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Comunidade primitiva e missão no Novo Testamento


Comunidade primitiva e missão no Novo Testamento

Uma olhada à comunidade cristã primitiva

(Palestra apresentada na Jornada Teológica do IAET, “Missões na perspectiva Anglicana”, 29-31 de julho de 2011, Casa Provincial La Salle, Rua Santo Alexandre, 93, Vila Guilhermina-Esperança, São Paulo)

Intrudução

Conforme a visão anglicana a missão da Igreja é a missão de Cristo, para proclamar as boas novas do Reino de Deus, para ensinar, batizar e nutrir novos fiéis, para responder às necesidades humanas por meio do serviço, para transformar as estruturas injustas da sociedade e para defender a integridade da criação e renovar a vida da terra.[1]

Por tudo isso, se pode afirmar que a igreja só compartilha a própria missão de Deus. Sendo assim, a igreja é a comunidade que é enviada em missão ao mundo em nome de Deus, a proclamar a boa notícia.

Desta maneira, como colaboradores de Cristo, a missão nos compromete para participarmos, como membros do corpo de Cristo, e como Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, parte da Comunhão Anglicana, à necessidade de cumprir nossa parte na missão confiada a todo o povo de Deus.

E serão esses princípios os que nortearam nossa reflexão bíblica e teológica, sobre “Comunidade primtiva e missão no Novo Testamento”, nesta Jornada Teológica que tem como propósito refletir sobre a missão na perspectiva anglicana.

Alguns apontamentos iniciais

O chamado «protocristianismo» ou também «comunidade cristã primitiva» refere-se a um período de aproximadamente 100 anos no qual surgiram os 27 livros do Novo Testamento e se desenvolvem os eventos por eles narrados. Refere-se, por um lado, ao antigo movimento de Jesus, ou seja, as «comunidades de Jerusalém e Judéia» na terra de Israel no período que antecede e segue à destruição do chamado «Segundo Templo» no ano 70d.C. e, por outro lado, as «comunidades de seguidores de Jesus» fora da Palestina em diversas cidades do Império Romano, particularmente as comunidades paulinas e àquelas que podem ser detectadas ainda depois do ano 70 d.C. a partir dos escritos neotestamentários. Desta maneira, poder-se-ia falar também de uma história «neotestamentária»[2].

Delimitando geograficamente as comunidades cristãs primitivas a partir dos escritos neotesmentários, podemos afirmar que viviam todas no Império Romano da época. No entanto, há profundas diferencias culturais, estructurais sociais e religiosas entre o movimento de Jesus na terra de Israel e o movimento de Jesus fora de Israel. Desta maneira, enquanto o movimento de Jesus na terra de Israel deve ser entendido como um movimento ou um fenômeno intra-judaico, as comunidades fora de Israel, apesar de sua proximidade à tradição religiosa judaica, sociologicamente não pode ser considerado um fenômeno do judaismo, já que, como mostram as epístolas paulinas, existiam além das sinagogas da diáspora, ou seja, das instâncias sociais do judaísmo fora de Israel. E esse fato, sem dúvida nenhuma, faz que essas comunidades se distingam em sua própria autocomprensão, tanto do judaísmo (na terra de Israel ou da diáspora) quanto da sociedade dos gentios majoritária.[3]

Então, tendo como pano de fundo essas colocações iniciais, propomos encaminhar  nossa reflexão a partir de quatro momentos: a) Pluralidade, unidade e missão no cristianismo primitivo. b) O movimento de Jesus em Galiléia. c) A comunidade cristã de Jerusalém. d) A comunidade cristã no mundo greco-romano.

Nossas principais fontes bíblicas serão as informações que oferece a tradição sinóptica, particularmente o evangelho de Marcos (por ser anterior ao ano 70 d.C.); as que nos dá Paulo, particularmente em suas sete cartas tidas como autênticas (Rm, 1 e 2 Co, Gl, Fp, 1Ts e Fm), a carta de Tiago, e as informações que oferece a síntesis histórico-teológica de Lucas no livro de Atos dos Apóstolos.

Pluralidade, unidade e missão no cristianismo primitivo

Na Jornada Teológica 2008, que teve como temática “Espiritualidade, ministério e missão”, apresentamos uma palestra titulada “Missão, evangelização e diakonia”. Não vou repetir minhas reflexões  nessa ocasião, e refiro vocês a essa palestra, mas gostaria retomar algunas das minhas colocações por considerá-las pertinentes para abordar a temática desta Jornada Teológica/2011.

Jesus pregou e atuou principalmente na Galiléia e alguns territórios vizinhos. Mas durante muito tempo a pesquisa bíblica ignorou a Galiléia como o berço do cristianismo. Uma leitura limitada e estreita das fontes bíblicas, principalmente do livro de Atos dos Apóstolos e as cartas de Paulo, colocaram as origens do cristianismo apenas em Jerusalém e nas cidades helenistas de Ásia Menor e Roma, deixando de lado outras importantes fontes canônicas, inclusive a própria obra de Lucas e Pablo, assim como fontes não canônicas como o Evangelho de Tomé e a fonte Q. No entanto, recuperar a Galiléia para o estudo das origens do cristianismo, é recuperar a memória dos empobrecidos, dos excluidos, dos marginados, do campesinato, assim como das comunidades locais,  como raiz histórica da identidade do cristianismo primitivo.

Também não corresponde à realidade histórica pensar do cristianismo primitivo como um movimento espalhado pela Palestina e pelo mundo conhecido, sob a condução unificada de Jerusalém, e depois por Roma, após a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C.

Realmente, a visão de um movimento unificado corresponde à teologia de Lucas dos anos 90 d.C., mal interpretada pelo historiador Eusébio de Cesaréia. Uma visão por assim dizer, «oficial», que serviu para legitimar a cristandade que emerge da síntese constantiniana. É uma visão unitária, talvez pensada por pressão externa e não isenta de contradições e exclusões.

Sendo assim, é também algo simplista, como bem aponta Néstor Mínguez, pensar do cristianismo em singular, quando realmente deveríamos pensar do cristianismo em plural, ou seja, «cristianismos»[4].

Realmente o cristianismo nasceu em lugares diferentes e teve durante muito tempo centros independentes e variados (Jerusalém, Galiléia, Antioquia, Éfeso, Edesa, Egito, Roma etc.). Por isso, o original nas origens do cristianismo é o policentrismo e a diversidade; a multiplicidade de movimentos independentes; a centralização é o secundário e tardio. Então, devemos recuperar toda essa história, começando pelos pobres de Galiléia, berço do cristianismo e do primitivo movimento de Jesus (cf. Marcos/fonte Q). Porque recuperar a missão na Galiléia significa recuperar o futuro de todos os povos do Sul.[5]

“Ele vai adiante de vocês para a Galiléia”.

A etapa do movimento de Jesus em Galiéia vai dos anos 30 aos 40 d.C. Sabemos muito pouco sobre este período. Atos dos Apóstolos não informam quase nada. O interesse dos primeiros cinco capítulos não é tanto apresentar como foi a vida das comunidades quanto como deve ser. E por motivos mais teológicos que histórico Lucas insiste em dizer que todo começou em Jerusalém no dia de Pentecostes (cf. Lc 24,47-52; At 1,4-8; 2,1-36). No entanto, esta insistência nos faz perder de vista o trabalho iniciado por Jesus nas comunidades e nas sinagogas de Nazaré durante os três anos de seu ministério.

Então, o melhor seria dizer que todo começou com a decisão de Jesus de anunciar as Boas Novas nas sinagogas de Galiéia após a morte de João Batista (cf. Mc 1,14), e o chamado dado aos discípulos de recomeçar em Galiéia, após a ressurreição, anunciando a Boa Noticia de que o Reino de Deus já era uma realidade presente  (cf. Mt 10,7; Mc 14,28; 16,7; Lc 10,9). Essas primeiras comunidades, antes, mas particularmente após a morte de Jesus, eram atendidas por missionários itinerantes cujo ponto de vista sócio-econômico pode sintetizar-se na frase de Pedro: “Veja! Nós deixamos todo e seguimos o Senhor” (Mc 10,28).

Na sua fase inicial, os que aceitavam o anúncio do Reino eram vistos como uns dos movimentos de renovação dentro do judaísmo, formando pequenas comunidades ao redor das sinagogas, em conflito e à margem do judaísmo oficial. O crescimento tanto geográfico quanto numérico os obrigou a criar novas formas de organização, como por exemplo, os chamados diáconos (cf. At 6,2-6).

O dinamismo desta comunidade está marcado pelo serviço. Ser o último e o servidor é o que ensina Jesus a quem quer ser o primeiro no grupo de discípulos: “Se alguem quer ser o primeiro, deve ficar em último lugar e servir a todos” (cf. Mc 9,35; 10,43-44).

Sua Bíblia era a Escritura sagrada dos judeus. Porém, onde as Escrituras judaicas não eram suficientes, começaram a lembrar as palavras e gestos do próprio Jesus para se animarem e se orientarem na caminhada (cf. At 10,38; 11,16). E aquí já podemos encontrar a origem de nossos evangelhos.

Nesta primeira etapa já aparecem as diferenças e tendências que já existiam no judaísmo e que foram se acentuando ao longo dos anos nas comunidades cristãs: o grupo de Estêvão, que buscava a incluturação no mundo helênico (cf. At 7,1-3); outros unidos a Tiago, e aos irmãos de Jesus, que insistiam na observância da lei de Moisés e das tradições judaicas (cf. Mc 3,31-34; At12,17;21,28;Gl 1,19), entre outros. E se bem essa variedade de grupos e tendências revela a riqueza da vivência das Boas Novas, também revela a fonte e a origem das muitas tensões que acontecerão. Por exemplo, na primeira perseguição, liderada na época por Saulo, foi morto Estêvão e seu grupo teve que sair de Jerusalém, enquanto o grupo de Tiago, Pedro, os apóstolos e os irmãos de Jesus não foi perturvado (cf. At 8,1).

Resumindo, o chamado movimento de Jesus nasceu no meio de uma profunda crises da sociedade judeo-palestina, mas soube articular uma resposta global a dicha crises. A resposta foi presentando o Reino de Deus como um estado de transformação e superação de tudo o que ameaçava a vida das pessoas como projeto derivado do amor de Deus, sendo Jesus o elemento central que dá origem a todos os dinamismos comunitários: ele é quem chama, ele é quem reúne, ele é quem envia. Igualmente, nossas comunidades hoje têm que oferecer espaços e tempos que permitam o encontro com Jesus hoje, profundizando em seu conhecimento e escutando sua palavra.

“…e voltaram para Jerusalém…”

O período da primeira comunidade cristã de Jerusalém corre, de certa maneira, paralelo ao período do movimimento de Jesus em Galiléia (30-40 d.C.) e vai, ao que todo indica, até a dispersão dos judeus de Jerusalém após a toma da cidade por Tito no ano 70 d.C. (cf. Atos 8,1).

A principal fonte para tentar reconstruir as origens do cristianismo em Jerusalém é o livro de Atos dos Apóstolos. Porém, o problema de Atos é que este livro não pretende narrar a historia das origens, mas elaborar uma teologia das origens do cristianismo. Lucas escreve sua reflexão por volta dos anos 90 d.C. sobre fatos que acontecem entre os anos 40-70 d.C. Realmente Atos contêm uma historia real, escondida numa historia construída teologicamente. Mas isto não significa que a obra de Lucas seja apenas mentira ou pura ficção, porém criação teológica em forma histórica.[6] Sem dúvida, a insistência de Lucas em colocar as origens do chamado «movimento de Jesus» e da própria comunidade de Jerusalém no relato do Pentecostes, na própria cidade de Jerusalém, é teologicamente legítimo, porque esse «mito fundante» legitima a unidade das comunidades cristãs da diáspora, as comunidades no mundo helenísta, mas também acolhe ecumênicamente a comunidade de Jerusalém[7].

O primeiro que temos que estabelecer é falar das lideranças desta igreja na cidade que matou a Jesus. Por um lado, Paulo na carta aos Gálatas identifica a Tiago, o irmão de Jesus, ao frente da comunidade de Jerusalém e também menciona a Pedro e João (cf. Gl1,19;2,9). Mas, por outro lado o livro de Atos menciona três grupos: os apóstolos, as mulheres e os irmãos de Jesus. São provavelmente três grupos diferentes, e talvez opostos (cf. At 1,12-15). A eleição de Matias, realizada às prezas e antes da descida do Espírito Santo, e por sorteio e não por consenso, mostra essa pugna entre «os doze» e os irmãos de Jesus (cf. At 1,15-26).

Deste modo, a liderança de Tiago é indiscutível. Repreendeu a Pedro pelo encontro com Cornélio, comandante de um batahão romano, em Cesaréia, e por ter comido com ele. Assim, falou para Pedro: “Você ficou hospedado em casa de homens que não são circuncidados e até tomou refeições com eles” (At 11,3).   Também Tiago foi a liderança máxima no chamado «Concilio de Jerusalém» ainda que Pedro estivesse presente (cf. At 15). E na última visita de Paulo a Jerusalém antes de ser preso, já Pedro não se encontra mais presente, e Tiago funciona como o líder máximo da comunidade, e inclusive aparece dando ordenes a Paulo sobre como devia atuar(cf. At 21).

Sem dúvida nenhuma, pode-se afirmar que a comunidade cristã de Jerusalém era uma comunidade judaica, sendo o templo o centro de sua prática religiosa. É certo que se congregavam em casas para dividir suas propriedades com todos, celebrar a eucaristia, e para comer em comunidade, mas sua vida pública encontrava seu centro no Templo (cf. At 3,1; 4,43-47; 5,25). E será precisamente esse fato o que se encontra na base do conflito entre judaizantes e helenistas que situa a comunidade de Tiago em contraposição ao grupo de Estêvão, aberto ao mundo helenista, narrado em Atos 6, e inclusive responsável pelo afastamento de Pedro da comunidade de Jerusalém narrado em Atos 11.

Assim, a comunidade de Jerusalém estava formada por judeus que esperavan a vinda de Jesus para restaurar o reino de Israel. E essa identidade judia teve um forte componente de protesto social contra as lideranças civis e religiosas judaicas que apoiavam a opresão romana, como transparece na carta de Tiago: “Agora ricos, escutem! Chorem e gritem pelas desgraças que vocês vão sofrer. As suas riquezas estão podres…O seu ouro e a sua prata estão covertos de ferrugens…e não têm pago os salários das pessoas que trabalham…vocês têm condenado e matado os inocentes” (Tg 5,1-4).

Resumindo, poderiamos apontar, que os patriotas judeus de Jerusalém foram aniquilados por Roma na destruição da cidade e seu Templo no ano 70 d.C., e também, ao que todo indica, a comunidade cristã de Jerusalém foi destruída nessa época e teve que fugir de Jerusalém.

Então, poderiamos pensar, por acaso, que fracasou a igreja de Jerusalém? Sem dúvida concordo com Jorge Pixley que não. Apesar, de que não conseguiram entender que na sua época não se podia ser cristão e judeu ao mesmo tempo, e se aferraram aos seus costumes, as suas tradições e a sua religião; apesar de que não conseguiram quebrar seus esquemas nacionalistas e abrir-se ao mundo greco-romano, devemos celebrar sua solidariedade com seu povo aplastado e oprimido por Roma.  Mas, além disso, deixaram para nós dois belos presentes: esse mesianismo liberador, tão importante para nós hoje como igreja brasileira e latino-americana envolvidos nos sonhos  por uma sociedade mais libre e democrática, e também um livro que deveria receber de nós muita mais atenção e estudo, a bela e profunda carta de Tiago.[8]

“Serão minhas testemunhas…até nos lugares mais distântes da terra”.

a)      Considerações preliminares

Em seu discurso de despedida aos seus discípulos Jesus expressou: “…serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os lugares mais distantes da terra” (At 1,8). E certamente o movimento de Jesus, mal assumido e aceito na sociedade judia, foi aceito positivamente no mundo greco-romano, “os lugares mais distantes da terra”, no dizer de Jesus, em um momento de florescimento,  bem-estar e civilização muito importante.

A partir do ano 40 d.C., produto das perseguições, e a vontade de anunciar o evangelho a todas as pessoas (cf. Mc 16,15),  começa a lenta transição de Oriente para Ocidente, de Palestina para Ásia Menor, Grécia e Itália, da cultura judia para a cultura cosmopolita do mundo grego, do mundo rural para o mundo urbano, de comunidades que surgiram a partir da sinagoga para comunidades mais organizadas que surgem ao redor da casa (oikos) na periferia das grandes cidades do Império. O nascente movimento cristão se espalha por todo o  império. É o período das viagens missionárias de Paulo,  quando Paulo planta ou organiza comunidades e escreve a maioria de suas cartas. É o período quando começa a surgir  o que nós chamamos de «Novo Testamento». Mas também é o período da tensão entre os cristãos chegados do judaísmo e aqueles que iam chegando de outras etnias e culturas.

b)      O cristianismo além do judaísmo

Fala-se que o primeiro grande momento do cristianismo ocidental foi a experiência paulina; que o ministério de Paulo foi a grande mudança na vida da igreja e em suas estruturas; e que a literatura cristã dos primeiros séculos tem em Paulo um ponto de referência constante.

Ora se bem Paulo representa uma figura importante e fundamental no pensamento e na historia do primeiro cristianismo, e cuja influência se fez presente na historia e no pensamento do cristianismo posterior até nossos dias, ele foi, e ainda é, uma figura muito complexa e controvertida. Já foi tido como fundador do cristianismo. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, tal vez em seu intento de criticar o cristianismo da sua época, opõe Jesus e Pablo e afirma que Paulo inventou uma forma religiosa aberrante: o cristianismo, que toma o exato contrapé dos ensinamentos de Cristo do qual Paulo se proclama, desonestamente, o mensageiro.[9] Também se fala de Paulo como o “criador”, em termos teológicos, do protestantismo, pelas ênfases na salvação pela fé, a mediação exclusiva de Jesus, e o pecado como o mal mais essencial do ser humano que precisa ser superado[10]. Além de tudo isso, Paulo não tem uma boa reputação entre algumas feministas que o consideram um anti-mulher[11]. Também foi acusado de submisso ao império (cf. Rm 13), anti-semita, moralista e até falso apóstolo. Em fim, Paulo foi acusado de tudo. Mas, certamente não é nosso objetivo nesta apresentação abordar todas essas teorias e opiniões sobre Paulo.

No entanto, é uma realidade que com Paulo aparece pela primeira vez a distinção entre fé e cultura. Ou seja, perceber que uma coisa é o evangelho e outra a cultura dos povos. Assim, ele mostrou e ensinou que a igreja, enquanto inculturação concreta da mensagem de Jesus pode ter rostos diferentes e muito variados, e que nenhum povo nem ninguém pode legitimamente impor aos outros seus próprios estilos de ser, de sentir, de pensar de agir e de celebrar.[12] Por isso, nesta reflexão sobre a primitiva comunidade cristã e missão se faz imprescindível voltar os olhos para Paulo, sua obra e seu pensamento.

No entanto, não podemos absolutizar a figura de Paulo. As primeiras comunidades cristãs muito diversificadas, as pregações dos apóstolos e de um número grande de seguidores de Jesus, já existiam antes dele. Ele representa uma corrente, importante e singular, e fundamental até, do primeiro cristianismo, mas é uma corrente a mais. Ele é “um” entre vários. Se não temos o cuidado de pensar de Paulo nessa dialética, por um lado, estaríamos negando a própria pluralidade do Novo Testamento onde encontramos 27 escritos que se afirmam e corrigem mutuamente[13], assim como a própria auto-compressão que Paulo tinha de si mesmo quando afirma: “a mim, o menor de todos os santos me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo”  (Ef 3,8).

c)      Uma olhada às comunidades paulinas

Paulo, junto com Barnabé, Áquila, Príscila, Apolo e outros, foram figuras chaves dessa transição do Oriente para Ocidente, do judaísmo para o mundo greco-romano. Assim, enquanto Paulo e a comunidade de Antioquia se tornaram símbolo da apertura aos não judeus e ao mundo e à cultura greco- romana (cf. At 15,1-2,2); Gl 2,6), Tiago e a comunidade de Jerusalém se tornaram símbolo de aqueles que exigiam aos gentios convertidos a observância da lei de Moises (cf. At 15,5.20-21; Gl 2,11).[14]

É certo que dessa polêmica a unidade do nascente movimento cristão ficou abalada. Mas como bem afirma Paulo Richard, “É muito difícil, até o dia de hoje, defender simultaneamente a verdade do evangelho e a unidade da igreja. Normalmente a defensa de uma põe a outra em perigo”[15].

Paulo estava convencido de que depois de Jesus as comunidades viviam um novo momento, o momento da chegada dos gentios ao evangelho. E que esse novo momento, que ele via como uma revelação exigia passar do mundo da observância da lei para o mundo da gratuidade do amor de Deus (cf. Atos 4,36-37; Rm 8,1-4.31-32), porque em Cristo todos os povos foram fundidos em um único povo (multiracial e pluricultural) diante de Deus (cf. Ef 2,17-18; 3,6). Essa era a verdade do evangelho que ele defendia. E ele pôs todas suas capacidades para defender essa verdade. Porque se essa verdade for desvirtuada não seria possível a missão aos gentios.

No que diz respeito à condição social dos cristãos e a atuação das mulheres dentro das comunidades paulinas podemos apontar, por um lado, que os numerosos conselhos relacionados com esclavos deixam transparecer que uma grande parte dos primeiros cristãos eram escravos (cf. 1Co12,13;Ef 6,5; Cl3,22;1Tm 6,1).

Por outro lado, já com relação à atuação das mulheres, se bem é certo que na cultura da época a mulher não podia participar da vida pública, e sua função estava restrita à vida familiar, as comunidades paulinas se reuniam não em lugares públicos, mas nas casas do povo: na casa de Príscila e Áquila, tanto em Roma como em Éfeso (cf.Rm 16,5; 1Co 16,19); na casa de Filemom e Áfia em Colosos (cf. Fm 2); na casa de Lídia em Filipos (cf. At 16,15); na casa de Ninfa em Laodicéia (cf. Cl 4,15); na casa de Filólogo e a Júlia, Nereo e sua irmã, e Olimpas em Roma (cf. Rm 16,15).

Vemos, assim, que a criação de «igrejas domésticas» como uma característica das comunidades paulinas, posibilitou uma maior participação e influência das mulheres na vida da comunidade. Desta maneira, as cartas de Paulo lhe mostram como um militante da fé, que longe de ser um misógino, se mostrou alegre e feliz com o companherismo de mulheres que lutavam arduamente dentro do mesmo movimento.[16]

d)      Resumindo

Resumindo nossa caminhada pelas primeiras comunidades cristãs no mundo greco-romano quero presentar alguns destaques.

Em primeiro lugar, as comunidades cristãs no mundo greco-romano sob a influência do pensamento de Paulo, desenvolveram uma visão pluricultural, inclusiva e universal da Igreja e da sociedade (cf. Gl3,28e Col 3,11) com relação às concepções de seu tempo. Isto poderia constituir um desafio importante para a Igreja em sua tarefa missionária em nosso presente mundo fragmentado, global e plural.

Em segundo lugar, a criacião de «igrejas domésticas»  onde a casa, a família e a comunidade tinham uma importância especial, expressa um valor cristão fundamental e um grande desafío para nós hoje: a existência, como estrutura base da Igreja, de comunidades humanas nas quais seja possível a relação inter-pessoal, a comunhão da fé, e a participação efetiva de todos os membros, evitando exclusivismos e o fechamento da Igreja em si mesma.

Finalmente, o processo de inculturação do evangelho característico e fundamental nas comunidades do mundo greco-romano é, sem dúvida, um grande desafio para as igrejas hoje, tanto para a reflexão sobre a relação entre fé e cultura, como para o diálogo inter-religioso no meio de um mundo pluricultural e plurireligioso.

Sem dúvida nenhuma, por um lado, prestar atenção aos conflitos e as tensões relacionados com a inculturação do evangelho no mundo helenista nos deve tornar mais sensíveis às culturas de nossos povos, e ajudar a descobrir nelas os sinais do Reino. E por outro lado, a diversidade de doutrinas e na organização nos deve chamar a prestar atenção à pluralidade que existe em nossas comunidades, não de erros nem de heresias, senão de riqueza no evangelho.[17]

Esperanças  para o futuro…

Nesta breve caminhada pelas origens do cristianismo primitivo, não sei se consegui, mas tentei rescatar e destacar alguns aspectos que considero importantes para nós hoje em nosso compromisso, como Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, de cumprir nossa parte, aqui e agora, na missão confiada a todo o povo de Deus. Mas certamente ainda fica muito por aprofundar. Porém, se alguma coisa fica clara e relevante nesta caminhada é a força «da experiência de Jesus». Força que levou inclusive aos cristãos da terceira geração, a escrever o profundo e desafiante prólogo à primeira carta de João (cf. 1Jo 1,5-10). E será precisamente essa experiência a que temos que recuperar hoje em nossas comunidades.

Em 1970 o controvertido escritor e pensador francés Marcel Légaut (1900-1990) [18] escreveu o livro “Creer en la iglesia del futuro”, (“Acreditar na igreja do futuro”).[19]  Nele o autor estabelece a diferença entre o que ele chama uma «religião autoritária» e uma «religião de chamada», que poderiamos modificar em uma «religião de cumprimento» e uma «religião de experiência».  E o sentido comunitário somente poderá crescer alí onde exista verdadeiramente uma autêntica «experiência do Deus de Jesus» um Deus manifestado como uma força de amor que no diz tanto «você tem/deve» quanto «você pode».[20]

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Notas/referências bibliograficas


[1] www.dm.ieab.org.br/recursos/missao/cinco marcas da missão.

[2] Ekkerhard W. Stegemann e Wolgang Stegemann, História social do protocristianismo – Os primórdios no judaísmo e as comunidades de Cristo no mundo mediterrâneo, Sinodal/Paulus, São Leopoldo/São Paulo, 2004, p.13.

[3] Ibid., p.16.,

[4] Néstor Mínguez, Contexto sociocultural de Palestina”, em: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, RECU/Quito/Euador, 22, 1996.

[5] Veja Pablo Richard, “Los diversos orígenes del cristianismo – Una visión de conjunto (30-70 d.C.)”, em: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, RECU/Quito/Ecuador, 22, 1996. Veja também, Tomás Kraft. “La iglesia primitiva en África”. em: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, RECU/Quito/Ecuador,29, 1998 e Ediberto López. “Los orígenes del cristianismo y el evangelio de Tomás”, em: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, RECU/ Quito/Ecuador, 22, 1996.

[6] Pablo Richard, “Los diversos orígenes del cristianismo – Una visión de conjunto (30-70 d.C.)”, op.cit., p.17.

[7] Paulo Agusto de Souza Nogueira, “La comunidad olvidada – Un estudio sobre el grupo de los helenistas en Hechos 6,1-8.3, em: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, : RECU/Quito/Ecuador, 22, 1996, p.120.

[8] Veja Jorge Pixley, “Santiago y la iglesia de Jerusalén”, em: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, RECU/Quito/Ecuador, 22, 1996.

[9] Veja comentário sobre o particular de Alain Gignac, em, Revista IHU-Online, www.unisinos.br/ihu, São Leopoldo, 22 dezembro de 2008, Edição 286, p.20

[10] Eduardo Pereira, em Revista IHU-Online, www.unisinos.br/ihu, São Leopoldo, 22 dezembro de 2008, Edição 286, p.20

[11] Porém, conferir Rm 16,1-15; 1 Cor 11,11; Gal 4,19; 1 Tes 2,7. Também Jerome Murphy O’Connor, em, Revista IHU-Online, www.unisinos.br/ihu, São Leopoldo, 22 dezembro de 2008, Edição 286, p.22, e Irene Foulkes, “Pablo ¿un militante misógino? Teoría de género y relectura bíblica”, em: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, RECU/Quito/Ecuador, (Pablo de Tarso. Militante de la fe), 20, 1995.

[12] Veja agora Sebastião Armando Gameleira Soares, “Relectura de Pablo – Desafío para la iglesia”, em: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, RECU/Quito/Ecuador, (Pablo de Tarso. Militante de la fe), 20, 1995.

[13] Jean-Claude Eslin, O universalismo paulino, em Revista IHU-Online, www.unisinos.br/ihu, São Leopoldo, 22 dezembro de 2008, Edição 286, p.20

[14] Confira agora Pablo Richard, “La práctica de Pablo y sus opciones fundamentales”, em Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, RECU/Quito/Ecuador, (Pablo de Tarso. Militante de la fe), 20, 1995; Carlos Mester e Francisco Orofino, “Las primeras comunidades cristianas dentro de la coyuntura de la época – Las etapas de la historia del año 30 al año 70”, em Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, RECU/Quito/Ecuador, (Cristianismos originarios 30-70), 22, 1996; e Sebastião Armando Gameleira Soares, op. cit.

[15] Pablo Richard, “La práctica de Pablo y sus opciones fundamentales”, op. cit.

[16] Confira agora Carlos Mester e Francisco Orofino, op. cit.;  também, Irene Foulkes, op. cit.

[17] Carlos Mester e Francisco Orofino, op. cit

[18] Marcel Légaut (1900-1990), católico, escritor e pensador francés. Para maiores informações sobre sua vida e obra veja: Marcel Légaut, Wikipedia – la encicopedia libre.

[19] Este livro inclui quatro capítulos e meio dos seis que formam a 2a parte de Introduction à l’intelligence do passé et de l’avenir de Christianisme (París, 1970), que o autor revisou e modificou com o objetivo de ser reeditados em francés em1985. A tradução ao espanhol é de Domingo Melero e foi publicada em Santander/Sal Terrae,1988.

[20] Veja José Antonio Badiola, La comunidad cristiana primitiva: algunos trazos característicos.pdf (artigo tomado da internet).

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Rev. Dr. Pedro Triana, Ave. Goiás 2547, Casa 20, Barcelona, São Caetano do Sul/SP, CEP 09550-051, Telf: res.(11) 4225-1421; cel.(11) 8362-9220, E-mail: triana231247@yahoo.es ou pedro_triana_sp@hotmail.com

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