litúrgico. É tempo de parada e de avaliação, tendo diante dos olhos Jesus Cristo, Rei do Universo. E a celebração quer nos ajudar a descobrir e vivenciar o sentido da presença do Senhor entre nós e na historia, voltados para os que têm fome, sede, estão presos, doentes, discriminados e abandonados.

O ano litúrgico termina com a festa de Cristo-Rei. E fica a pergunta: quem é esse Cristo-Rei hoje para a comunidade reunida para celebrar o memorial da páscoa?

Interessante que a primeira leitura mostra em que consiste a realeza de Deus: ela é serviço à liberdade e à vida das pessoas, sobretudo das que são impedidas de viver.

Durante o exílio na Babilônia Ezequiel aparece como o profeta da esperança, e porta-voz do Deus libertador, que busca e cuida de seu rebanho e de cada ovelha em particular.

O povo, longe de sua pátria, sofre muito por causa do abandono em que se encontra. Nesse contexto, de desespero Ezequiel entra como profeta da esperança. E contrário ao que muitos pensam da imagem de Deus no Antigo Testamento como um Deus severo, vingativo e rigoroso, Ezequiel apresenta uma das imagens mais ternas, delicadas e carinhosas de Deus. Apresenta a imagem de Deus como pastor que anima o povo a crer em Deus que liberta e salva as vítimas da ganância dos poderosos. Ele vai retirar seu povo da escravidão e reconduzi-lo à terra de onde saiu, cuidando para que a justiça e o direito sejam a base da nova sociedade.

Por sua vez, e em sintonia com Ezequiel, o salmista, em uns dos mais belos e profundos salmos, também vê em Deus o pastor que leva a descansar em verdes prados, conduz para águas refrescantes, guia por caminhos direitos e protege de todos os males. E certamente cada palavra de esse salmo encontrou em Jesus seu pleno cumprimento. E tanto ontem como hoje, a comunidade canta esse salmo sentindo-se beneficiada, protegida e alimentada pela ação do Bom Pastor, que é Jesus Cristo, Rei do Universo e Senhor da história.

Assim, a terceira geração de cristãos, também em uma situação de desespero e perseguição, proclama, no livro do Apocalipse, a Jesus Cristo como centro e Senhor da história, desde o começo até sua consumação: “O Alfa e o Omega, (primeira e última letra do alfabeto grego), o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (Ap 22,12-13).

Por sua vez, o texto do evangelho de hoje (Mt 25,31-45) descreve simbolicamente o juízo final. É o final do chamado 5º Sermão da Nova Lei que compreende o capítulo 25 do evangelho de Mateus. Nele encontramos a parábola das dez moças ou dez virgens (Mt 25, 1-13), texto do evangelho do domingo retrasado e a parábola dos talentos (Mt 25,14-30), texto do evangelho do domingo passado.

Os três textos orientam as pessoas sobre a chegada do Reino. A parábola das dez moças ou dez virgens insiste na vigilância: o Reino pode chegar a qualquer momento. A parábola dos talentos orienta sobre como fazer para que o Reino possa crescer. No entanto, a parábola do juízo final, que fecha o capítulo diz que para tomar posse do Reino se devem acolher os pequenos.

Porém, o relato não é propriamente uma parábola mas uma evocação do juízo final de todos os povos. Toda a situação concentra-se num diálogo longo entre o Juiz, que não é outro que Jesus ressuscitado, e dois grupos de pessoas: os que aliviaram o sofrimento dos mais necessitados e os que viveram negando-lhes a sua ajuda.

No texto Jesus fala das obras de misericórdia ensinadas pelo judaísmo: dar de comer aos famintos, dar de beber aos que têm sede, acolher o estrangeiro, vestir os nus, visitar os doentes, e visitar aos prisioneiros. E quem não praticou essas obras perdeu a oportunidade de fazer isso ao próprio Jesus presente nos necessitados.

Celebrando hoje a realeza de Jesus, ressucitado pela justiça e a misericórdia de Deus, somos julgados pelor pobres mais pequeninos. Porque, é possível proclamar a realeza de Jesus enquanto seus irmãos prediletos são excluídos da liberdade e do direito à vida digna? É possível chamá-lo de Cristo Rei e deixá-lo com fome, com sede, sem casa, nu, doente, aprisionado, sem direito à educação em nosso meio?

Como fala o texto de uma música conhecida:

Seu nome é Jesus Cristo e passa fome
E grita pela boca dos famintos
E a gente quando vê passa adiante
Às vezes pra chegar depressa à igreja

Seu nome é Jesus Cristo e está sem casa
E dorme pelas beiras das calçadas
E a gente quando vê aperta o passo
E diz que ele dormiu embriagado

Seu nome é Jesus Cristo e é analfabeto
E vive mendigando um subemprego
E a gente quando vê, diz: é um à toa
Melhor que trabalhasse e não pedisse

Seu nome é Jesus Cristo e está banido
Das rodas sociais e das igrejas
Porque d’Ele fizeram um Rei potente
Enquanto Ele vive como um pobre

Seu nome é Jesus Cristo e está doente
E vive atrás das grades da cadeia
E nós tão raramente vamos vê-lo
Sabemos que ele é um marginal

Seu nome é Jesus Cristo e anda sedento
Por um mundo de Amor e de Justiça
Mas logo que contesta pela Paz
A ordem o obriga a ser de guerra

Seu nome é Jesus Cristo e é difamado
E vive nos imundos meretrícios
Mas muitos o expulsam da cidade
Com medo de estender a mão a Ele

Seu nome é Jesus Cristo e é todo homem
E vive neste mundo ou quer viver
Pois pra Ele não existem mais fronteiras
Só quer fazer de todos nós irmãos

Entre nós está e não O conhecemos
Entre nós está e nós O desprezamos (2x)

Assim, ao longo dos séculos os cristãos viram neste diálogo fascinante “a melhor recapitulação do Evangelho”, “o elogio absoluto do amor solidário” ou “a advertência mais grave a quem vive refugiado falsamente na religião”. Vamos assinalar as afirmações básicas.

Todos os homens e mulheres sem exceção serão julgados pelo mesmo critério. O que dá um valor imperecível à vida não é a condição social, o talento pessoal ou o êxito conseguido ao longo dos anos. O decisivo é o amor prático e solidário aos necessitados de ajuda.

Este amor se traduz em atos muito concretos. Por exemplo, «dar de comer», «dar de beber», «acolher o emigrante ou estrangeiro», «vestir o nu», «visitar os doentes ou os presos». O decisivo para Deus, não são as ações religiosas, mas estes gestos humanos de ajuda aos necessitados. E podem brotar de uma pessoa crente ou do coração de qualquer um que pensa nos que sofrem.

No evangelho, o grupo dos que ajudaram os necessitados que foram encontrando no seu caminho, não o fizeram por motivos religiosos. Não pensaram em Deus nem em Jesus Cristo. Simplesmente procuram aliviar um pouco o sofrimento que há no mundo. E, por isso, convidados por Jesus, entram no reino de Deus como “benditos do Pai”.

E, por que é tão decisivo ajudar os necessitados e tão condenável negar-lhes ajuda? Porque, segundo revela o Juiz, o que se faz ou o que se deixa de fazer a eles, está-se a fazer ou a deixar de fazer a Deus encarnado em Cristo. Quando abandonamos um necessitado, estamos a abandonar a Deus. Quando aliviamos o seu sofrimento, estamos a faze-lo com Deus.

Esta surpreendente mensagem nos desafia e nos coloca hoje a todos nós a olhar os que sofrem. Porque não há religião verdadeira, não há política progressista, não há proclamação responsável dos direitos humanos se não é defendendo aos mais necessitados, aliviando o seu sofrimento e restaurando a sua dignidade.

Em cada pessoa que sofre Jesus sai ao nosso encontro, olha-nos, interroga-nos e suplica-nos. Nada nos aproxima mais Dele que aprender a olhar demoradamente o rosto dos que sofrem, com compaixão. Em nenhum lugar poderemos reconhecer com mais verdade o rosto de Jesus.

Cada celebração litúrgica é o encontro com o Senhor, nosso pastor, rei e juiz que nos julga, nos purifica e nos faz participantes de sua realeza. Hoje o contemplamos identificado com os pequeninos, pobres, fracos, marginalizados, discriminados e na total doação de sua vida para reconciliar toda a humanidade e todo o universo com Deus e entre si.

Hoje experimentamos por anticipado o Reino que seu amor misericordioso nos preparou: Reino da verdade e da vida, Reino da santidade e da graça, Reino da justiça, do amor e da paz.

Hoje sua Palavra faz cair nossas máscaras, desmontando os mecanismos de poder, ambição e autosuficiência que estão dentro de nós, de nossa Igreja e da sociedade. Assim, sua Palavra nos leva a buscar nossa verdadeira identidade na vivência da misericórdia, da solidariedade, da fraternidade e do amor para com todos, mas particularmente com os pobres, excluídos e mais necessitados. Porque eles e elas são sacramento de Deus e a coroa de nosso Rei. E o amor concreto a eles e elas será o critério de julgamento final.

Por isso, quando o livro do Apocalipse afirma, e, com isso, termina a Bíblia cristã: “Sim, venho em breve” (Ap 22,20b), não se refere a “Alguém” que se encontra fora e ausente da história e voltará em um futuro determinado, mas de “Alguém” que sempre tem estado em meio da história, assinalando caminhos de esperança  “aos pequenos” de todos as épocas: que chamou  um simples pastor, chamado Abraão, para ser pai de uma grande nação; que se  revelou a Moisés para libertar  um povo escravizado; que pela boca do profeta Ezequiel e do salmista se apresentou como o Bom Pastor, e assim caminhou em todas as épocas de crise junto dos empobrecidos, desesperançados e injustiçados, e que, revelado de maneira particular em Cristo, nunca deixará de caminhar com seu povo.

Deste modo, o “Sim, venho em breve”, frase com a qual termina a Bíblia cristã, significa que hoje, como ontem e amanhã, o Senhor vem e virá, mas não para terminar a história de maneira catastrófica e violenta, ou para assinalar o fim deste mundo criado bom por Deus, ou o momento último, mas sim para “terminar e colocar fim” a tudo o que se oponha à vida, ao amor, à paz e à justiça. Por isso, hoje, apesar da violência política, militar, social e econômica, que ameaçam destruir a vida e a criação, a fraternidade e a solidariedade humana, a paz e a justiça, que são as marcas do Reino, podemos e devemos, com esperança, clamar: “Vem, Senhor Jesus”.

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Pedro Triana, Ave. Goiás 2547, Casa 20, Barcelona, São Caetano do Sul/SP, CEP: 09550-051, E-mail: triana231247@yahoo.es e pedro_triana_sp@hotmail.com Telf: res. (11) 4225-1421 e cell. (11) 8362-9220

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