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Ministério e autoridade no anglicanismo


Ministério e autoridade no anglicanismo

(Presentação pelos 25 anos de diálogo Anglicano-Católico Romano, Auditório da Livraria Paulinas, Ave. Domingo de Morais, 660, São Paulo/SP, 17 de março de 2007)

Em primeiro lugar quero agradecer a possibilidade de participar deste ciclo de palestras que comemoram 25 anos de diálogo Anglicano-Católico no Brasil. Penso que 25 anos de diálogo têm levado a nossas igrejas a uma melhor compreensão e certamente têm contribuído a colaborar em muitos projetos.

Talvez muitas das coisas que estão se apresentando ou vão se apresentar não constituem novidades depois de 25 anos de diálogo. E minha reação também não é uma novidade e são assuntos que tenho certeza que já foram apresentados e/ou discutidos antes. Porém, certamente têm novidades que a caminhada histórica acrescenta. Mas o importante e relevante deste ciclo de palestra é o que tem de memória, e acima de tudo de projeção para o futuro..

A palavra «autoridade» tem que ser compreendida de duas maneiras diferente. Por um lado implica aquilo que sustenta as doutrinas, as crenças e os ensinos da Igreja. E aqui estamos falando das fontes de autoridade. Por outro lado, autoridade implica também jurisdição, ou poder ou capacidade, ou seja, quem tem autoridade para tomar decisões sobre doutrina, crenças ou ensino. E já aqui estamos falando das estruturas de autoridade.

Quais são as fontes de autoridade para os anglicanos?

O espaço de tempo que temos não permite entrar em detalhes. Resumidamente, as fontes de autoridade para os anglicanos são: as Escrituras, a Tradição e a Razão.  Mas ainda que as Escrituras constituam a fonte principal de autoridade têm que ser lidas e interpretadas mediante um continuo processo de interpretação, através da Tradição e da Razão. Assim, Escrituras, Tradição e Razão, têm que ir juntas, e se enriquecerem mutuamente, porque a «sola escritura» poderia levar a um fundamentalismo, individualista e a-histórico; a Tradição sola poderia levar a um conservadorismo não crítico; e a sola Razão poderia levar ao racionalismo individualista.

No entanto, como anglicanos não pensamos da Tradição como algo fixo, constante e permanente que se refere somente às antigas tradições. Não entendemos a Tradição como estática, mas dinâmica e enriquecida com a experiência de cada geração cristã.

E por Razão entendemos o que se poderia chamar «o senso comum». A Razão tem a ver com a cultura na qual a Igreja vive e o evangelho é proclamado. É um instrumento legitimo e necessário para a interpretação da mensagem de Deus e para sua inculturação e sua atualização em cada momento histórico.

Então, o que é revelado pela  Razão para uma geração chega a ser parte da Tradição para as gerações posterioes. Por isso, dissemos que a Tradição não é estática, mas dinâmica e que se enriquece com todas as experiências do povo de Deus em todas as partes e por todas as culturas.

Contudo, certamente este triángulo de Escritura-Tradição-Razão não resolve o problema de interpretações contraditórias. Porque enquanto dois ou mais anglicanos podem concordar em um assunto, e com o que os teólogos tradicionalmente têm dito sobre esse assunto, também, pela aplicação da Razão aos dados das  Escrituras e da Tradição, outros podem alcançar diferentes conclusões.

E isto nos leva a pensar nas estruturas anglicanas de autoridade

As estruturas anglicanas de autoridade

Atualmente a Comunhão Anglicana  tem 38 Províncias e cada Província está formada por um número de dioceses. Então a Dioceses com seu Bispo, clero e estruturas de governo, é a unidade básica fundamental das Igrejas Anglicanas.

Cada Província tem seu Sínodo Provincial e todas as dioceses seu Concilio Diocesano. Os Sinodos e Concilios são consultivos e deliberativos, e produzem leis que regulam e projetam a vida, a fé e a doutrina, primeiro das dioceses, e depois a uma instancia superior, ou seja, das Províncias. Mas uma característica fundamental da vida eclesiástica anglicana é o envolvimento de leigos e clérigos, com seus Bispos, na toma de decisões sobre todos os assuntos da vida da Igreja.

Os instrumentos anglicanos de unidade são no presente: a) O Arcebispo de Cantuaria,  Bispo da Diocese de Cantuaria na Inglaterra, fundada por São Agostino de Cantuaria, enviado pelo Papa Gregorio I para convertir aos anglo-saxões, sendo o primeiro Arcebispo  Cantuaria a partir 597, chegando a ser Cantuaria a Sé mais antiga da Igreja de Inglaterra. Então, estar em comunhão com a Sé de Cantuaria é um sinal visível de unidade anglicana. b) As Conferencias de Lambeth, desde 1867. c) O Conselho Consultivo Anglicano, desde 1968, e d) A reunião dos Primazes, desde 1978. Mas fazemos a resalva que todos estes instrumentos anglicanos de unidade são somente consultivos.

Por isso, ainda que a unidade básica fundamental das igrejas anglicanas é a Diocese, são de fato os Sínodos Provinciais os que têm autoridade com relação a assuntos doutrinais. Em “The Gift of Authority”, declaração da Comissão Internacional Anglicano-Católica de 1999, afirma-se que “manter a comunhão precisa a todos os níveis da capacidade de tomar decisões apropriadas para cada nível. Quando estas decisões levantam sérios questionamentos, ou diferentes pontos de vista que afetam a mais ampla comunhão das igrejas, a sinodalidade tem que encontrar uma mais ampla e plena expressão”. Porém, sempre e até agora as igrejas anglicanas têm sido reticentes a aceitar uma autoridade central acima das igrejas nacionais, e do princípio da.autonomia provincial.

E este princípio de autotomia provincial tem sido até hoje uns dos mais prezados tesouros do anglicanismo, o que de fato significa reconhecer as peculiaridades e diferenças culturais das diferentes Províncias. Contudo, nunca como agora o principio de autoridade tem sido mais desafiado. As controvérsias sobre a sexualidade humana a partir de Lambeth 1998 têm alcançado uma dimensão tal que ameaçam a autoridade e a unidade de toda a Comunhão.

Será que o Anglicanismo vai se mover no futuro na procura de uma fonte de autoridade mais centralizada como parece sugerir o documento “The Gift of Authority”? Pessoalmente não penso que esse vai ser o caminho. E considero que as igrejas nacionais vão continuar defendendo o princípio de autonomia das diferentes Províncias. E isto, porque defender esse princípio significa afirmar um princípio fundamental de nossa identidade como anglicanos, e defender e afirmar nossas diferenças culturais. Talvez o caminho seja, mantendo a unidade fundamental em fé e doutrina, não deixar que assuntos como esse da sexualidade humana, que tem mais a ver com a ética que com a doutrina, levem a posições intolerantes e fundamentalistas.

A lição que como anglicanos devemos tirar de todo esse debate sobre a orientação sexual, é que se faz uma urgência para nós repensarmos nossa eclesiologia.  Assim, devemos repensar o que significa «ser anglicano», para recuperar o que em minha opinião poderia se perder: «o espírito anglicano».

Por isso, quando se quer afirmar a tendência à anatematização e à demonização «do outro e da outra», é preciso, nessa recuperação do «ser anglicano», que também recuperemos e assumamos em seu verdadeiro sentido uns de nossos mais apreciáveis princípios: “a via média anglicana”.  Princípio que tem sua origem no pensamento de Richard Hooker, e é retomado no século XIX pelo Movimento de Oxford, sendo a partir desse momento que a “via média anglicana” afirma-se como o princípio fundamental da unidade e da identidade anglicana.

Mas a “via média anglicana” não é ser uma «igreja ponte» entre o protestantismo e o catolicismo romano. A “via média” é um movimento para a unidade, porém, não é um compromisso para conciliar duas partes em discrepâncias, senão um método para compreender a diversidade dentro de nós mesmos, com respeito e ética; é ser mais amplos, flexíveis, respeitosos e éticos para com as outras pessoas e suas idéias.

E termino por aqui estes apontes. Celebrar 25 anos de diálogo nos leva a fazer esta memória, leva-nos a afirmar nossas identidades eclesiásticas, e também a reconhecer nossos pontos fracos. Mas acima de tudo significa olhar mais para o futuro que para o passado, para nos encontrarmos unidos  no meio de nossas diversidades, em nosso compromisso de contribuir a fazer realidade a oração de Jesus: “Pai que todos sejam um”.

Pedro Triana, Ave. Goiás, 2547, Casa 20, Barcelona, São Caetano do Sul/SP, CEP 09550-051, Telf. res.(11) 4225-1421e cel.(11) 8362-9220, Email: triana231247@yahoo.es e pedro_triana_sp@hotmail.com

Discussão

Um comentário sobre “Ministério e autoridade no anglicanismo

  1. Prof. Dr. Rev. Pedro Triana,
    Graça e Paz!

    Gostei muito desta matéria. Parabéns!

    Fraternalmente,
    Sem. Jorge de França

    Publicado por JOrge de França | 4 de abril de 2012, 1:18 am

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