//
você está lendo...
Anglicanismo - português, Artigos, Bíblia - português

Todas as coisas necessárias para a salvação


Todas as coisas necessárias para a salvação

Uma reflexão teológico-hermenêutica

(Palestra apresentada na Jornada Teológica do IAET, “Além da Teologia da Libertação”, 29 de junho -1 de julho/2007, Casa Provincial La Salle, Rua Santo Alexandre, 93, Vila Guilhermina-Esperança, São Paulo)

Introdução

Gostaria, primeiro de tudo, de agradecer a Jaci Maraschin pela oportunidade de participar desta Jornada Teológica do IAET.

Confesso que, quando recebi o convite, desde o princípio, me chamou a atenção o tema escolhido para a jornada: “Além da Teologia da Libertação”. Certamente é uma temática muito interessante, controvertida e atual. E, independentemente das criticas que possamos fazer hoje à Teologia da Libertação e do que possamos pensar sobre sua relevância atual, a escolha certamente abre possibilidade de refletir sobre os novos rumos que a pós-modernidade, a cultura globalizada, e a sensibilidade atual pelos temas culturais e éticos, impõem ao pensamento bíblico-teológico contemporâneo. Por isso, quero dar parabéns a Jaci pela feliz escolha.

Gostaria agora de colocar os parâmetros e limites da minha exposição. Como não sou um teólogo sistemático, mas sim um teólogo bíblico, ou seja, o que se costuma chamar biblista, minha aproximação vai caminhar pelos trilhos da teologia e da hermenêutica bíblica. Em um primeiro momento, gostaria de refletir brevemente sobre ganhos, perdas e limites atuais da Teologia da Libertação, a partir da pergunta: O que resta da Teologia da Libertação? Já, em um segundo momento, quero refletir sobre a tarefa hermenêutica no presente e sua importância na formação do pensamento da Igreja hoje, tendo como pano de fundo nossa herança anglicana.

O que resta da Teologia da Libertação?

As posições com relação à Teologia da Libertação podem ser resumidas em duas: os que anunciam sua desaparição depois da queda do socialismo real – seu referente histórico e filosófico  e aqueles e aquelas que continuam defendendo-a. Mas, nesta exposição, eu não vou assumir posições absolutas. Não vou nem defendê-la nem questioná-la; portanto, não vou me posicionar nem em um sentido nem em outro.

Contudo, quero fazer a ressalva de que, qualquer que seja nossa posição, é uma realidade inquestionável que a irrupção da Teologia da Libertação recuperou para a teologia contemporânea a relação entre a fé e o mundo, entre a teologia e os vitimizados, entre a Bíblia e a Vida. Ou seja, levar a sério os signos dos tempos, de maneira que fazer teologia seja elevar a realidade a conceito, e não simplesmente interpretar a realidade a partir de conceitos prévios, é o que poderia ser chamado “princípio realidade histórica e social”

Assim, entre os ganhos que, em minha opinião, podemos apontar encontram-se: a) a ênfase no Jesus histórico que leva a enfatizar a prática da justiça no seguimento de Jesus; b) a salvação como libertação de toda opressão; c) a dialética entre o Deus da Vida e os ídolos da morte; d) e, finalmente, a realidade de um Deus que está sempre perto.

Por isso, como bem afirmou J. Moltmann, a Teologia da Libertação deixou de ser uma teologia contextual latino-americana para ser uma teologia contextual universal[1]. E, de certa maneira, poderíamos também dizer que abriu e preparou o caminho para outras teologias contextuais contemporâneas.

No entanto, certamente as mudanças introduzidas pela pós-modernidade, a cultura globalizada, a relevância do cotidiano e a sensibilidade atual pelos temas culturais e éticos, e a demanda das outras religiões, mostram e marcam os limites atuais da Teologia da Libertação.

Em primeiro lugar, a Teologia da Libertação sempre enfatizou os grandes textos que realçam a opressão socioeconômica. Isso é importante, mas não suficiente, porque nosso presente mostra que há outras e diversas formas de opressão e exploração e outros muitos êxodos. Assim temos a opressão cultural, étnica, racial, religiosa, a opressão da mulher e das crianças, dos idosos, das pessoas com necessidades especiais, dos sexualmente diferentes, a devastação da natureza. E todas estas temáticas têm desenvolvido ou estão desenvolvendo as chamadas “teologias contextuais ou teologias do genitivo”, que, porque têm a ver com problemas do cotidiano e das particularidades de diferentes grupos e setores sociais, estão redescobrindo e relendo os pequenos textos que afunilam no dia-a-dia e no cotidiano.

Em segundo lugar, na realidade de nosso mundo plural e diverso, o impacto das outras religiões e de outras formas de espiritualidade demanda hoje uma teologia amplamente ecumênica, que se abra ao pluralismo tanto cultural como religioso, porque, como muito bem expressou Jacques Dupuis, “todas as religiões são manifestações de Deus nos moldes culturais de cada povo. Todas respondem ao plano da criação. Todas são caminhos de salvação, de plenitude. Todas, incluída a nossa, refletem uma imagem de Deus. Todas são uma  via da salvação. Nem todas serão iguais, mas não se trata de discutir “quem é o maior de nós”, mas de abrir-nos cordialmente para aprender uns dos outros os novos aspectos da inesgotável infinitude de Deus”.[2] E, em sintonia com essa idéia, também se expressou o Bispo Desmond Tutu: “Eu gostaria que na igreja se celebrasse a diversidade de raças, gêneros, culturas e crenças. Deus não tem necessidade dos cristãos para se autoproteger. E Deus não é especialmente cristão ou anglicano. Ele é o Deus de todos aqueles que desejam ser dele”.[3]

Em terceiro lugar, e finalmente, porque nosso mundo é plural e diverso,  precisa-se de uma teologia e uma hermenêutica bíblica inclusiva e fincada na base da Igreja, e libertadora também das opressões e exclusões eclesiásticas.

Então, depois desses comentários, proponho passar ao segundo momento da apresentação, em que  pretendo refletir, como já disse, sobre a tarefa hermenêutica atual e sua importância na formação do pensamento da Igreja hoje, mas tendo como pano de fundo nossa herança anglicana.

Desafios e perspectivas ante uma nova realidade hermenêutica

a) O Anglicanismo e a Bíblia

As declarações oficiais das igrejas Anglicanas e Episcopais postulam que:

“As Sagradas Escrituras do Antigo e o Novo Testamento [são] a Palavra revelada de Deus”.
• Também que, inspirada por Deus, a Bíblia é “o critério último de suas doutrinas e a principal fonte de guia para sua vida”.
• E, além disso, que “as Santas Escrituras contêm todas as coisas necessárias para a salvação” e que são “a norma e final critério para a fé”.[4]

Todas estas afirmações e declarações têm como fundo as formulações de um dos Padres do pensamento teológico anglicano, Richard Hooker, que coloca como os três pilares do pensamento teológico anglicano: as Escrituras, a Tradição e a Razão.

Portanto, está claro que a Bíblia tem uma posição única e central no Anglicanismo. Isto se evidencia principalmente na vida litúrgica. Um dos primeiros efeitos da reforma inglesa foi precisamente a inclusão nos ritos e ofícios de leituras das Escrituras em língua vernácula, como se ordena na Convenção de 1543. Também o prefácio do primeiro Livro de Oração Comum de 1549, obra litúrgica e teológica, produto do pensamento de Thomas Cranmer, é uma apologia do uso do Lecionário para os Ofícios Diários. E, além disso, o mandamento de Eduardo VI de 1547 ordena que, na Eucaristia, seja lida a epístola e o evangelho em inglês, assim como que se deve ter uma homilia em língua vernácula. [5]

Enfim, que todos os ritos e cerimônias dos primeiros Livros de Oração Comum insistiam na leitura de lições tomadas das Escrituras, incluindo do livro dos Salmos. Nenhuma comunhão ou igreja cristã esteve mais consciente que a Anglicana de que, na sua adoração, as Escrituras devem ser proclamadas em toda a sua plenitude e que nada deve ser lido, orado ou cantado, exceto textos tomados das escrituras ou que estejam perfeitamente baseados nelas.[6]

No entanto, apesar de que o anglicanismo tenha considerado sempre a Bíblia como central, nunca foi claramente expresso o caráter e função da sua autoridade Isto se deve a que o anglicanismo, ao manter que os credos “podem ser  provados pelas Escrituras” [7]e que a Igreja “tem poder para decretar ritos e cerimônias, e ser autoridade em controvérsias de fé, sempre e quando não se aparte do estabelecido pela Palavra escrita de Deus”,[8] se afasta da “sola scriptura” dos mais rigorosos reformadores, introduzindo a Tradição como uma medida de qualificação e critério. Isto faz com que a prática da Igreja (Tradição) possa influir em como as Escrituras em si mesmas foram e devem ser lidas. E aqui, certamente, entra dentro do processo interpretativo o outro pilar enunciado por Hooker, a Razão, que, guiada pelo Espírito Santo, também não pode ser excluída da tarefa hermenêutica..

Certamente, todo o anterior criou, ao longo dos séculos, tensões e controvérsias entre aqueles que postulam a Tradição e a Razão como elementos importantes a considerar no processo interpretativo e aqueles que, seguindo aos reformadores mais radicais, postulam que só o que pode ser rigorosamente provado com a letra das Escrituras tem autoridade. Então, a aproximação Anglicana à Bíblia se movimentou no meio dessas tensões.

No presente, estas tensões se acrescentam  ao desafio da nova consciência científica e histórica, da pós-modernidade e da cultura globalizada, e também pela demanda das outras religiões. Já recentemente, e ainda que não deixe de ser um problema global das igrejas e da teologia contemporânea em geral, temos as tensões que se levantam dentro da Comunhão Anglicana com relação ao debate sobre a sexualidade humana. Tudo isso levanta muitas questões e dúvidas sobre a autoridade das Escrituras e o processo interpretativo.
Não obstante, desde o princípio, a Bíblia alcançou seu lugar como a primeira e fundamental autoridade para os cristãos anglicanos. Mas essa centralidade não foi preservada mediante decretos, dogmas ou leis, senão pelo lugar central da Bíblia na liturgia da Igreja e na vida devocional do povo. Por isso, como anglicanos, não temos um dogma exato sobre a inspiração escriturária, sua natureza e seus limites, que tenha que ser aceito. O princípio central de autoridade no anglicanismo estava enraizado, em suas origens, na convicção de que aqueles cristãos e aquelas cristãs para quem se liam as Escrituras na sua própria língua (particularmente no contexto da adoração), com a direção dos líderes da Igreja, seriam capazes de julgar as coisas essenciais para a fé.

Entretanto, este princípio pode carregar perigos. Por um lado, o perigo de deixar o processo hermenêutico muito aberto e ficar numa leitura ingênua, que pode arrastar, mesmo sem dar-nos conta, ao fundamentalismo bíblico. E, por outro lado, uma aproximação abertamente legalista, literalista e fundamentalista à Bíblia. Mas outro perigo, talvez um dos mais perigosos seja que a Bíblia seja honrada e citada, mas não levada a sério nem aplicada à fé e à prática cristã.

Por isso, como muito bem afirmou Sebastião Gameleira, é um desafio presente a formação, na Igreja, de uma mentalidade bíblica. Porque já não podemos deixar o futuro da Igreja à tradição familiar, já que o contexto urbano mudou radicalmente os vínculos das pessoas com seu ambiente de parentesco. Devemos voltar a pôr urgentemente a Bíblia nas mãos dos crentes, para que se exerça o livre exame das Escrituras. Mas um livre exame cujo sujeito não seja o indivíduo isolado, mas a comunidade, quer dizer, não uma leitura individualista, mas eclesial, que se faz pelo diálogo e o conflito das interpretações, como instrumento de formação da mentalidade bíblica de nosso povo.[9].
Vejamos agora como, no consenso da pesquisa bíblica contemporânea e do pensamento bíblico-teológico anglicano, se considera a Bíblia como fonte de inspiração e revelação das Escrituras; como se vê seu papel como autoridade final; e como pode a Igreja hoje refletir uma compreensão correta da Bíblia.

b) Os conflitos, as crises e a história bíblica

O primeiro descobrimento da ciência bíblica é que a Bíblia não é um livro nascido por geração espontânea, nem caído do céu. Não surgiu em um dia, e sim mediante um processo longo que durou muitos séculos. Isto significa que a Bíblia é um livro carregado de memórias. São memórias que refletem a fé de um povo, seu caminhar em diálogo e relação com Deus, sua interpretação dos eventos de sua vida e de sua história à luz da fé e sua espiritualidade. Mas são, fundamentalmente, memórias de liberação, de organização, de resistência e sobrevivência ante diferentes formas de dominação. São memórias que, passando pelas experiências de oralidade e pela comemoração litúrgica de muitas gerações, se transformaram em memória viva e na literatura sagrada de um povo, o povo de Israel, e posteriormente no livro sagrado dos cristãos.

De maneira que serão primeiro a história do povo de Israel e depois as vivências das primeiras comunidades cristãs, com suas perguntas e seus conflitos, os fatores que farão nascer a Bíblia. Conseqüentemente, será no meio dos conflitos e das crises da história humana que surgirão as Escrituras. E também será no meio da vivência desses conflitos e dessas crises que o povo de Israel, primeiro, e os primeiros cristãos, depois, irão descobrindo quem é Deus.

Na atualidade, numerosos autores, tanto latino-americanos, como norte-americanos  ainda reconhecendo que, no seu produto final, influíram grupos acomodados e afastados do povo  postulam que a Bíblia é, em princípio, produto da memória subversiva dos oprimidos ante diferentes formas de dominação[10]. Por outra parte, José Severino Croatto assinalou que a Bíblia nos apresenta uma mensagem de salvação inserida no meio do agito da história humana[11]. E Carlos Mesters apontou que a Bíblia nasceu dentro da tradição viva da fé do povo de Deus, quedando-se no meio dos conflitos da marcha, e que, lida e relida pelas gerações posteriores, foi levada como um navio pelo rio. Nasceu da preocupação de voltar a encontrar, na realidade dos conflitos de cada época, o chamado do mesmo Deus de sempre. E esse processo de leitura e releitura está na origem da Bíblia[12].

c) Bíblia e diversidade

E, se a Bíblia teve um processo de formação de muitos séculos, é uma realidade que, até chegar a sua forma definitiva, passou por diferentes culturas e várias línguas. E esta realidade tem também que ser considerada para qualquer processo de interpretação.

Os quatro evangelhos foram a transformação em escritura de uma história de muitas décadas de ensino, controvérsia e perseguição, assim como de constantes releituras. E cada um deles responde a comunidades com necessidades diferentes. Portanto as ênfases deles são também diferentes,  e logicamente suas teologias também diferentes. A Carta aos Romanos foi escrita para uma comunidade diferente daquela da Carta de São Tiago. Então, por tudo o anteriormente expresso, é impossível falar de uma teologia na Bíblia. A Bíblia é um mosaico de teologias, muitas vezes conflitantes entre si. .
E as diferenças ou as contradições que encontramos na Bíblia poderíamos tratar de resolvê-las ou interpretá-las de diferentes maneiras ou assumindo diferentes atitudes. Porém, também, poderíamos começar a reconhecer que as próprias contradições podem constituir chaves hermenêuticas que contribuem para liberar a reserva de sentido do texto para nosso presente. E reserva de sentido é o sentido sempre novo que um texto pode oferecer em novas situações.

d) Na comunidade de fé

A Bíblia teve sua origem na experiência das comunidades que acharam que Deus tinha estado misteriosamente, mas decisivamente, presente e ativo entre eles. Então, a comunidade da fé precede à composição da Bíblia, e não o contrário.

Os primeiros cristãos somente conheceram as Escrituras do judaísmo. Na sua origem, os livros do Novo Testamento foram comentários ou releituras à luz do evento Cristo, e também mudaram a interpretação da história de Israel para os cristãos.

Entre as primeiras gerações de cristãos, foram as palavras faladas, e não as escritas, as que levaram à convicção da presença de Deus no mundo. Somente depois a Bíblia, como testemunho escrito,  chegou a ocupar um lugar como fonte de inspiração e testemunho de fé. E foi a própria comunidade, guiada pelo Espírito Santo, atuando como norma e correção, que lhe deu autoridade. Por isso, se diz que a Bíblia é um livro nascido dentro da comunidade da fé.

Porém, hoje tem que haver um processo de continuidade, diálogo e ruptura, entre a comunidade de fé que lhe reconheceu a autoridade e a comunidade de fé que hoje a interpreta. E há continuidade e diálogo porque nos une a fé comum no caráter libertador de Deus, sua incidência na história humana através de todos os séculos, e o evento Cristo, que constitui uma das formas mais altas da revelação de Deus. Mas há ruptura porque hoje interpretamos a Bíblia a partir de uma cultura muito diferente daquela na qual nasceu. Ignorar esse fato ou esse princípio hermenêutico fundamental pode nos fazer cair em fundamentalismos, literalismos, leituras descontextualizadas e finalmente numa manipulação do texto bíblico.

Por isso, é um princípio fundamental, e também muito anglicano, para aproximar-nos da Bíblia que o genuíno conhecimento e compreensão vêm somente por meio da participação comunitária no processo de leitura e interpretação.

e) Historia e narrativa

Segundo Frederick Houk Borsch [13], durante os últimos dois séculos, vários movimentos culturais e intelectuais levaram a crer que há somente duas perguntas que podemos fazer a um texto:

• Aconteceu de verdade? E, se aconteceu, como aconteceu?
• E, também, o que significa?

A primeira pergunta é a pergunta central, tanto para a aproximação mais conservadora, como para a mais crítica.

Ante estas perguntas, o valor das narrações ou pequenas histórias ocupou um papel secundário. Mas, afortunadamente, houve vozes que ajudaram a reter a consciência do valor da narrativa para a teologia bíblica. E isso é reconhecer que as narrativas e histórias não são ilustrações da Palavra de Deus, mas, «são sua Palavra».

Em sintonia com o melhor e mais atual do pensamento hermenêutico contemporâneo, o consenso na aproximação anglicana atual às Escrituras é reconhecer o valor das narrativas, da poesia, dos mitos e da metáfora para dizer verdades universais e permanentes, o que, de outra forma, teria sido impossível nas sociedades pré- científicas do mundo antigo.

Contudo, qualquer aproximação às Escrituras como narrativa, e como parábola e poesia, tanto na liturgia, como por meio de sua leitura regular e da pregação, não responde a todas as nossas perguntas. Pode ser um começo, mas não é suficiente. São necessários estudos históricos, exegese e análise à luz da Experiência e da Razão. Porque, como muito bem disse William Temple, as perguntas históricas, mesmo que não sejam irrelevantes, poderiam levar-nos a perder o verdadeiro propósito teológico que se esconde por trás de um texto.[14]

Assim, a melhor pergunta sobre a Bíblia não é: “O que é a Bíblia?”. A melhor pergunta que podemos fazer sobre a Bíblia é: “O que a Bíblia não é?”.  Deste modo, a Bíblia, não é um livro de biografias no sentido atual do termo; não é um livro de ciências naturais e leis físicas, que tenta explicar a origem do mundo e as instituições sociais; também não é um manual de ética e moral válido para todas as épocas, porque ela reflete os padrões éticos e morais de sua própria época; e, finalmente, não é um manual de história tal como entendemos hoje a história.

Por isso, no presente, temos que dar um grande valor, no processo de interpretação bíblica, às informações que fornecem outras ciências, como a arqueologia, a sociologia, a economia, a história da literatura e as ciências humanas em geral. Os escritores bíblicos viveram em um mundo bem diferente do nosso. Os horizontes são diferentes. Separam-nos culturas, concepções morais e visões diferentes. Mas será precisamente o fato de não pertencer a nenhuma cultura contemporânea um fato da maior importância para desafiar a todas as pessoas em todas as épocas e em diferentes culturas. E isto faz com que os horizontes do passado e o presente se encontrem e se fundam. Dessa maneira, a Bíblia libera sua mensagem para todas as épocas.

Mas o conhecimento dos dados históricos e a análise literária não podem produzir a fusão dos horizontes. Precisa-se também do esforço imaginativo. E o veículo para a imaginação –a máquina do tempo-   é a participação na narrativa e a reflexão da comunidade. É reconhecer que, pela distância de séculos, os escritores bíblicos não pensaram nos mesmos termos que hoje, nem se fizeram as mesmas perguntas que nos fazemos hoje.

O conceito de história do mundo antigo, e particularmente dos hebreus, é muito diferente da concepção moderna de história. Os hebreus não estavam interessados em descrever ou narrar fatos, mas em interpretar os eventos históricos. A concepção hebréia da história é interpretativa, e não descritiva. De fato, os livros que costumamos  chamar de históricos, como Josué, Juízes, Samuel e Reis, são considerados, na tradição hebréia, como profecia. O próprio livro do Apocalipse, com o qual se fecha a Bíblia cristã, é catalogado pelo seu autor  ou autores  como profecia (cf. Ap 22,18-19). Portanto, a narrativa bíblica é fundamentalmente uma leitura teológica e profética da história a partir da fé. É uma mensagem de salvação e liberação inserida em uma única história: a história humana. Comenta José Severino Croatto que será a linguagem simbólica e mítica da religião a que recriará e reinterpretará os eventos, fazendo-os “extraordinários”, “portentosos” e “maravilhosos”, para trans-significá-los. Por isso, a Bíblia não é um documento de história profana, mas uma “história sagrada”, e é como “sagrada” que tem valor para nós[15].

Então, a maioria dos textos bíblicos deveriam ser mais bem considerados como narrativas que usam elementos históricos, que como história em forma de narrativa. E, neste sentido, todo conhecimento é o resultado da interpretação. E este esforço interpretativo mediante releituras parece haver sido muito importante na formação da própria Bíblia. Por isso, quando nos perguntamos o que pensar do processo de inspiração escriturária, devemos focalizar nosso pensamento no próprio processo interpretativo. Então passemos a analisar agora os conceitos de inspiração e revelação.

f) Inspiração e revelação

Poderia haver muitas atitudes de ler a Bíblia. Mas aproximar-se a ela como um livro de história antiga violaria toda a intencionalidade que lhe deu origem. Certamente há dados históricos, mas a informação histórica está inserida na leitura teológica, que interpreta os fatos, cujo produto final não é um texto historiográfico no sentido moderno, mas um texto que se expressa por meio dos próprios códigos da linguagem religiosa.

Contudo, a revelação bíblica é essencialmente histórica, já que o credo israelita não é um catálogo de dogmas doutrinais abstratos, mas uma seqüência de intervenções libertadoras de Deus na história (cf. Dt 26,4-9). O Deus bíblico não é o Zeus distante do panteão grego, nem a causa primeira da filosofia, mas o Deus que acompanha o ser humano em seu acontecer histórico, compartilhando com ele alegrias e dores. O Deus bíblico não é uma idéia intelectual, mas o resumo de uma experiência histórica de liberação[16]. Por isso, a história está na raiz da Bíblia. [17]

Como cristãos e cristãs, nos aproximamos à história bíblica com base em uma experiência de fé, partindo do critério de que a Bíblia é “escritura sagrada”. E o fato de considerar que um texto possa ser inspirado por Deus, e que, portanto, possua um caráter sagrado, determina um tipo de interpretação muito diferente do que poderia ser aplicado a uma obra profana.

Mas há diferentes maneiras de pensar sobre a inspiração bíblica. Algumas vezes, a ênfase recai nas próprias palavras: é o que chamamos literalismo bíblico. Esta visão considera a revelação e a inspiração em relação com o livro. Mas Deus não chamou a muitos homens e muitas mulheres para que se sentassem a escrever um livro, nem partes dele. Deus não chamou a Moisés, nem aos juízes, nem a Samuel, nem a Elias e Eliseu, nem a todos os profetas, nem a Jesus para serem escritores. Elias, considerado o arquétipo do profeta, não escreveu nada, e muito menos Jesus. Para saber deles, temos que recorrer a outros testemunhos, às vezes contraditórios.

De acordo com a tradição veterotestamentária, Deus se revela, sobretudo, para atuar. E esta experiência e memória se refletem na confissão “Yahvé nos tirou do Egito…”, que atravessa todo o Antigo Testamento e que se encontra em textos litúrgicos e catequéticos como Dt 6,1-25; em textos litúrgicos bem antigos, como Dt 26,4-11, assim como no prólogo dos Dez Mandamentos (Ex 20,2).

Portanto, a Bíblia é simplesmente o testemunho da ação libertadora de Deus na história; é a lente, em alguns pontos vazada pelas imperfeições humanas, através do qual olhamos esse testemunho libertador de Deus. Por isso, o erro de qualquer leitura literalista e fundamentalista da Bíblia é identificar Bíblia e Palavra de Deus. A bibliolatria é idolatria, porque a Bíblia, por si mesma, não salva nem liberta; quem salva e liberta é Deus.

Entretanto, como anglicanos, não se requer de nós a crença na inspiração verbal das Escrituras, nem aceitar uma doutrina ou teoria sobre a inspiração. Por isso, como postulou Frederick Houk Borsch, é por meio do processo interpretativo que a inspiração se faz realidade[18]. Isto significa que a inspiração não é algo que ficou no passado, mas é um processo sempre contínuo e sempre presente.

Foi em comunidade que as tradições bíblicas alcançaram sua forma definitiva. E, portanto, é por meio das palavras humanas e as relações inter-humanas que a Palavra de Deus se escuta melhor hoje. Mesmo quando se lê a Bíblia individualmente e privadamente, nos unimos tanto à comunidade que lhe deu origem como à comunidade que a interpreta hoje. É por meio da ajuda da comunidade que escutamos hoje a Jesus, e não o contrário. É por meio das reuniões comunitárias e o compartilhar de histórias e experiências da fé bíblica que podemos construir hoje novas parábolas e visões de fé e esperança.

Hoje, quando tomamos a Bíblia como palavra inspirada, podemos confirmar esta realidade em nossa própria experiência. Porque, como já expressamos, a inspiração é um processo que nunca termina e do qual hoje participamos quando vinculamos nossa experiência presente e a vida. E, sendo parte do processo interpretativo de releitura, nos fazemos também parte do processo de inspiração, e só desta maneira a revelação se fará uma realidade presente hoje, encontrando assim, na Bíblia, luzes e perspectivas, mas não receitas feitas, para os assuntos fundamentais de nossa vida de hoje.

g) …e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará…

As tensões no processo de interpretação da Bíblia continuarão experimentando-se. Mas já vimos que as tensões e conflitos fazem parte do próprio processo de formação do texto bíblico e, de fato, constituem chaves hermenêuticas importantes. Também vimos como as releituras formam, ao mesmo tempo, parte do próprio processo de formação das Escrituras. Por tudo isto, a Razão humana será também parte da tarefa hermenêutica, como foi também nas próprias origens e desenvolvimento das Escrituras.

Além disso, a Experiência cristã contemporânea  os desafios e oportunidades  afetará a interpretação, como foram importantes na própria composição dos materiais bíblicos. E, ao mesmo tempo, a experiência passada da Igreja, ou seja, a Tradição, tal e como a encontramos nas liturgias, credos e posições doutrinais, influenciará o curso da interpretação bíblica contemporânea.

Hoje estamos aprendendo que aqueles e aquelas que experimentam diferentes formas de opressão, marginalidade e exclusão são sujeitos hermenêuticos importantes. A Bíblia, em diálogo com todos eles e todas elas, provocará, exortará e atuará como um elemento crítico para o presente da Igreja. E, neste processo, a Igreja deve estar comprometida não em repetir verdades, mas em uma viagem de descobrimento. É o que foi chamado “a aventura da fé bíblica” [19]. Porque, com suas ambigüidades, incertezas, paradoxos e contradições, a narrativa bíblica nos lembra que há muito sobre Deus e sua presença no mundo que nós, seres humanos, não podemos compreender.

Entretanto, a Bíblia pode também ser domesticada e manipulada. Com ela se legitimou a apartheid, na África do Sul;  legitimou-se a destruição e exclusão de nossas culturas aborígines e também a escravidão dos milhares de negros que foram trazidos da África, sob a suposição de serem descendentes de Cam, o filho maldito de Noé (cf. Gene 9,24-25). E, se, 50 anos atrás, o nazismo quis demonstrar com a Bíblia que os judeus, “por serem os assassinos de Deus”, deviam ser varridos da face da terra, hoje o sionismo pretende legitimar o despojo dos palestinos sob o pretexto do cumprimento das profecias.

Exemplo recente e lamentável dessa manipulação, descontextualização, e dessa leitura fundamentalista e literalista das Escrituras, pode ser encontrado nas declarações de Lambeth 1998 sobre a sexualidade humana. Afastando-se, em minha opinião, do tradicional jeito anglicano de usar a Tradição, a Razão e a Experiência na aproximação ao texto bíblico e dando as costas a princípios hermenêuticos fundamentais da ciência bíblica contemporânea, Lambeth 1998 utiliza textos tirados de seu contexto cultural e religioso, para condenar e excluir as pessoas sexualmente diferentes.

Como muito bem expressou Frei Marcelo Barros: “Os fundamentalistas interpretam os textos bíblicos…como significando uma condenação geral à homossexualidade, do mesmo modo que atribuem às religiões afrobrasileiras o que a Bíblia diz dos ídolos cananeus ou fenícios. Assim, repetem com homossexuais e ou com crentes de religiões negras, o que, no século XVI, o mesmo modelo teológico eclesiástico fez com os anglicanos no reinado de Maria Tudor e com católicos no de Elizabeth I”.[20]

Por tudo isso, essa falsa e errada aproximação às Escrituras – fundamentalista, conservadora e literalista  é altamente perigosa, porque poderia utilizar-se o mesmo princípio para justificar outras exclusões e marginalidades, como, por exemplo, a marginalidade das mulheres  tomando certos textos paulinos tirados de seu contexto cultural e literário , e contribuir, também, para legitimar falsos messianismos políticos, que, utilizando um disfarce religioso, ameaçam a paz e a fraternidade inter-humanas. Com textos tirados de seu contexto social, econômico, cultural e religioso se pode provar qualquer coisa, infelizmente sempre sob o pretexto da pureza da fé.

Por tudo o anteriormente expressado, devemos ter cuidado em não usar a Bíblia como um livro de perguntas e respostas para nosso próprio tempo, ou como um livro de ciência, ou como um livro de história, ou como um livro de receitas éticas e morais. A Bíblia, escreveu o grande pregador norte-americano Phillips Brook, “é como um telescópio”. Se olharmos através do telescópio, olhamos o mundo através dele, mas, se olharmos o telescópio, somente olhamos o telescópio. Por isso a Bíblia é algo através do qual se deve olhar, para ver o que está além. Porém, muitas pessoas só olham o telescópio e somente vêem a letra morta. A Bíblia não significa um código escrito que mata, mas um veículo do Espírito que liberta e dá vida (cf. Jo8,32; 2 Cor 3,6).

Quando, como Anglicanos, afirmamos que “as Santas Escrituras contêm todas as coisas necessárias para a salvação”, queremos significar que elas oferecem o sentido de direção, capacitando-nos para experimentar a presença de Deus no mundo e aprender de seus propósitos. Elas oferecem a força e o poder para começar a fazer sua vontade. Porém, ao mesmo tempo, elas nos libertam de ficar amarrados a qualquer autoridade que não seja o Espírito de Deus como se revela por meio de Jesus Cristo, para quem a Bíblia aponta.[21]

Reconhecer, como Anglicanos, o caráter central e essencial da Bíblia não significa dar-lhe uma autoridade absoluta, porque a mesma Bíblia aponta para a Igreja, que foi a que lhe deu e reconheceu autoridade, como o lugar para descobrir o Espírito de Deus atuando dentro e por meio da comunidade. Daí o princípio anglicano de que a Bíblia sempre tem que ser interpretada por meio da Razão e a Experiência cristã antes que seja reconhecida como revelação.

E, por essa liberdade que as próprias Escrituras nos dão, faz-se um imperativo consolidar uma leitura da Bíblia que desate todo o seu potencial libertador. É necessário aproximar-nos às Escrituras “com olhos e ouvidos abertos e corações ardentes” (Lc 24,31-32). É um imperativo afirmar uma nova maneira de usar “o livro sagrado”, que o resgate, em nosso presente, de leituras excludentes, opressivas e manipuladoras, tanto sociais como eclesiásticas, e faça dele um instrumento de liberação, e não de exclusão e dominação.

Relendo a Bíblia a partir das dores e sofrimentos de hoje

Certamente nos encontramos ante uma nova realidade hermenêutica. Nosso presente é grandemente plural, diverso, complexo e contraditório. E, conseqüentemente, essa nova realidade impõe grandes desafios para nossa missão como Igreja de Jesus Cristo. E a missão da Igreja, em todo tempo e lugar, está estreitamente vinculada ao projeto histórico do reino de Deus, que afirma a opção pela justiça e pela vida plena e abundante para todas as pessoas.

Portanto, em conseqüência  da mensagem bíblica, nossa releitura deverá situar-se dentro das experiências de fé e de compromisso com a vida, a justiça e a paz “dos pequenos” (Mt 25,45).

E, por esse compromisso com “os pequenos”, nossa releitura da Bíblia tem que ser cambiante e contextual, para que seja capaz de responder aos novos desafios que nos chegam do mundo, sendo nossa aproximação confrontada com a realidade sociopolítica, econômica, cultural e religiosa de nossos contextos particulares e do presente contexto global mundial.

Também nossa releitura deverá ser concientizadora, o que significa que devemos assumir o compromisso de ser co-criadores na tarefa de transformação social em prol da justiça e da paz. No entanto, essa conscientização deve começar pelas próprias comunidades que lêem e refletem sobre a Palavra, de maneira que sejam capazes de reavaliar as formas de aproximação à Bíblia e a aplicação prática de sua mensagem.

Por isso, qualquer releitura bíblica deverá ser, além disso, comunitária e amplamente ecumênica. Comunitária, porque a Bíblia é um livro que foi concebido para ser lido e interpretado em comunidade; e amplamente ecumênica para enriquecer a reflexão bíblica com a riqueza da diversidade, inclusive da diversidade religiosa. Nesta leitura comunitária, tanto a contribuição dos especialistas como a do povo simples serão importantes. O especialista deverá contribuir com o instrumental e as categorias críticas  em diálogo com outras ciências sociais e humanas  para evitar as leituras ingênuas, e contribuir para superar os fundamentalismos e literalismos, que levam à manipulação do texto bíblico.

Também deverá ser uma releitura inclusiva, que caminhe ao encontro de grupos e categorias sociais desprezadas e marginalizadas. Aquelas que, no tempo de Jesus, seriam consideradas “impuras”: favelados, idosos, pessoas com necessidades especiais ou excepcionais, meninos de rua, sexualmente diferentes, crentes de outras religiões etc. Contudo fazer uma releitura inclusiva, ou uma hermenêutica e teologia inclusiva “passa necessariamente pela renovação de nossa capacidade de ouvir o clamor das pessoas excluídas de hoje”…,assim como também….,“reordenar nossas instituições eclesiásticas de modo que elas sejam protótipos do Reinado inclusivo de Deus, conforme exemplificado por Jesus[22].

Finalmente, e por tudo o anteriormente expresso, nossa releitura deverá ser profética para a própria Igreja, sendo consciência crítica de tudo o estranho à verdade do evangelho, para evitar que se afaste de sua identidade e compromisso evangélico com o reino de Deus e sua justiça.

 Para refletir:

1- No meio dos desafios e das mudanças de nosso presente, que podemos fazer de maneira prática para que nossa aproximação ao texto bíblico seja:  cambiante e contextual, concientizadora, comunitária e amplamente ecumênica, inclusiva e profética.

3- De que maneira nossa herança anglicana pode dar luzes na tarefa de formar, em nossas comunidades, uma mentalidade bíblica autêntica?

2- Por que é importante, e que poderíamos fazer de maneira prática para formar, em nossas comunidades, uma mentalidade bíblica autêntica?

_______________

Notas/referências bibliográficas

[1] J. Moltmann, Theologie unserer Befreiung, em “Orientierung”, (15.10.1996) p.205,  citado por Jon Sobrino em: Que queda da Teología de la Liberación, em:  Êxodo, 38, abril 97, p. 48-53, Madrid.

[2] Veja Jacques Dupuis. “Hacia una teología cristiana del pluralismo religioso”, Santander, Sal Térrea, 2000.

[3] Desmond Tutu, Citado por Marcelo Barros, em: Simpósio acadêmico de teologia anglicana – O conceito de inclusividade, Porto Alegre, Centro de Estudos Anglicanos, 2004, p.71.

[4] “O Quadrilátero de Chicago” de 1886; “Declarações de Fé e Ordem de 1949 da Convenção Geral da Igreja Episcopal nos Estados Unidos da América”; artigo IV de  “Os Artigos da Religião”; e finalmente “O Quadrilátero de Lambeth” de 1888.

[5] Veja Marion J. Hatchett, “The Bible in Worship”, em: Anglicanism and the Bible,MorehouseBarlow,Wilton,Connecticut, 1984, p.81-82, 91.

[6] Idem. p.115.

[7] Artigo VII de “Os Artigos da Religião”

[8] Artigo XX, idem.

[9] Sebastião Gameleira, Inclusividade na pastoral,  em: Simpósio acadêmico de teologia anglicana – O conceito de inclusividade, op. cit., p.117-118.

[10] Este postulado se justifica, em primeiro lugar, na tradição fundante do êxodo, que atravessa como um fio hermenêutico de sentido toda a história bíblica, que afirma a Yahvé como libertador de escravos e marginais sociais (Ex 3,18); em segundo lugar, nas teses de Hermann Gunkel (Hermann Gunkel, Genesis, Gottinga, 1964 [1910]), que, a partir dos estudos sobre o material narrativo do Gênese, definiu as pequenas unidades (saga-perícopa) como o núcleo gerativo do Pentateuco; e, finalmente, ao fato de que, em termos históricos, foram situações de opressão e crises as que contribuíram para a  fixação de diferentes tradições: a opressão salomônica, a exploração sob Jeroboão II, o exílio babilônico, a nova opressão sob os persas, e a opressão grega e romana. Veja Norman K. Gottwald, The Tribes of Yahweh – A siciology of the Religion of Liberated Israel, 1250-1050, Orbis, Maryknoll, New York, 1979; Milton Schwantes, A família de Sara e Abraão – Texto e contexto de Gênesis 12-25, Editora Vozes/Editora Sinodal, Petrópolis/São Leopoldo, 1986; Jorge Pixley, “Las escrituras no tienen dueño: son también para las víctimas, em: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, Rehue, Santiago de Chile, 1992, No.11, p.123-132.

[11] Carlos Mesters, “La lectura de la Biblia”, em: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, REHUE, Santiago de Chile, 1990, No.5-6, p.125.

[12] Carlos Mesters, “La lectura de la Biblia”, em: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, REHUE, Santiago de Chile, 1990, No.5-6, p.125.

[13] Frederichk Houk Borsch, “All Things Necessary to Salvation”, em: Anglicanism and the Bible. op. cit., p.203-227.

[14] Frederichk Houk Borsch, “All Things Necessary to Salvation”, em Anglicanism and the Bible. op. cit., p.211.

[15] José Severino Croatto, Historia de la salvación – La experiencia religiosa del pueblo de Dios, Ediciones San Pablo, Santiago de Chile, 1995, p.10-12.

[16] Sandro Gallazzi, Por una tierra sin mar, sin templo, sin lágrimas – Introducción a una lectura militante de la Biblia, Ediciones Tiempo Latinoamericano, Córdoba, Argentina, 1996, p.42.

[17] Antonio González Lamadrid, “Historia Deuteronomista”, em: Historia, Narrativa y Apocalíptica. EditorialVerboDivino, Navarra, 2000, p.20.

[18] Frederichk Houk Borsch, “All Things Necessary to Salvation”, em: Anglicanism and the Bible. op. cit., p.214.

[19] Leonard Hodgson, Sex and Christian Freedom, SCM Press, London, 1997, p.42. Citado por Frederichk Houk Borsch, “All Things Necessary to Salvation”, en: Anglicanism and the Bible. op. cit., p.218.

[20] Marcelo Barros, Inclusividade ou exclusividade? em: Simpósio acadêmico de teologia anglicana-O conceito de inclusividade, op. cit. p.73.

[21] Uma ampla reflexão sobre essa liberdade que a própria Bíblia fornece pode encontrar-se em Ernst Käsemann, Jesus Means Freedom, Philadelphia, Fortress Press, 1972.

[22] Veja Júlio Paulo Zabatiero, “Por uma teologia bíblica inclusiva”, em: Simpósio acadêmico de teologia anglicana-O conceito de inclusividade, op. cit.  p.51-52.

_______________

Pedro Triana, Ave. Goiás, 2547, Casa 20, Barcelona, São Caetano do Sul/SP, CEP: 09550-051, Phone: res.(11) 4225-1421e cel.(011) 8362-9220, Email: triana231247@yahoo.es e pedro_triana_sp@hotmail.com

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: