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Artigos, Bíblia - português

“Ai de mim se não evangelizar”


“Ai de mim se não evangelizar”

Uma visão panorâmica da vida e do pensamento de Paulo de Tarso

(Palestra apresentada na Jornada Teológica “Apóstolo Paulo e o ecumenismo”, em 14 de Março de 2009, no Auditório da Livraria Paulinas, Rua Domingo de Moraes, 660, Vila Mariana, São Paulo) 

Introdução

Em primeiro lugar, gostaria agradecer a possibilidade de apresentar estas reflexiones nesta jornada dedicada a refletir sobre a vida e o pensamento duma das figuras mais relevante e singular, mais ao mesmo tempo complexa e controvertida, na historia e no pensamento cristianismo: Paulo de Tarso.

Em segundo lugar, sou um biblista e, portanto, minhas reflexiones estarão encaminhadas pelos rumos da hermenêutica e da teologia bíblica. Porém, aclaro que não sou um especialista em Pablo, minha formação como biblista caminha pelos trilhos do Antigo Testamento. Contudo, sendo Paulo uma figura fascinante e singular na historia do cristianismo, não tive como não aceitar o desafio. Confesso também que na preparação desta palestra aprendi muito sobre sua vida e seu pensamento, comecei a deixar  de lado muitos de meus preconceitos e fiquei animado para pesquisar ainda mais sobre ele. Por esta possibilidade agradeço também ter sido convidado para apresentar esta palestra.

Finalmente, quero agora adiantar por onde caminharemos  nesta apresentação. Num primeiro momento pretendo refletir sobre a relevância do pensamento paulino, aclarando alguns aspetos que me parecem importantes para poder realizar uma releitura correta de Paulo. A seguir abordarei a Paulo como uma figura complexa e controvertida. Depois apresentarei uma visão panorâmica de sua vida na qual inserto as principais ênfases de seu pensamento, porque o pensamento paulino se desenvolve e constrói a partir de sua experiência com o Cristo ressuscitado e de sua prática missionária. Finalmente apresentarei alguns outros assuntos que, em minha opinião, e em sintonia com outros biblistas, filósofos e teólogos, podem ser relevantes na tarefa de reler a Pablo para nosso presente.

Paulo de Tarso: uma figura relevante e singular

Paulo de Tarso é sem dúvida uma figura singular na historia e no pensamento do cristianismo primitivo. Ele representa uma primeira elaboração teológica da fé cristã. Mas seu pensamento não foi o pensamento de um teórico que vive na abstração, senão que  se constrói durante sua labor missioneira, tentando responder aos problemas concretos que vivem as comunidades.

Paulo foi o primeiro em articular uma cristologia,a partir do Cristo morto e ressuscitado.Em sua reflexão cristológica tudo passa pelo prisma do mistério pascal da morte/ressurreição de Cristo. E nessa reflexão o pensamento paulino não foge para um outro mundo, porque a ressurreição não é um fato futuro, ela está hoje no centro de nossa existência. Então, se tivéssemos somente os evangelhos nossa reflexão sobre Cristo seria fragmentada.

Segundo o teólogo uruguaio Juan Luis Segundo, para acompanhar o Jesus apresentado pelos evangelhos sinópticos precisamos da chave política de interpretação. Segundo ele, por mais que os evangelhos sejam espelho da catequese da igreja, os evangelhos empregam um gênero literário narrativo, pelo qual a situação de Jesus, de qualquer maneira é “descrita”. Sua tarefa histórica é de apresentar o profeta. Mas só se consegue captar a mensagem da profecia no horizonte do conflito sociopolítico. [1]

Também, segundo o bispo anglicano Sebastião Gameleira, e sem dúvida penso que está certo, a grande reflexão eclesiológica do Novo Testamento é paulina. Ele dá ao termo secular ekklesia um sentido eclesiológico, traduzindo assim o termo hebraico qahal YHWH a “assembléia de Deus”. Mas não entende a igreja como uma instituição a mais ao lado de outras instituições: “…não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos”. (Col 3,11). Assim, Igreja para Paulo é, antes de tudo, o processo missionário do Espírito pelo qual o evangelho vai transformando o mundo, de modo que todos os povos cheguem a ser povo de Deus (cf. também Gl 3,28 e Ef 2).[2]

Mas, além disso, seu trabalho missionário e teológico permitiu às primeiras comunidades cristãs abrir-se ao diálogo com a cultura greco-romana (inculturação do evangelho),  possibilitando levar ao mundo gentil, em suas próprias categorias de pensamento, e de uma maneira compreensível, a boa noticia de Cristo.

Fala-se que os grandes momentos do cristianismo são momentos paulinos[3].  Paulo Influenciou de forma indiscutível o pensamento de Agostino (passagem do cristianismo antigo à cristandade medieval) e de Lutero ( o cristianismo além do mundo feudal), particularmente no que diz respeito aos conceitos de predestinação e pecado original. E também influenciou o pensamento de Karl Barth (a teologia dialética)

Outro fato de destaque é que o Livro dos Atos desde o capítulo 16 até o 28 fala somente de Paulo. Mas cuidado para não cair no erro de sobrevalorizar e absolutizar por todos esses fatos sua figura. Se Lucas na segunda parte do Livro dos Atos fala somente de Paulo não é porque Paulo fosse o único missionário, sino porque Paulo de certa maneira é apresentado como símbolo de todos os missionários que nesse período levaram as Boas Noticias por todo o mundo. Paulo não poderia ter feito tudo o que fez sem a ajuda daqueles que lhe acompanharam em suas viagens e lhe acolheram em suas casas (At 16,15.34; 18,3-7) e fizeram contribuições para sua causa (Fl 4,15-16; 2 Cor 11,9). Paulo continuou o trabalho já iniciado por outros missionários: em Corinto Priscila e Aquila (At 18,1-4), Apolo em Éfeso (At 18,24-28), em Roma já havia uma comunidade antes de sua chegada (At 28,15; Rm 1,11-15).

Além de tudo isso, havia outros apóstolos que anunciaram o evangelho como Pedro, apesar de que pouco sabemos sobre sua atividade missionária (At 9,32-12,17). E quase nada da atividade de Mateus, Bartolomeu, André, Santiago, Tomé
Simão o zelote e outros tantos, assim como de Filipe (At 8,5-8.26.40) e dos sete diáconos (At 6,5). [4]

Por isso, não podemos relativizar, mas também não podemos absolutizar a figura de Paulo. As primeiras comunidades cristãs muito diversificadas, as pregações dos apóstolos e de um número grande de seguidores de Jesus, já existiam antes dele. Ele representa uma corrente, importante e singular, e fundamental até, do primeiro cristianismo, mas é uma corrente a mais. Ele é “um” entre vários. Se não temos o cuidado de pensar de Paulo nessa dialética, por um lado, estaríamos negando a própria pluralidade do Novo Testamento onde encontramos 27 escritos que se afirmam e corrigem mutuamente[5], assim como a própria auto-compressão que Paulo tinha de si mesmo quando afirma: “a mim, o menor de todos os santos me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo”  (Ef 3,8).

Paulo de Tarso: uma figura complexa e controvertida

Ora se bem Paulo representa uma figura importante e fundamental no pensamento e na historia do primeiro cristianismo, e cuja influencia se fez presente na historia e no pensamento do cristianismo posterior até nossos dias, ele foi, e ainda é, uma figura muito complexa e controvertida. Já foi tido como fundador do cristianismo. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, tal vez em seu intento de criticar o cristianismo da sua época, opõe Jesus e Pablo e afirma que Paulo inventou uma forma religiosa aberrante: o cristianismo, que toma o exato contrapé dos ensinamentos de Cristo do qual Paulo se proclama, desonestamente, o mensageiro.[6] Também fala-se de Pablo como o “criador”, em termos teológicos, do protestantismo, pelas ênfases na salvação pela fé, a mediação exclusiva de Jesus, e o pecado como o mal mais essencial do ser humano que precisa ser superado[7]. Além de tudo isso, Paulo não tem uma boa reputação entre algumas feministas que o consideram um anti-mulher[8]. Também foi acusado de submisso ao império, anti-semita, moralista e até falso apóstolo. Em fim, Paulo foi acusado de tudo.

Por um lado, certamente não é nosso objetivo nesta apresentação abordar todas essas teorias e opiniões sobre Paulo. E por outro lado, apesar de que é preciso admitir que passando de Jesus a Paulo podemos encontrar algo de novo que nenhum leitor deixaria de perceber[9], também não é nosso objetivo entrar a valorar diferencias e semelhanças entre a pregação de Jesus, que encontramos nos evangelhos, e a mensagem de Pablo contida em suas cartas e no livro dos Atos.

Então, penso, como já tem sido dito, que uns dos maiores desafios que temos hoje é fazer uma releitura de Paulo tomando distância das grandes leituras do passado. Faz-se necessário resgatá-lo de todo esse conjunto de teorias para deixar transparecer seu verdadeiro rosto.

Por isso, nesse empenho de redescobrir e reler a Paulo penso  que é preciso, comentar alguns aspetos de sua vida e sua historia. Porque será sua experiência de vida, particularmente o encontro com Cristo ressuscitado no caminho de Damasco, que tornará o fariseu Saulo em Pablo de Tarso, o apóstolo dos gentios.

De Saulo até Paulo de Tarso

Para conhecer sobre a vida de Paulo temos duas fontes principais. Por um lado, os Atos dos Apóstolos e, de outro lado, as cartas aceitas como autenticamente paulinas. Contudo, a fonte principal será o que Paulo diz dele mesmo e somente depois os Atos.

Podemos dividir a vida de Paulo em três grandes momentos:

1-      Os primeiros anos (anos 5-48 d.C.)

2-      Paulo apóstolo dos gentios (anos 48-55 d.C.)

3-      Paulo a caminho de Jerusalém e Roma (anos 55-60 d.C.)[10]

1-      Os primeiros anos (anos 5-48 d.C.)

Paulo fala pouco dos primeiros  anos da sua vida (infância e juventude). Podemos resumir dizendo que nasceu na próspera cidade de Tarso, na atual Turquia, cidade que com Pompeu torno-se capital da província romana de Silicia, cidade economicamente prospera, culturalmente rica e politicamente organizada. Sua formação está arraigada na “tradição dos pais” (2 Cor 11,22)  e as correntes filosóficas do mundo em que vivia. E esse último fato vai ter uma importância singular, pois lhe capacitará para entrar em diálogo com as diferentes culturas do mundo Ocidental (Rm 1,14; Gl 3,28).

Lucas menciona que é cidadão romano (At 16,35-39; 2512.16.21.25), cidadania que deve ter adquirido como herança de seus pais ou avós. E essa cidadania lhe dará certos privilégios como isenção de certos impostos e proteção do Império.

Paulo é, então, por um lado, um cidadão pluricultural e universal  -já que os limites do mundo ocidental estavam marcados pelos limites do Império Romano. E por outro lado, em contraste com Jesus, cuja base social era rural, sua base social era urbana. E sem dúvida, essa pluriculturalidade, universalidade e urbanidade paulina serão fundamentais para o inicio e expansão do cristianismo no mundo globalizado do Império Romano.[11]

Nesta primeira etapa acontece um fato fundamental que mudará completamente o curso da sua vida: o encontro com o Cristo ressuscitado no caminho de Damasco (At 9,3-19; 22,6-16; 26,12-18).  E esse fato conhecido como “conversão” será o “Leitmotiv”  de toda sua ação missionária e evangelizadora.

Sobre sua “conversão/chamado” Paulo diz que foi alcançado por Deus (Fl 3,12). E usando palavras de Jeremias (Jr 1,5) que foi separado desde o ventre materno (Gl 1,15-17). Isto porque havia alguns que talvez tenham desautorizado seu apostolado (Gl 3,20).

Na carta aos Coríntios Paulo diz, usando o mesmo verbo dos relatos evangélicos da ressurreição, que “viu” o Senhor (1 Cor 9,1; 15,8).  E quando afirma que “viu” o Senhor coloca-se em pé de igualdade com todos os que tiveram contato com Jesus ressuscitado. Assim, tudo o que ele faz, tudo o que fala, todas as provações às quais é submetido, está ligado e essa experiência mística do encontro com Cristo ressuscitado. E a partir dessa experiência, a vida de Paulo nunca mais foi igual. O judeu fariseu Saulo de Tarso se transforma em Paulo de Tarso, o apóstolo dos gentios.

 2-      Paulo apóstolo dos gentios (anos 48-55 d.C.)

Já o segundo período que vai desde o ano 48 até o ano 55 é um período decisivo e fundamental no ministério paulino. Este período tem sido chamado de “o período da defensa da verdade do evangelho”[12].

Neste tempo, produto das perseguições, e a vontade de anunciar o evangelho a toda criatura (Mc 16,15),  começa a lenta transição de Oriente para Ocidente, de Palestina para Ásia Menor, Grécia e Itália, da cultura judia para a cultura cosmopolita do mundo grego, do mundo rural para o mundo urbano, de comunidades que surgiram a partir da sinagoga para comunidades mais organizadas que surgem ao redor da casa (oikos) na periferia das grandes cidades do Império.

Neste período o nascente movimento cristão se espalha por todo o império.É o período das viagens missionárias,  quando Paulo planta ou organiza comunidades e escreve a maioria de suas cartas. Mas também é o período da tensão entre os cristãos chegados do judaísmo e aqueles que iam chegando de outras etnias e culturas.

Paulo, junto com outros (Barnabé, Aquila, Priscila e outros) foi figura chave dessa transição. Ele  estava convencido de que depois de Jesus as comunidades viviam um novo momento, o momento da chegada dos gentios ao evangelho. E que esse novo momento, que ele via como uma revelação exigia passar do mundo da observância da lei para o mundo da gratuidade do amor de Deus (Atos 4,36-37; Rm 8,1-4.31-32), porque em Cristo todos os povos foram fundidos em um único povo (multiracial e pluricultural) diante de Deus (Ef 2,17-18; 3,6). Essa era a verdade do evangelho que ele defendia. E ele pôs todas suas capacidades para defender essa verdade. Porque se essa verdade for desvirtuada não seria possível a missão aos gentios.

Assim, o ano 48 foi crucial na vida de Paulo. Marcará um novo começo. Nesse ano acontece a polêmica com as autoridades da Igreja em Jerusalém  e com Pedro em Antioquia, onde o nascente movimento tinha sido chamado pela primeira vez de “cristãos”.  Em Jerusalém trata com ironia às autoridades da igreja “os que eram tidos como notáveis –o que em realidade eles fossem não me interessa- Deus não faz acepção de pessoas” (Gl 2,6). Em Antioquia enfrenta Pedro “porque não andava retamente segundo a verdade do evangelho” (Gl  2,14). E a partir daí, Santiago e a comunidade de Jerusalém se tornaram símbolo de aqueles que exigiam aos gentios convertidos a observância da lei de Moises (At 15,5.20-21; Gl 2,11) e Paulo e a comunidade de Antioquia símbolo da apertura aos não judeus e ao mundo e à cultura greco- romana (At 15,1-2,2); Gl 2,6).[13]

É certo que dessa polêmica a unidade do nascente movimento cristão ficou abalada. Mas como bem afirma Paulo Richard, “É muito difícil, até o dia de hoje, defender simultaneamente a verdade do evangelho e a unidade da igreja. Normalmente a defensa de uma põe a outra em perigo”[14]

No entanto, no caso de Paulo as duas opções foram combinadas dialeticamente de uma maneira frutífera, como vamos ver no seguinte período da sua vida. Mas agora nos damos conta que Paulo esteve certo. Porque se nesse momento a verdade do evangelho tivesse sido desvirtuada e tivesse triunfado nessa polêmica a opção de Pedro e da Igreja de Jerusalém, não teria sido possível a missão aos gentios, ou a nascente comunidade cristãs do mundo gentil teria virado uma seita judaicas e, talvez, o inteiro movimento cristão teria desaparecido junto com o judeo-cristianismo.. Porque a pesar das primeiras comunidades cristãs serem 100% judias é uma realidade que o judeu-cristianismo acabou sumindo na historia[15].

3-      Paulo a caminho de Jerusalém e Roma (anos 55-60 d.C.)

O período final da vida de Paulo vai do ano 55 até o ano 60. Paulo decide ir a Roma, capital do Império, para começar a evangelização do Ocidente. Mas é interessante que decide viajar para Roma passando por Jerusalém. Ora, por que Paulo viaja a Roma passando primeiro por Jerusalém? Segundo Pablo Richard, e penso que está certo, somente tem uma resposta. Para empreender sua  nova missão  era urgente consolidar a unidade do Povo de Deus e da Igreja. Assim, se na etapa anterior Paulo lutará pela afirmação da verdade do evangelho, desta vez sua prioridade será lutar pela unidade da Igreja. E sendo Roma uma missão fundada pela comunidade judeu-cristã de Jerusalém, se Paulo pretendia tomar Roma como base para sua missão ao Ocidente, precisava se reconciliar com Jerusalém.

Mas certamente ouve uma razão mais importante: a unidade da Igreja. Se na etapa anterior de sua vida Paulo foi firme em evitar que o cristianismo se tornasse uma seita do judaísmo, fechada na lei e sem universalidade, agora era preciso afirmar os vínculos com o Israel bíblico para evitar que o cristianismo se tornasse um cristianismo filosófico e abstrato à margem do único Povo de Deus. Quebrar os vínculos com as raízes históricas teria significado para a Igreja da gentilidade uma ruptura com as tradições do êxodo, da profecia, da apocalíptica e da sabedoria do Povo de Deus. Em fim, com toda a história da salvação contida na Bíblia Hebraica. Mas, afirmar a unidade do cristianismo não era só importante para a igreja do mundo gentil assim como para a igreja da circuncisão. Afirmar a universalidade, ecumenicidade, multiculturalidade e pluralidade de todo o povo de Deus, era também fundamental e importante para o futuro do cristianismo.

E para propiciar essa reconstrução e recuperação da unidade da Igreja, Paulo não é retórico, ele tem um gesto muito concreto: organiza uma campanha de solidariedade, uma coleta nas comunidades da gentilidade a favor dos cristãos de Jerusalém (cf. 2 Cor 8-9). E é muito interessante que, ao que todo indica,  muitas das comunidades que participam da coleta são extremadamente pobres (cf. 2 Cor 8,1-4). E esta metodologia paulina de reconstruir a unidade da Igreja a partir da caridade e a solidariedade entre os empobrecidos seria também bom para as igrejas de hoje.

Quando chega a Jerusalém, é recebido com alegria. É convidado e aceita, talvez para agradar à Igreja de Jerusalém, participar duma pratica ritual no Templo. Este fato provoca um escândalo, sendo chamado de mentiroso tanto para judeus como gentios, por essa participação. Vemos assim que sua defenda da unidade, desta vez, coloca em risco sua credibilidade e a própria verdade do evangelho por ele defendida anteriormente ante Pedro e a. Igreja de Jerusalém (At 21,17-36).

E chegamos assim ao final desta caminhada. Paulo morre em Roma no ano 60 decapitado pelo imperador. Desta vez, sua defensa da unidade da Igreja o levou a por em risco a verdade do evangelho. Finalmente não consegue levar o evangelho até a parte mais Ocidental do Império e serão seus discípulos os que continuarão sua missão.[16]

Podemos nos perguntar agora, qual o rosto de Paulo que emerge desta caminhada?

Podemos dizer, resumindo, que é o rosto de um judeu fariseu (Fl 3,3-6) que teve uma experiência com Jesus ressuscitado (At 9,3-9; 1Cor 9,1; 15,8; Fl 3,12; Gl 1,15-17), experiência que marco toda sua vida e que o levou a anunciar até os confins da terra (Rm 15, 24.28) o evangelho de Deus e de Jesus ressuscitado (Rm 1,1). Em suas próprias palavras: “ai de mim se não evangelizar”  (1 Cor 9,17); e também, “a mim, o menor de todos os santos me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo”  (Ef 3,8).

Mas é também o rosto de um judeu fariseu que lutou corajosamente pela inculturação do evangelho, como parte de sua própria experiência no encontro com Cristo, no ambiente pluricultural do Império Romano; o rosto de um judeu fariseu que afirmou à Igreja como uma comunidade que encontra sua ecumenicidade e unidade em sua multiculturalidade, pluralidade e diversidade (Gl 3,28; Col 3,11). Em fim, o rosto de um judeu fariseu que antecipa a época contemporânea a través do caráter universal de seu pensamento, promovendo uma nova relação de fraternidade e de igualdade entre os seres humanos, que derruba os obstáculos étnicos, sociais e de gênero (Gal 3,28; 3,11).[17]

Relendo a Paulo hoje

Se faz necessário agora amarrar toda esta caminhada pelo pensamento e a vida de Paulo de Tarso. E poderíamos nos perguntar agora, quais poderiam ser os maiores ênfases e desafios que uma releitura de Paulo podem trazer para nossa contemporaneidade?

O pensamento paulino é muito rico, mas vou simplesmente apontar alguns destaques, sem interesse de dar receitas, mas simplesmente para contribuir na reflexão

Em primeiro lugar, poderia dizer que Paulo, estando em contato com as três grandes culturas do mundo Ocidental da sua época  -a judia, a grega e a romana-  desenvolveu uma visão pluricultural, inclusiva e universal da Igreja e da sociedade  (Gl 3,28 e Col 3,11) com relação às concepções de seu tempo. Isto poderia constituir um desafio importante para a Igreja em sua labor missionária em nosso presente mundo fragmentado,  global e plural. Fala-se que com essa visão de universalidade, inclusive da sociedade, Paulo antecipa de certa maneira a modernidade[18]

Em segundo lugar, a visão paulina da Igreja mais como parte dum processo que como uma instituição, processo transformador, aberto, abrangente e inclusivo, até que todos os povos e nações cheguem a ser Povo de Deus, deveria ser também um aspecto importante em nossa releitura paulina de hoje.

Em terceiro lugar, apontaria o método paulino da caridade e a solidariedade como caminho para afirmar a unidade da Igreja.

Finalmente, o processo de inculturação do evangelho que ele defendeu e promoveu como a verdade do evangelho, seria também um grande desafio para as igrejas hoje, tanto para a reflexão sobre a relação entre fé e cultura, como para o diálogo inter-religioso no meio dum mundo pluricultural e plurireligioso.

Certamente, e com isto termino, tem razão o bispo Sebastião Gameleira, quando diz que sendo os grandes momentos de reviravolta histórica do cristianismo momentos paulinos, reler a Paulo é uma tarefa imprescindível para discernir elementos centrais e elementos periféricos nas formulações doutrinais cristãs carregas da poeira da historia, mas isso pode chegar a ser tremendamente perigoso porque corremos o risco de ser desmascarados, como pessoas e como igrejas, pois a medida é clara: Letra ou o Espírito? As obras da lei ou a justiça de Deus? Servidão ou Liberdade?[19]

_______________

Notas/referências bibliográficas  

[1]Veja Juan Luis Segundo, O homem de homem de hoje diante de Jesus de Nazaré, São Paulo, Edições Paulinas, 1985, v.2/1, 1985 e Sebastião Armando Gameleira Soares, “Reler Paulo – desafio à igreja”, em Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Petrópolis/Vozes, (Pablo de Tarso. Militante da fé), 20, 1995,  p.46.

[2] Sebastião Armando Gameleira Soares, op. cit. p. 47.

[3] Idem, p.32.

[4] Veja Carlos Mester e Francisco Orofino, “As primeiras comunidades cristãs”, em Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Petrópolis/Vozes, (Cristianismos originários 30-70), 22, 1996. P.38-40

[5] Jean-Claude Eslin, O universalismo paulino, em Revista IHU-Online, www.unisinos.br/ihu, São Leopoldo,22 dezembro de 2008, Edição 286, p.20

[6] Veja comentário sobre o particular de Alain Gignac, em, Revista IHU-Online, www.unisinos.br/ihu, São Leopoldo,22 dezembro de 2008, Edição 286, p.20

[7] Eduardo Pereira, em Revista IHU-Online, www.unisinos.br/ihu, São Leopoldo,22 dezembro de 2008, Edição 286, p.20

[8] Porém, conferir Rm 16,1-15; 1 Cor 11,11; Gal 4,19; 1 Tes 2,7. Também Jerome Murphy O’Connor, em, Revista IHU-Online, www.unisinos.br/ihu, São Leopoldo, 22 dezembro de 2008, Edição 286, p.22, e Irene Foulkes, “Pablo – um militante misógino”, em Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Petrópolis/Vozes, (Pablo de Tarso. Militante da fé), 20, p.119-133.

[9] Veja Archibald Mulford Woodruff, “A igreja pré-paulina”, em Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Petrópolis/Vozes, (Cristianismos originários – 30-70), 22, 1996. p.73.

[10] Seguimos a cronologia de Helmut Köster, citada por Paulo Richard em, Pablo Richard, “A prática de Paulo: suas opções fundamentais”, em Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Petrópolis/Vozes, (Pablo de Tarso. Militante da fé), 20, 1995, p.100-101.

[11] Veja Eduardo Pedreira, “Um plantador de igrejas”, em Revista IHU-Online, www.unisinos.br/ihu, São Leopoldo,22 dezembro de 2008, Edição 286, p.32.

[12] Pablo Richard, op. cit. p.100.

[13] Confira agora Pablo Richard, op.cit. p.100-102; Carlos Mester e Francisco Orofini, op.cit. p.38-39 e Sebastião Armando Gameleira Soares, op. cit. p. 46.

[14] Pablo Richard, op. cit. p.100

[15] Maria Clara Bingemer, “Paulo e a Carta aos Romanos: a Igreja e a Sinagoga”, em Revista IHU-Online, www.unisinos.br/ihu, São Leopoldo,22 dezembro de 2008, Edição 286, p.25.

[16] Para aprofundar na vida de Paulo confira agora Pablo Richard, op.cit. p.100-102; Carlos Mester e Francisco Orofini, op.cit. p.38-39;  Sebastião Armando Gameleira Soares, op. cit. p. 46;  C.H. Dodd, A mensagem de São Paulo para o homem de hoje, São Paulo, Edições Paulinas, 1979; Jerome Murphy O’Connor, Jesus e Paulo: Vidas paralelas, São Paulo, Edições Paulinas, 2008 e do mesmo autor Paulo: historia de um apóstolo, Edições Loyola, 2007 e  Reuberson Rodrigues Ferreira, “Paulo de Tarso: Um breve perfil biográfico”, em A Bíblia: uma janela aberta sobre o mundo bíblico, http://www.abiblia.org.06/09/2008,

[17] Eduardo Pereira, op.cit.

[18] Idem..

[19] Sebastião Armando Gameleira Soares, op. cit. p.50-52.

________________

Pedro Triana, Ave. Goiás, 2547, Casa 20, Barcelona, São Caetano do Sul/SP, CEP: 09550-051, Telf. res. (011) 4225-1421, cel.(011) 8362-9220, E-mail: triana231247@yahoo.es e pedro_triana_sp@hotmail.com

Discussão

2 comentários sobre ““Ai de mim se não evangelizar”

  1. Caríssimo Rev. Pedro Triana,
    Graça e Paz.

    Ainda Lembro desta sua palestra lá nas Paulinas em comemoração ao ano Paulino.

    Gostei muito da sua página. Parabéns.

    Fraternalmente em Cristo, Nosso Redentor.
    Sem.Jorge de França

    Publicado por JOrge de França | 14 de setembro de 2011, 11:46 pm
    • Obrigado Jorge pelo comentário. Ainda estou constroindo o blog por isso não divulguei, mas mesmo assim vc me encontrou…..rs rs. Estou aprendendo a mexer. Em breve postarei mais artigos. Abraços

      Publicado por pedrotriana | 15 de setembro de 2011, 8:49 am

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