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Estudos bíblicos - Deuteronômio

Palavras para tempos de crises… (III)


Palavras para tempos de crises…

Uma aproximação ao livro de Deuteronômio

Espiritualidade, justiça e solidariedade

O lugar escolhido por Yahvé...

Como tínhamos dito, começamos a transitar por textos do chamado Código Deuteronômico (Dt 12-26), centro e coração teológico de nosso livro. E queremos refletir agora sobre o texto que abre o Código: Dt 12,1-28. E neste texto a expressão “o lugar que o Senhor escolher” repete-se ao longo do conjunto (v.5.11.14.18.21). Mas destacamos, também, que o Código começa e termina com instruções cultuais enfatizando “o lugar escolhido por Yahvé para ali fazer habitar seu nome” (Dt 12,5.11 e 26,2).

Já a pesquisa bíblica enfatizou que a chamada “lei do altar único” ou de um “único santuário” teve um papel fundamental e tremendas conseqüências na reorganização da sociedade judaíta de seu tempo, assim como na história cúltica de Israel.[1] Porém, se dividem as opiniões, por um lado, com relação aos propósitos desta ordenança desconhecida em Israel, acostumado desde suas origens ao culto familiar e à proliferação de santuários (Dan, Bethel, Siquem, Silo), e por outro lado, com relação à identificação do lugar “escolhido por Yahvé”.

Para alguns pesquisadores a “lei do altar único” visava assegurar a exclusiva adoração a Yahvé atendendo a interesses diversos: os interesses imperialistas da monarquia (o rei Josias), que precisava garantir a unidade nacional e aumentar a arrecadação, e os interesses do sacerdócio de Jerusalém que seria beneficiado pelo monopólio do sacrifício[2]. Já, no que diz respeito “ao lugar escolhido por Yahvé”, aponta-se para a cidade de Jerusalém e seu Templo.

No entanto, não temos espaço nem é nosso propósito neste estudo entrar nesse debate. Porque interessa-nos aqui mais bem enfatizar alguns aspectos do texto, como a relação entre culto e fidelidade a Deus, por um lado, com justiça, solidariedade e unidade da comunidade pelo outro lado. Porém, faço alguns comentários e posicionamentos hermenêuticos necessários.

Em primeiro lugar, já falamos do Código Deuteronômico como produto de um movimento social nascido no reino do norte antes da queda de Samaria (722 a.C) e, portanto, anterior à reforma de Josias (640 a.C.). Em segundo lugar, o Código não identifica “o lugar escolhido” com Jerusalém nem proíbe a atividade cúltica fora desse lugar (cf. Dt 12,18). Em terceiro lugar, pensar de Jerusalém como “o lugar escolhido”, faria muito difícil entender à crítica dos profetas do século VIII a.C. à cidade de Jerusalém e ao Templo. Finalmente, se como afirmamos, o movimento deuteronômico foi uma coalizão de diferentes grupos sociais, com base nas famílias camponesas do interior, é muito difícil que o movimento vinculara “o lugar escolhido” com Jerusalém, já que Jerusalém para eles representava um centro de poder político e religioso explorador, extorsivo e ilegítimo.

Portanto, assumimos com alguns pesquisadores, que a “tese do altar único” certamente ocupa um lugar central como um projeto de transformação das estruturas e da vida cotidiana do povo de Judá, mas que em sua totalidade, e do ponto de vista cúltico-religioso visava a unificação da adoração a Yahvé e da espiritualidade judaíta; do político, visava a descentralização do poder monárquico e sacerdotal; do sócio-econômico, visava a justiça social e a libertação do peso da taxação estatal e cúltica; do cultural, visava a libertação do imperialismo assírio[3].

Comereis… e vos alegrareis em tudo…

A expressão “o lugar que Deus escolher” é o elemento que dá coerência a todo o conjunto de Dt 12,1-28, e toda atividade, seja cúltica ou não, se relaciona com esse fato. E se bem é certo que o Código enfatiza a fidelidade absoluta a Yahvé, “no lugar que ele escolher”, desde o princípio se estabelece uma relação estreita entre fidelidade e justiça social. Ou seja, se faz mais ênfases na demanda de incluir ao pobre, aos escravos e às escravas, assim como aos necessitados na celebração a Yahvé, que no ensino de que Yahvé é o único Deus de Israel (Dt  12,12.18; 26,2.10.13.14).

A atividade que mais se destaca é a de comer. O termo “comer” aparece 18 vezes em todo o texto. Vincula-se adoração e celebração com a sobrevivência do povo. Assim, se come como parte da celebração litúrgica (Dt 12,7. 18); se come graças à dádiva e à misericórdia de Deus para com todo o povo (Dt 7.15.20-21); se come mostrando solidariedade para com os mais fracos da sociedade (Dt 12.12.18.19).

Outro termo chave é “todo”. Aparece 14 vezes em Dt 12,1-28 em diferentes contextos. E o fato de ser “todo” o povo convocado para comer juntos para celebrar a Yahvé, faz com que o povo seja, de fato, convocado a relacionar toda sua vida com Deus e com o próximo em uma relação indissolúvel. Então, toda atividade, seja religiosa ou não, se converte em sagrada e solidária. O banquete alegre (“…e vos alegrareis em tudo…”) celebrado em nome de Deus deve ser uma atividade festiva que afirme a igualdade e a justiça. Porque a celebração litúrgica é e deve ser um espaço libertador onde “todos” sejam iguais ante Deus (Dt 12,12). Somente uma vida de total entrega a Deus e a sua justiça vai garantir o bem-estar para todo o povo de Deus (Dt 12,25.28).

Resumindo, em minha opinião, os deuteronomistas, no lugar de enfatizar o aspecto litúrgico externo insistem mais bem nas obrigações éticas e morais que se derivam da relação e da fidelidade dos israelitas com Deus. E, eis aqui a novidade desconhecida até esse momento em Israel! A verdadeira adoração acontece na cotidianidade, onde todos e todas são convidados a comer juntos. A adoração é um espaço libertador onde “todos”: toda a família (filhos e filhas), os escravos e as escravas, assim como os levitas, ou seja, os mais fracos, são iguais ante Deus (Dt 12,12).

Fazer essas palavras atuais para nós hoje, poderia significa, entre outras coisas, reconhecer que uma adoração será verdadeira só quando promove uma comunidade igualitária, quando desarticula injustiças e discriminações de qualquer tipo, e quando chega a ser um movimento de benção para todos os seres humanos.

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Notas/referências bibliográficas 

[1] Veja Rainer Albertz, Historia de la religión de Israel en tiempos del Antiguo Testamento, Madrid, Editorial Trotta, 1999, (v.1 De los comienzos hasta el final de la monarquia), p.386ss; Frank Crüsemann, A Torá – Teologia e história social da lei do Antigo Testamento, Petrópolis, Vozes, 2002, p.311; Gerhard von Rad, Deuteronomy – A Commentary, Philadelphia, Westminster Press, 1966, p.88-89 e Júlio Paulo Zabatiero, Tempo e espaço sagrados em Dt 12,1-17,13 – Uma leitura sêmio-dircursiva, São Leopoldo, Escola Superior de Teologia, (Teses de Doutorado), p.117.

[2] Rainer Albertz, cit., p.388-390.

[3] Veja Júlio Paulo Tavares Zabatiero, cit., p.127.

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