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Não julgue… somente compreenda


Não julgue… somente compreenda

A Comunhão Anglicana e a sexualidade humana

 Assim que não nos julguemos mais uns aos outros;

antes seja o vosso propósito não por tropeço ou escândalo ao irmão.

Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus,

que nenhuma coisa é de si mesma imunda,

a não ser para aquele que a tem por imunda;

para esse é imunda. Rm 14,13-14

Introdução

Desde Lambeth 1888, com o início das discussões sobre a poligamia, a sexualidade humana tem sido até agora um ponto de debate nas Conferencias de Lambeth. Contudo, começando com a resolução sobre a homossexualidade de Lambeth1998, acual categoricamente refere-se a esta orientação sexual como “incompatível com as Escrituras”, posteriormente a nomeação de Jeffrey John como Bispo de Reading na Inglaterra, a eleição e sagração de Gene Robinson como Bispo de New Hampshire, nos Estados Unidos; e recentemente as declarações da 74a Convenção Geral da Igreja Episcopal nos Estados Unidos de América (ECUSA), e do Sínodo Geral da Igreja Anglicana de Canadá 2004, que vêm com bons olhos ou aprova a benção de uniões de pessoas do mesmo sexo, tem aparecido diversas opiniões que ameaçam a própria integridade do anglicanismo. Sem dúvidas, nunca antes a Comunhão Anglicana havia estado envolvida num debate tão acalorado como esse da sexualidade humana.

Desde a minha posição de biblista, anglicano e cubano, pretendo oferecer algumas reflexões, avaliações e apontes muito pessoal, dentro do espírito de diversidade e compreensibilidade que historicamente há caracterizado o anglicanismo. Gostaria destacar que estes apontes encaminham-se nas linhas ética, pastoral, e na valoração eclesiológica. E quero destacar o eclesiológico, porque sem temor de errar, o debate sobre a orientação sexual no anglicanismo tem ido muito além das simples discussões e o debate, para chegar a divisões internar dentro de algumas Províncias, assim como a recriminações e ameaças de excomunhão de umas Províncias para as outras. Sem dúvidas, se não se chegasse a um consenso poder-se-ia chegar até a própria desintegração de nossa Comunhão. Portanto, gostaria na minha reflexão chamar a atenção sobre as lições que como anglicanos, mas particularmente como cristãos nos começos do século XXI, deveríamos tirar de todo esse debate.

Bíblia, tradição e razão

Não estou pretendendo repetir tudo o que já tem sido produzido em termos de estudos hermenêuticos e bíblicos, ou teológicos, ou psicológicos, ou clínicos, ou culturais, sobre a temática da orientação sexual. Todos esses estudos têm amplamente estabelecido que a homo sexualidade nem é pecado, nem é crime, nem é uma doença.[1] Mas como tudo esse debate tem sido legitimado sob bases bíblicas, desde a minha posição de teólogo e biblista, gostaria dar destaque a alguns aspetos hermenêuticos.

As declarações oficiais do anglicanismo estabelecem que:

“As Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento [são] a Palavra revelada de Deus”.

  • Também que inspiradas por Deus a Bíblia é “o último critério de seus ensinos e a principal fonte de guia para sua vida”.
  • E, além disso, que “as Sagradas Escrituras contêm todas as coisas necessárias para a salvação” e que constituem “a norma e critério final para a fé”.[2]

Certamente todas estas afirmações e declarações têm que ser vistas, também, à luz das formulações de Richard Hooker, considerado uns dos maiores teólogos anglicanos de todos os tempos.  Hooker coloca como uns dos pilares do pensamento teológico anglicano: As Escrituras, a Razão e a Tradição.

Mas apesar de que o anglicanismo tem considerado sempre a Bíblia como central, nunca tem sido claramente expressado e definido o caráter e função de sua autoridade.  Deve-se isto a que o anglicanismo quando mantém que os credos “podem ser provados pelas Escrituras”[3] e que a Igreja “tem poder para decretar ritos e cerimônias e ser autoridade em controvérsias de fé sempre que não se afastem do estabelecido pela Palavra escrita de Deus”[4], se afasta da sola escritura dos mais rigorosos reformadores, introduzindo a Tradição como uma medida de qualificação e critério. E a introdução da Tradição como critério hermenêutico faz que a prática da Igreja (tradição) possa influir em como as Escrituras em si mesmas foram e devem ser lidas.  Finalmente, entra no processo interpretativo outro pilar anunciado por Hooker, a Razão, que conduzida pelo Espírito Santo, não pode ser excluído do processo.

Com base nos princípios hermenêuticos expressados anteriormente, gostaria enfatizar, quando vemos o “uso”, ou melhor, o “mal uso” que dá-se às Escrituras para legitimar a marginalidade, a exclusão e a condenação das pessoas de orientação homossexual, que não podemos usar a Bíblia como um livro de perguntas e respostas para nosso próprio tempo, ou como um livro de receitas éticas e morais.

A Bíblia, escreveu o grande pregador norte-americano Phillips Brook, “é como um telescópio”. Se olharmos através do telescópio contemplamos o mundo através dele, mas se olhamos o telescópio, somente vemos o telescópio. Por isso a Bíblia é para olhar através dela para ver o que está além dela mesma, mas quando somente olhamos o telescópio somente temos letra morta. Quer dar destaque o grande pregador ao fato de que a Bíblia não é um código escrito que mate, senão um veículo do Espírito que da vida.  (2 Cor 3,6); a Bíblia é para ser olhada através e além dela mesma.  Por isso a Bíblia sempre tem que ser interpretada através da tradição, da razão e da experiência cristã antes que seja conhecida como revelação.

Algumas aproximações hermenêuticas pensam que há somente três perguntas que podemos fazer-lhe a um texto:  Aconteceu? E se aconteceu, como aconteceu? E também, o que significa?  No entanto, como muito bem foi dito pelo William Temple, as perguntas históricas, ainda que não sejam irrelevantes poderiam nos levar a perder o verdadeiro propósito teológico que está escondido detrás de um texto.[5]

Por outro lado, a melhor pergunta sobre a Bíblia não é:  o que é a Bíblia?; senão, o que não é a Bíblia?  E ante esta última pergunta devemos dizer que a Bíblia:

  • Não é um livro de biografias –no sentido atual do termo- dos personagens históricos mais importantes do povo de Israel e dos primeiros cristãos, mas oferece-nos dados dos personagens mais importantes da fé Judéia e da fé cristã, que somente podemos encontrar entre suas páginas;
  • não é um tratado de ciências naturais e leis físicas, que tenta explicar as teorias da origem do mundo e das instituições sociais, mas oferece-nos a visão do cosmos e dos seres humanos que tinham as pessoas que escreveram os livros;
  • não é um manual de historia, tal e como nós entendemos a historia atualmente, mas dá-nos a conhecer acontecimentos da historia de Israel, do movimento de Jesus e da Igreja que, em muitas ocasiones somente podemos conhecer através dela;
  • não é um tratado de ética e moral  com validade para todas as épocas e lugares, porque as colocações éticas e morais encontram-se no ambiente de uma cultura patriarcal, onde, aliás, as leis de pureza são determinantes.  Por acaso mataríamos hoje a nosso filho ou a nossa filha porque foram repetidamente desobedientes e não respeitam o seu pai e a sua mãe, como fica estabelecido em Deuteronômio 21,18-21?

Por isso temos hoje que dar-lhe um grande valor no processo de interpretação às informações que fornecem outras ciências como a arqueologia, a sociologia, a história da literatura, a economia, a psicologia, e as ciências empíricasem geral.  Porqueos escritores bíblicos viveram em um mundo muito diferente ao nosso. Os horizontes são diferentes. Separam-nos culturas e concepções éticas e morais diferentes. Portanto, é necessário reconhecer que devido à distância de séculos, os escritores bíblicos não pensaram em termos semelhantes aos nossos, nem tiveram as mesmas perguntas que hoje nós fazemos. No caso particular da sexualidade humana, as Escrituras não se encaminham a responder as perguntas que atualmente nós fazemos sobre ética sexual.

E damos destaque a tudo isto, porque acontece que a aproximação literal é a dominante na análise dos únicos cinco textos que expressam opiniões sobre o sexo entre homens[6], com o propósito de tentar “provar” que a homossexualidade é “oposta às Escrituras”. Porém, o melhor e mais atual na ciência bíblica contemporânea já tem amplamente estabelecido que as Escrituras “não se posicionam diretamente em relação à moralidade dos atos homo-genitais, nem das relações gays o lesbianas como as entendemos em nossos dias”.[7]  Também a ciência bíblica tem estabelecido que nem sequer Jesus disse nada sobre a homossexualidade quando encontro-se ante uma pessoa que de acordo aos costumes da época, ao que todo indica, mantinha uma relação afetiva homossexual com seu escravo (Mt 8,5-13; Lc 7,1-10) [8] Em fim, que usando a Razão como princípio hermenêutico, não podemos usar a Bíblia para condenar às pessoas de orientação homossexual.

Por outro lado, os estudos biológicos e psicológicos já têm estabelecido –e aqui também nos encontramos com o princípio hermenêutico da Razão- que as pessoas não “escolhem” ser homossexuais.  Se o assunto fosse simplesmente escolher uma forma de expressão sexual, tal vez poder-se-ia pensar em uma aprovação ou condenação moral.  Mas as pessoas não “escolhem” ser gays ou lesbianas, “reconhece-se, ou” “encontram-se que são” gays ou lesbianas.  Já neste caso temos que considerar como assinala Richard Harries, outras partes da Bíblia onde vemos a atitude de Jesus para com as pessoas marginadas, excluídas e victimizadas da sua época.  Afirma, também, o Bispo Harries, que as implicâncias que têm isto para nossos dias é que tanto como cristãos heterossexuais como homossexuais devemos nos encontrar juntos no Corpo de Cristo, respeitando os pontos de vista dos outros e outras e reconhecendo nossa comum lealdade a Cristo, porque a Bíblia no se interpreta em um mundo atemporal e a-histórico.  Devemos procurar interpretar e aplicar a Bíblia em nosso próprio tempo, da mesma maneira que as pessoas que a escreveram fizeram para seu próprio tempo.[9]  Por isso, como também diz o professor de Novo Testamento norte-americano.  L. William Countryman, “negar a todo um grupo de seres humanos o direito pacífico e não prejudicial para as outras pessoas, de tentar alcançar o tipo de sexualidade que corresponde a sua natureza é uma perversão do evangelho”.[10]

Prejuízo, intolerância e discriminação

Durante muitos séculos a atitude das Igrejas no que diz respeito à sexualidade humana tem sido negativa.  Em termos gerais o sexo tem sido compreendido como a forma de procriar, mas não como uma fonte de prazer.  Porém, hoje se entende que podemos usar nossa sexualidade sem pensar na reprodução.  Também a sexualidade não é somente e necessariamente o ato sexual.  Por isso, as igrejas têm sido acusadas de serem obscurantistas e repressoras da sexualidade.  E ainda que esta afirmação pudesse parecer exagerada, não sempre as pessoas que assim se expressam estão completamente erradas.  Para alguns a única maneira de pecar é através dos genitais.[11]  Mas não é um exagero acusar às igrejas de serem obscurantistas e repressoras da sexualidade, porque na pratica, e sem dúvidas, nas discussões sobre a orientação sexual, tem sido a Igreja a principal instituição que até hoje legitima a discriminação contra as pessoas de orientação homossexual.

Abel Sierra Madero, pesquisador da Fundação Fernando Ortiz, quando reflete sobre a homo-fobia em nossa cultura cubana afirma:

“Quando aprendamos a identificar e reconhecer socialmente a essas pessoas como tal, haveremos começado a reivindicar um tanto as atitudes homofóbicas e discriminatórias que têm marcado nosso passado histórico.  Nossa ‘nação assexuada’ tem tentado excluir aos homossexuais.  Mas acontece que uma nação não se deve construir sobre a base da segregação, da exclusão e da discriminação, pois estaria condenada ao fracasso”.[12]

E quando vemos essas reflexões que partem do mundo secular, que luta com um problema –complexo, e com espinhos e ainda não resolvido-  Por acaso temos esquecido a atitude do próprio Jesus para com os discriminados, excluídos e marginalizados da sua época? Certamente, como tem afirmado o Bispo John S.  Spong, “a Igreja não pode reclamar ser Corpo de Cristo senão pode dar as boas vindas a todas as pessoas as quais o próprio Jesus daria as boas vindas.[13]

Por isso é um fato lamentável e alarmante, pelos princípios discriminadores e excludentes que acompanham os debates, que se tenha desatado todo um “escândalo” a partir das discussões sobre a orientação sexual na Comunhão Anglicana. E muitos perguntamos-nos, por que não se reage com a mesma energia contra os grandes problemas que ameaçam nosso mundo? Por que não háem nossa Comunhãouma reação global e com a mesma força com a que se focaliza o assunto da orientação sexual, contra o genocídio que se faz contra Afeganistão, Iraque, e contra o povo Palestino? Por que não reagimos com a mesma força contra o terrorismo de Estado, os problemas da paz e da violência generalizada, a mundialização .ou globalização neoliberal, e a destruição constante e sistemática de nosso ecossistema, que compromete a vida para as futuras gerações.

Retomando as idéias de um clérigo de nossa Igreja Episcopal de Cuba, o Cônego Odén Marichal, poderíamos dizer que os pobres –sejam heterossexuais ou homossexuais- não têm tempo para discutir, nem estão interessados em discutir, as condutas sexuais das pessoas, nem se importam com seu sexo, porque estão envolvidos completamente na luta pela sobrevivência:  o que comer, onde viver, onde trabalhar, como vestir, como educar os filhos e as filhas, como sarar a família. ? Perguntaríamos aos que estão lutando para dar de comer aos famintos, ou de beber aos sedentos, ou vestir aos que estão sem roupas, se são homossexuais ou heterossexuais? [14]

Sendo anglicanos…?

Certamente penso, como já expressei anteriormente, que todo esse debate tem fortes e profundas implicâncias eclesiológicas, porque tem muito a ver com o “ser anglicano”, ou o chamado “espírito do anglicanismo”. Por isso, considero, também, que o que hoje ameaça mais o anglicanismo e sua pertinência e relevância como parte da Igreja de Jesus Cristo, não é se são ordenados presbíteros e diáconos, gays o lesbianas, porque sempre têm sido ordenados, -o que até o momento não se dizia e se ocultava pelo temor da repressão e da marginalidade- senão que os enfoques, as interpretações e a aproximações éticas, bíblicas e teológicas ao problema, deixam ver que o perigo real é uma afirmação da intolerância, os preconceitos, e as posições conservadoras dentro de nossa Comunhão, y conseguintemente, uma perda crescente do espírito inclusivo e liberal que historicamente tem caracterizado ao anglicanismo.

E quando afirmo que escrevo estes apontes a partir do espírito de diversidade e de compreensibilidade que historicamente tem caracterizado o “ser anglicano”, quero significar a pluralidade e a diversidade como uma unidade de fé e adoração, já reafirmada em Lambeth 1968, no meio das controvérsias sobre a ordenação de mulheres, e da compreensibilidade, também definida em Lambeth 1968 como uma atitude que os anglicanos têm aprendido através de todas as controvérsias de sua historia, e que demanda compromisso no fundamental e desacordo tolerante naquelas coisas que podemos diferir sem a necessidade de quebrar a comunhão.  Compreensibilidade que não significa necessariamente comprometimento, mas que implica que a apreensão da verdade é uma coisa que cresce, e que só poderemos “conhecer a verdade” gradualmente. [15]

Mas se fazemos um balanço do debate sobre a sexualidadeem nossa Comunhão, veremos que desde Lambeth 1888 tem sido um ponto de discussão e conflito.  A poligamia, o divorcio, o controle da natalidade, as relações sexuais pré-matrimoniais e o abuso sexual, têm sido temas de debate e discussões acirradas, assim como de posições divergentes e muitas vezes encontradas.  Mas, como já foi dito, nunca antes as discussões sobre a sexualidade humana no anglicanismo haviam tropeçado com uma questão tão polarizadora como no caso do debate sobre a orientação sexual.

Este assunto aparece pela primeira vez em Lambeth1978. Adeclaração desta Conferencia. estabelece a necessidade de um estudo profundo e desapaixonado das questões da homossexualidade, que tome seriamente tanto os ensinos das Escrituras como os resultados das investigações científicas e médicas.  Anima também Lambeth 1978 ao interesse pastoral e ao dialogo para com as pessoas de orientação homossexual Com relação ao debate sobre a orientação sexual Lambeth 1978 assinalou:

“Hoje não se espera que todos se conformem a uma norma –uma espécie de qualidade meia do ser humano- senão que se regozijem na diversidade. Assim, o status e os direitos dos homossexuais estão sendo reconsiderados.

A homossexualidade é poucas vezes entendida tanto pela igreja como pela sociedade. A pesar de muitas investigações, há uma grande diversidade acerca de sua natureza e causa.  Ainda algumas pessoas consideram-na uma distorção da sexualidade.  Mas a maioria dos homossexuais afirmam que são normais. Eles e elas não pedem simpatia, senão que seja reconhecido o fato de que suas relações homossexuais podem expressar amor mútuo e próprio para as pessoas envolvidas na relação, da mesma maneira que entre os heterossexuais.  Porém, a maioria dos cristãos e as cristãs não querem concordar com essa posição. Contudo, afirmamos que não haverá uma compreensão adequada da sexualidade, tanto na sociedade como um todo, como entre os cristãos, até que seja abordada a questão sem preconceitos e com compaixão.

As questões relacionadas com a homossexualidade são reconhecidamente complexas e observamos que estão sendo objeto de estudos sérios em algumas partes da Comunhão Anglicana.

É responsabilidade de cada uma das igrejas locais se converterem em comunidades afetuosas, centradas em Cristo e a Eucaristia, para que cada temperamento e cada tendência encontre sua verdadeira unidade e comunhão dentro da família total de Cristo, onde todos e todas são pecadores e pecadoras, mas onde todos e todas podem encontrar a graça e o perdão de Cristo na sua Comunidade acolhedora. [16]

Lambeth 1988 reafirma no fundamental a declaração de Lambeth 1978, mas reconhece, também, que há muita confusão no que diz respeito à sexualidade humana, e chama à.atenção para desenvolver um estudo mais abrangente sobre o assunto.  Também exorta levar em conta os fatores socioculturais que poderiam conduzir a diferentes atitudes nas províncias da Comunhão anglicana.  Além disso, volta a manifestar o interesse no cuidado pastoral das pessoas de orientação homossexual.

Uma comparação entre Lambeth 1978 e 1988 nós levaria a reconhecer que ambas Conferencias tratam o assunto com realismo e cautela e sentido pastoral, e, certamente, dentro do espírito anglicano de compreensibilidade, tolerância e respeito pela diversidade.  Nem Lambeth 1978, nem 1988 arriscam juízos precipitados ou absolutos.  Situam o tratamento do tema da orientação sexual dentro do espírito anglicano de aproximação às questões em discussão utilizando dialeticamente, ou seja, em inter-relação, as Escrituras, a Razão e a Tradição.

Por um lado, em Lambeth 1978 e 1988 não vemos uma leitura descontextualizada das Escrituras, simplesmente se faz uma apelo a tomar seriamente seus ensinos.  Por outro lado, falam de ter em conta a Tradição, quando chamam para fazer um estudo profundo e atual, e quando consideram importante os aspectos socioculturais, como se tinha feito anteriormente, com assuntos como a poligamia, o divorcio, e as relações pré-maritais.Além disso, exortam a ter em conta a Razão quando em ambas conferencias se manifesta a necessidade de considerar as investigações biológicas, genéticas e psicológicas.  Contudo, com Richard Harries temos que dizer que uma das principais críticas que deve ser feita aos documentos da Igreja sobre o particular é que sempre referem-se às pessoas de orientação homossexual como “eles” e “elas”, como “os outros” y “as outras”, ou “os estranhos”, “as estranhas”.  Tal parece como se tanto cristãos e cristãs heterossexuais ou homossexuais não foram juntos Corpo de Cristo, chamados e chamadas a se respeitarem mutuamente os pontos de vista de uns e outros, dentro do espírito cristão de amor e fraternidade. [17]

Porém, com Lambeth 1998 já a discussão sobre a orientação sexual toma outro espírito.  Em minha opinião, a declaração sobre a homossexualidade de Lambeth 1998, quando afirma “que as praticas homossexuais são incompatíveis com as Escrituras”, e “não aconselham a ordenação de aquelas pessoas que participem de uniões de um mesmo sexo”, se afasta completamente do espírito mesurado, sensato, compreensivo, pastoral e aberto ao diálogo das duas Conferencias anteriores.

Lambeth 1998 já não chama ao estudo serio das Escrituras, nem a considerar os estudos biológicos, psicológicos e genéticos, nem ter em conta os fatores culturais, nem continuar os estudos do assunto nas diferentes províncias da Comunhão.  Em Lambeth 1998 as Escrituras são descontextualizadas e não são usadas, senão que são “mal usadas” para justificar a exclusão e a marginalidade, neste caso, das pessoas homossexuais, utilizando textos tirados de seu contexto cultural e religioso, dando as costas fingindo não ouvir o melhor e mais atual dos princípios hermenêuticos da ciência bíblica contemporânea.  Mas essa falsa e errada aproximação às Escrituras –fundamentalista, conservadora e literalista- é altamente perigosa, porque poderia utilizar-se também hoje para justificar outras exclusões e marginalidades, como por exemplo, a marginalidade das mulheres, -se são tomados certos textos paulinos tirados de seu contexto-, e contribuir sobre tudo, para legitimar os falsos messianismos políticos, que utilizando um disfarce religioso, ameaçam a paz e a fraternidade inter-humanas.  Em minha opinião Lambeth 1998 parece fazer-nos voltar aos tempos quando eram usados textos bíblicos isolados para justificar a exploração de nossos indígenas americanos, ou para justificar a escravidão dos milhares de pessoas negras que foram desarraigados de seus lares africanos para construir as riquezas dos colonizadores.

Também em Lambeth 1998, quando discute a temática da homossexualidade, não vemos já o tradicional apelo anglicano à Tradição e muito menos à Razão.  Não há mais compreensibilidade, não há mais respeito à diversidade, não há mais respeito pela pluralidade cultural da nossa Comunhão.  Já não há mais nada a ser discutido, já não há nada a ser estudado, já tudo está dito.  Lambeth 1998 clausura dogmaticamente qualquer estudo sobre o particular, fecha o diálogo. E caberia a nós perguntarmos, forma isso parte do espírito cristão e anglicano?

E quando fazemos um balanço de Lambeth 1998 certamente poderíamos também nós perguntarmos:  O que está ficando de uma igreja que tem sido reconhecida como “a Igreja ampla” (broad church), “a casa mais espaçoso e a Igreja mais flexível na Cristandade”, “a Igreja da integração e a reconciliação”.  O que tem ficado da “mutua responsabilidade e interdependência no Corpo de Cristo”, proclamada no Congresso Anglicano de Toronto, 1963, que afirma a missão da Igreja ao mundo a partir da nossa pluralidade e diversidade cultural?  E isso, em minha opinião tem sido o mais lamentável, e constitui o verdadeiro perigo para nossa Comunhão.  Porque dessa maneira tem-se afirmado as bases e o precedente para que o espírito de intolerância e o abandono ao respeito à diversidade e à pluralidade anglicana, não somente ao discutir o assunto da orientação sexual, senão de qualquer assunto controvertido.

E retomando as idéias do Cônego Odén Marichal, poderíamos dizer, que ninguém pense que Jeffery John ou Gene Robinson são os primeiros Bispos homossexuais nomeados e/ou sagrados.  Talvez sejam os primeiros que admitiram publicamente sua orientação homossexual.  E seria impossível dizer, nem sequer aproximadamente, quantos bispos, presbíteros e diáconos, gays ou lesbianos, têmem nossa Comunhão Anglicana.

Poderia parecer, continua refletindo o Cônego Marichal, que para a Igreja o pecado não é que sejam homossexuais ou lesbianas, senão que o tenham admitido publicamente.  Parece que o que ofende não é que sejam homossexuais, senão que falem que são.  Então o assunto seria: mentir não é pecado, o pecado é dizer a verdade. Enquanto todo esteja na penumbra do âmbito secreto não há problema: se eu não sei nada, nem outros sabem o que eu sei, não o sabe a Igreja, e não o sabe Deus.

Lambeth 1998 fala de não ordenar “pessoas que participem de uniões do mesmo sexo”, mas com relação a esta temática também é aguda a apreciação do Cônego Marichal: Vamos depor do ministério aos homossexuais e lesbianas que, já pelo temor de não ser ordenados, ou pela pressão da discriminação, ao tempo de sua ordenação não foi dito e formam hoje parte do ministério ativo da Igreja? O sabemos ou podemos imaginar-lo, mas indulgentemente ficamos calados, porque são nossos amigos e nossas amigas, ou são boas pessoas ou são muito capazes. Então, vamo-los e vamo-las a deixar? E se fazemos isso, por que os que chegaram primeiro ocultando-o sim, e os que não o ocultaram não? Valeu mais a ocultação que o fato da honestidade?

Certamente essas perguntas devem fazer-nos pensar seriamente até onde pode levar-nos a intolerância e a falta de visão.  E poderíamos colocar muitas mais perguntas: Será que vamos afirmar uma dupla moral com relação ao assunto da orientação sexual? E que palavra pastoral teremos para com os gays e lesbianas que todos os domingos sentam-se nos bancos de nossas igrejas? Serão tratados como “os outros e as outras”, “os estranhos e as estranhas”, parte dos excluídos de hoje que Jesus em seu tempo teria convidado ao banquete do Reino (Mt 14,15-24)? O será também que vamos desatar uma “caça de bruxas” e agora também “caça de bruxos”, ao estilo dos processos de heresia da inquisição medieval? Com relação a isto último, diz a teóloga norte-americana Rosemary Radford Ruethe, que ainda que a heresia já não seja uma categoria oficial, as visões contemporâneas da homossexualidade ainda conservam grande parte dessa paranóia cristã clássica. [18]

E não devemos nos enganar, o assunto da homossexualidade é uma realidade, é um fato. Temos tanto no ministério ordenado como nos bancos das nossas congregações pessoas heterossexuais e homossexuais, mas todos e todas, juntos e juntas, somos Corpo de Cristo. E todas as partes do Corpo são dignas e merecem respeito e consideração. (1 Cor 12,12-30). Então, com as atitudes intolerantes, excludentes e marginalizastes, o que se pretende silenciar ou ignorar?

Ser cristãos anglicanos no começo do século XXI

Tem sido dito que não vivemos em uma época de mudanças, senão em uma mudança de época. Por um lado, nosso mundo cada vez é mais plural e diverso.  Por outro lado, vemos a miséria, o sofrimento e a morte, a que a violência, as guerras e, e as estruturas socialmente injustas estão levando aos setores cada vez maiores da população mundial.  A tudo isto se acrescenta a devastação da natureza, que ameaça a sobrevivência em nosso planeta para as futuras gerações. E como cristãos anglicanos devemos viver à altura dos novos tempos. No meio da violência generalizada, da globalização da exclusão e a exploração, da devastação de nosso lar natural, as igrejas e as religiões em geral têm a responsabilidade de contribuir a desenvolver uma cultura de paz e solidariedade e reconciliação, devemos, primeiro aprender a viver essa cultura dentro de nós mesmos, evitando que a intolerância religiosa seja uma fonte de divisões, conflitos e exclusões na sociedade civil, afastando a atenção dos graves problemas que nós afetam.

A lição que como anglicanos devemos tirar de todo esse debate sobre a orientação sexual, é que se faz uma urgência para nós repensarmos nossa eclesiologia.  Assim, devemos repensar o que significa “ser anglicano”, para recuperar o que em minha opinião poderia se perder: o espírito anglicano.  Vamos pensar seriamente os grandes problemas da humanidade; deixemos que cada Província da nossa Comunhão assuma suas próprias opções, nesse caso, sobre a orientação sexual, tento em conta suas características culturais, sem rejeitar-nos, nem excomungar-nos mutuamente.

Por isso, quando se quere afirmar a tendência à anatematização e à demonização “do outro e da outra”, é preciso, nessa recuperação do “ser anglicano”, que também recuperemos e assumamos em seu verdadeiro sentido uns de nossos mais apreciáveis princípios: “a via média anglicana”.  Esse princípio, que tem sua origem no pensamento de Richard Hooker, é retomado no século XIX pelo Movimento de Oxford, no meio das graves e profundas tensões que passou a Igreja de Inglaterra, nas controvérsias entre as tendências protestantes e romanistas. E será a partir desse momento que a “via média anglicana” afirma-se como o princípio fundamental da unidade e da identidade anglicana.

Mas a “via média anglicana” não é, como muitos anglicanos pensam, ser uma “igreja ponte”, porque o Movimento de Oxford reagiu tanto contra Roma como contra os protestantes puritanos. A “via média anglicana” não é uma vitrine para os de afora, nem para convencer aos outros que somos muito moderados, porque não podemos ser moderados para o exterior e extremistas na casa. A “via média” é um movimento para a unidade, porém, não é um compromisso para conciliar duas partes em discrepâncias, senão que é um método para compreender a diversidade dentro de nós mesmos, com respeito e ética; é ser mais amplos, flexíveis, respeitosos e éticos para com as outras pessoas e suas idéias. [19]

Finalmente gostaria terminar com uma anedota que resulta pertinente na temática que temos estado desenvolvendo.

Um homem ocidental estava colocando flores no túmulo de um parente, quando vê um chinês que estava colocando um prato de arroz no túmulo vizinho.

O homem ocidental perguntou para o chinês:

“Você me desculpe senhor, você acredita que seu defunto vai chegar para comer o arroz”. 

 “Sim, respondeu o chinês quando o seu venha a cheirar suas flores”.

A moral da historia seria: Respeitar as opções do outro e da outra é uma das maiores virtudes que um ser humano pode ter. As pessoas são diferentes, atuam diferente e pensam diferente. 

_______________

[1] Veja o trabalho de John Boswell, Christianity, Social Tolerance and Homosexuality – Gay People in Western Europe from the Biginning of the Christian Era to the Fourteenth Century, The University of Chicago Press, Chicago and London, 1980; também o livro de Daniel A. Helminiak, Lo que la Biblia realmente dice sobre la homosexualidad, Editorial EGALES, Barcelona/Madrid, 2003, (original em Inglês  What the Bible really says about homosexuality, Alamo Square Press, San Francisco, 1994); também a coleção de artigos editados por James B. Nelson y Sandra P. Longfellow, no livro, La sexualidad y lo sagrado, Desclée De Brouwer, Bilbao, 1996.

[2] “O Quadrilátero de Chicago” de 1886; “Declarações de Fé e ordem de 1949 da Convenção Geral de Igreja Episcopal nos Estados Unidos de América; artigo IV de “Os Artigos da Religião”; e finalmente “O Quadrilátero de Lambeth de 1888.

[3] Artigo VII de “Os Artigos da Religião”.

[4]ArtigoXX, idem.

[5] Frederichk Houk Borsch, “All Things Necessary to Salvation”, en, Anglicanism and the Bible,MorehouseBarlow,Wilton,Connecticut, 1984, p.211.

[6] Lv18,22 y20,13; Rm1,27; 1 Cor 6,9 y 1 Tm1,10. Ainda que muitas vezes pretendeu-se utilizar também o texto de Sodoma e Gomorra (Gen 19), neste texto, ainda interpretado literalmente, refere-se ao sexo com “anjos”, “mensageiros” de Deus. Por outro lado, não existe um só texto bíblico que fale expressamente do sexo entre mulheres.

[7] Daniel A. Helminiak, Lo que la Biblia realmente dice sobre la homosexualidad, Op. cit., p.237. Veja, também a bibliografía da nota 1.

[8] Veja-se a interpretação que Daniel A.Helminiak faz da cura do escravo do centurião em, Lo que la Biblia realmente dice sobre la homosexualidad, Op. cit., p.227-231.

[9] Rt.Revd.Richard Harries, “Presentation on Human Secuality Anglican Consultative Council X, Panamá City, 1996”, em: Being Anglican in the Third Milleniun, compiled byJames M.Rosenthal and Nicola Currie, Morehouse Publishing, USA, 1997, p.61.

[10] L. William Countryman, “Ética sexual del Nuevo Testamento y mundo actual”, em, La sexualidad y lo sagrado, Op. cit., p.73.

[11] Jorge A. León. Apuntes para una teología de la sexualidad, Psicopastoral, CristianNet.com, 2001.

[12] Abel Sierra Madero, “La policía del sexo – La homofobia durante el siglo XIX en Cuba”, en: Sexología y Sociedad,La Habana, Año 9, No.21, Abril de 2003.

[13] John S. Spong. Prólogo ao livro de Daniel A. Helminiak, Lo que la Biblia realmente dice sobre la homosexualidad, Editorial EGALES, Barcelona/Madrid, 2003. (versão original em inglês, What the Bible really says about homosexuality, Alamo Square Press,San Francisco,CA, 1994.

[14] Odén Marichal, Reitor da Paróquia Episcopal de “Fieles a Jesús”, Matanzas, Cuba e Professor no Seminário Evangélico de Teologia de Matanzas, Cuba, “La sexualidad humana en la Comunión Anglicana – Abriendo la Caja de Pandora en torno a un debate”. (Distribuído eletronicamente).

[15] The Lambeth Conference 1968,S.P.C.K.andSeabury Press,London andNew York, 1968.

[16] The Lambeth Conference 1978. S.P.C.K.,London, p.64-65.

[17] Rt.Revd.Richard Harries, “Presentation on Human Secuality Anglican Consultative Council X, Panamá City,1996”, Op. cit., p.55-66.

[18] Rosemary Radford Ruether, “Homofobia, heterosexismo y práctica pastoral”, em, La sexualidad y lo sagrado, Op. cit., p.585.

[19] Véase “La vía media”, em,  Carta Pastoral, Parroquia de Fieles a Jesús, Matanzas, Cuba,28 de dezembro de 2003 e4 de janeiro de 2004, (distribuída eletronicamente).

_______________

Versão ao português de:

PedroTriana, “Do not Judge… Only Comprehend: The Anglican Communion and the Human Sexuality”, em: Other Voices Other Worlds-The Global Church Speaks Out on Homosexuality, London, Darton, Longman and Todd, 2006, p.208-220.

Tradução e versão

Pedro Triana, Ave. Goiás, 2547, Casa 20, Barcelona, São Caetano do Sul/SP, CEP: 09550-051, Telf: res.(11) 4225-1421e cel.(11) 8362-9220, E-mail: triana231247@yahoo.es e pedro_triana_sp@hotmail.com

Discussão

2 comentários sobre “Não julgue… somente compreenda

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    Publicado por lista de emails | 23 de agosto de 2012, 10:35 am

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